Terremoto

Posted by levino on abril 25th, 2008 filed in C.A.O.S., Estante

Ah, eu preciso celebrar o prazer que é encontrar o Antonio, coisa rara diga-se. O Prata sempre ocupado, eu idem, materializamos o improvável que é sentar numa mesa e jogar conversa fora a cada três meses, embora estejamos separados por dois bairros apenas. Mas ontem foi um dia alegre, Antonio apareceu e o Corsaletti também, falando empolgadamento do seu próximo livro, King Kong e outras cervejas. E, claro, falamos do terremoto. Antonio com mais classe do que nós todos juntos. Ei-lo:

Não é que eu não soubesse que de 2008 a gente não passava, mas esperava a hecatombe só lá para julho, quando uns cientistas colidirão mini-partículas num bambolê de 27 km, enterrado entre a França e a Suíça, criando um buraco negro que reduzirá a mim, a você, ao Kilimanjaro e a tudo o que existe no planeta a uma bolota do tamanho de uma azeitona. Contava com os meses restantes para ler Proust, conhecer as cataratas do Iguaçu e fazer um curso rápido de danças de salão – um antigo desejo de minha senhora. Então a tela do computador tremeu, o quadro atrás da tela também, minha bunda chacoalhou sobre a poltrona, a poltrona deslizou uns dois centímetros sobre a crosta terrester, a crosta sambou sobre a enorme camada de gelatina, também conhecida como magma, com a qual Deus imprudentemente recheou a Terra e pensei: danou-se.

Enquanto corria para baixo do batente da porta — precaução aprendida num desses documentários da TV e que jamais achei que me fosse ser útil, pelo menos não aqui nas Perdizes – pensei nas duas hipóteses mais prováveis: terremoto ou loucura. Contemplando o lustre a tremelicar no teto, torci egoisticamente pela primeira opção. Afinal, se o céu finalmente caísse sobre nossas cabeças, como temia Obelix, eu não estaria só em meu sofrimento. (Desculpem, camaradas, mas foi assim mesmo).

A idéia de um terremoto no Brasil é tão absurda que logo abriu uma fenda no centro de meu bom senso, fazendo-me considerar outras possibilidades não menos estranhas. George Bush apertou o botão vermelho, sem querer, iniciando a guerra atômica? Os marcianos estão atacando? (O tremor seria, provavelmente, causado pelo pouso da nave mãe no Memorial da América Latina). Deus, conforme prometido, havia iniciado o juízo final?

Depois de mais ou menos cinco segundos, quando eu já havia me conformado com o fim do mundo e até encontrado algum consolo ao perceber que, se tudo acabasse, ao menos estaria livre de fazer o imposto de renda, o chão voltou a se comportar como antes. Peguei uma coca-zero, sentei-me novamente sobre a poltrona e o terremoto apareceu na internet, embaixo da manchete sobre as noventa e duas mortes causadas por dengue no Rio de Janeiro e acima do padre que saiu voando, agarrado a umas bexigas, na costa de Santa Catarina. A vida seguia seu rumo, como sempre, na mais perfeita normalidade.

Terremoto, de Antonio Prata

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