Adeus Columbus

Trip

Colaborações para a Revista Trip.

O Homem de três mil vozes

Ed. Maio 2008

Luiz Ernesto Kawall não vê a menor graça no mímico Michel Marceau, nem realiza negócios se a proposta for trocar mil palavras por uma imagem. Jornalista aposentado, 79 anos, ele é um apaixonado pela voz e há quarenta anos faz disso um trabalho, cataloga registros de vozes de personagens importantes da política e da cultura do mundo inteiro.

A coleção com cerca de três mil registros espalha-se pela sala do seu apartamento em centenas de LPs, fitas K7, CDs, aonde repousam em improvável organização as vozes de Hitler, Gandhi, JK, Thomas Edison, Getúlio Vargas, John Kennedy, Manuel Bandeira, Câmara Cascudo, além de coisas tão curiosas quanto afetivas para Kawall, como um raríssimo registro da voz de Santos Dumont e a interpretação em português, com carregado sotaque, de “Luar do Sertão”, por Marlene Dietrich.

A “vozoteca”, como ele chama, começou ainda na década de 1950 quando ganhou um LP com discursos do virulento Carlos Lacerda, presenteado pelo mesmo. De lá para cá a chegada de novos exemplares é quase diária. Os últimos ele exibe com orgulho: Albert Einstein, um mais antigo do que possuía, de Gandhi, e um discurso de Fidel Castro junto com Che Guevara. Aliás, pelo tempo que gastava falando, só Fidel parece tão apaixonado pela voz do que Kawall. A coleção está aberta a visitas, basta agendar por telefone, 011 3062 0015.

Na terra do deus-mar

Ed. Abril 2008

“Essa é uma terra de um deus-mar / de um deus-mar que vive para o sol”. Os versos da canção Linda Baby (hino informal de Natal), de Pedrinho Mendes, compositor natalense, fazem completo sentido assim que pomos os pés na cidade. O sol que brilha durante nove meses no ano ajuda a realçar a cor do mar, ora verde, ora azulado. Sol e mar são os principais atrativos para turistas do mundo inteiro à capital do Rio Grande do Norte. Muitos deles acabam ficando e você corre esse risco, de tanto que vai gostar do lugar.

Natal vem passando por um período de crescimento. O boom econômico se acentuou nos últimos cinco anos e a cidade é hoje a segunda que mais recebe investimentos estrangeiros no país, só perdendo para São Paulo. Isso quer dizer que, além dos atrativos naturais, ganhou infra-estrutura que permite ao visitante se esbaldar com conforto.

De mochila nas costas, albergue, flat, bumba, carro, hotéis de luxo ou resorts, qualquer que seja a sua modalidade de turismo preferida, ou possível, Natal dispõe de opções para as férias com ócio, descanso e diversão. É o tempo suficiente para decidir se vai ficar de vez ou voltar sempre.
Tem para todos os gostos, dos que querem torrar no sol alternando com mergulhinhos, aos que querem mergulhar de fato, se perder na boemia do centro antigo, provar iguarias roots da praia e do sertão (que fica logo ao lado) até cair na azaração dos points.

Se a pilha é praia, a cidade tem uma urbana das mais bonitas do Brasil: Ponta Negra, famosa pelo Morro do Careca. Mar calmo, bons restaurantes e tipos curiosos como vendedores de CDs e DVDs (piratas, claro), óculos de sol e água de coco oferecendo seus produtos em variações toscas de inglês, espanhol, italiano e línguas escandinavas. É a globalização. E é em Ponta Negra, à noite, que tudo ferve. Para quem gosta de badalação, a quarta-feira é o dia de aproveitar as dezenas de bares e restaurantes que ficam acima da praia, no chamado Alto de Ponta Negra. A principal dica é o castelo medieval do Albergue da Bruxinha. A hospedagem é barata e todo dia é dia de festa no Taverna Pub, o pub do hostel. Antes disso você pode matar a fome ou tomar uns drinks no Sgt Peppers, o bar mais descolado da cidade e em clima de rock and roll, como o nome sugere.

Para os que preferem mergulhar na alma da cidade nada é mais saboroso do que o Mercado Público da Redinha. Com o pé na areia, admirando o Forte dos Reis Magos que fica do outro lado do mercado, no encontro do Rio Potengi com o mar, pede-se uma ginga com tapioca, o prático típico da praia. Ginga é um peixinho minúsculo, servido frito e envolto com tapioca. Tudo preparado na hora e custando uma merreca. Depois da Redinha, basta atravessar a Ponte Newton Navarro, um mastodonte com mais de cinqüenta metros de altura, e em pouco tempo se chega à Ribeira, o bairro histórico. É gostoso perambular pelas ruas cheias de prédios velhos, alguns ateliês e bares que “à boquinha da noite”, como se diz em Natal, são pura decadência com elegância. Há também a segunda parte do centro histórico, a Cidade Alta. Boêmios, poetas, escritores, bêbados, intelectuais e até comunistas se encontram no Beco da Lama, uma ruela charmosa onde na sexta-feira se promove uma roda de chorinho com músicos excepcionais. Para dar gosto à roda a bebida oficial do lugar é a “meladinha”, uma mistura de mel, limão e aguardente.

Visitar as praias ao redor é fácil e tem custo relativamente baixo. A menos de 100 km de Natal está a Praia da Pipa, um lugar de beleza inigualável. A antiga vila de pescadores é hoje uma cidadela cosmopolita, apinhada de turistas do mundo inteiro. Caminhando alguns minutos se chega a Praia do Amor, situada abaixo de uma falésia conhecida como O Chapadão. Desce-se por dentro da falésia até a praia, ideal para mergulho e surfe. À noite a variedade de restaurantes e bares é imensa e sempre tem alguma festa rolando, de música eletrônica, reggae ou rock, em clima de wild on.

Para os que fogem da zoeira, São Miguel do Gostoso é a melhor pedida. A praia, a 130 km de Natal no litoral norte, permanece quase deserta o ano inteiro e define-se pelo nome. À sombra de quilômetros de coqueiral pode-se saborear um estupendo sarapatel de peixe recém-pescado e aproveitar o mar de ondas fortes. Conhecer a receita do sarapatel depende de uma conversa ao pé do ouvido com os pescadores do local, vale a pena tentar. O resto é calmaria, sombra e água fresca, que cabem exatos no nome do lugar. Próximo dali estão as praias dos roteiros turísticos previsíveis, como Genipabu, Jacumã e Pitangui com tirolesas entre dunas e lagoas e os famosos passeios de buggy. O preço dos passeios costuma ser salgado, mas nada que não possa ser negociado com uma boa conversa.
Para quem acha que a Ribeira, o Beco da Lama e o Mercado da Redinha não são suficientemente roots, nada melhor do que se aventurar pelo sertão.

A partir de 150 km em direção ao interior, chega-se à caatinga. A região do Seridó dispõe da melhor infra-estrutura, tanto de acesso, com linhas regulares de ônibus, como de hospedagem e alimentação. Históricas construções em fazendas, santuários ecológicos, açudes, sítios arqueológicos, vaqueiros, aboiadores e violeiros dão o tom do passeio, que pode findar na casa de algum sertanejo, hospitaleiros como eles são, degustando uma iguaria como a galinha caipira, a carne de sol e a buchada de bode. O sol não perdoa, então é imprescindível estar sempre com protetor. Junho é mês de São João, ou seja, forró, xaxado, baião e milho verde em tudo quanto é terreiro do interior. Conhecer o sertão é uma experiência sensorial.

De volta ao litoral, e para fechar com chave de ouro o périplo, de ônibus ou carro é fácil chegar a Praia de Tabatinga, a pouco mais de 30 km de Natal. Um fim de tarde cai bem com o pastel de cação do Bar No Grau, fincado no alto de uma falésia de onde podem ser vistos golfinhos pululando na água morna e clara do lugar. Era, então, só o que faltava para você decidir se fica de vez em Natal ou se vai querer voltar sempre que estiver de férias.