Tentáculos escarlates

Posted by levino on março 7th, 2008 filed in C.A.O.S., Estante

Longe de você como eu sempre quis, e confesso que assustado como jamais pude supor, sinto as coisas caminharem num ritmo lento e pastoso, como se até o que eu respiro fosse uma gosma em vez de ar. Hoje mesmo decupei dezoito cigarros em pouco mais de cinco horas, o que aumentou consideravelmente a sensação de que existe sim um buraco no meu peito, e eu seria capaz de olhar através dele e enxergar a parede suja de sangue e estilhaços de bala.

Mas é fato. Existe um buraco no meu peito cavado a queima roupa, que se seguiu a um estampido seco capaz de tapar os meus ouvidos até agora, quando pronuncio palavras desconexas tentando desesperadamente ouvir a minha própria voz e o que ouço são ruídos de carne viva, um ronco grosso que estaciona na traquéia, creio que por não conseguir espaço na boca para só então ganhar o mundo, cheia de tanto sangue que ela está.

Os olhos que não faz meia hora repousaram na sua imagem terna e gentil (admito que a esta altura do desespero não consegui conotar desejo em suas pernas) agora secam assustadoramente e os imagino como ampulhetas onde cada grão finíssimo de areia carrega uma célula, um átomo, qualquer parte minúscula do meu corpo que não demora e será apenas um bolo de carne ensangüentado, esfriando, arroxeando, esmorecido, aterrador para quem fitar.

De todos os relatos e teorias que com eufemismo chamam negação da liberdade, ato pleno de covardia, maior pecado contra Deus, nada disso passou pela minha cabeça no curto espaço de tempo em que empunhei a arma, armei o gatilho e disparei para sentir em milésimos de segundo um dedo apontando, afundando inteiro no meu peito e depois uma sensação de ardor contínuo e tamanho pavor que sobrepôs a dor. Nada, nada além de cansaço e vontade de dormir.

Não imaginei que tivesse tanto medo de sangue. Além de não conseguir pronunciar uma palavra sequer e acho que um urro cairia bem agora, os tentáculos escarlates se alastrando pela camisa azul claro com listras escuras e finas é a coisa que, talvez por anunciar claramente que estou morrendo, mais me dá medo, mais encolhe meus olhos, num misto de nojo e estupefação. Sangue por todo lado. E pensar que começou num círculo do tamanho da cabeça de um dedo.

Eu podia jurar que o disco diante de mim, a julgar pelas cores, é o de Astor Piazzolla Live at Central Park, mas já não consigo. Os móveis, os discos, os livros, as coisas que amontoei durante anos de desordem e paixão por miudezas e arte, agora formam pequenos bolos indefinidos e pardos aos meus olhos, secos, turvos, trêmulos. Tão trêmulos quanto as mãos, que mesmo antes do estalo final, foram incapazes de covardemente deixar um bilhete, uma carta, qualquer coisa que se faz numa despedida para involuntariamente deixa-la ainda mais patética, doentia e masoquista. Eu não vejo a hora de não ver absolutamente nada e não fazer idéia de quando Piazzolla tocou no Central Park.

Citação incidental de Fabricio Corsaletti.

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