Adeus Columbus

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Regularmente vai a essa taverna
onde, no mês passado, os dois se haviam conhecido.
Perguntou, mas não souberam dizer-lhe coisa alguma.
Pelas palavras deles, compreendeu que se tratava
de um desconhecido qualquer, um entre muitos
jovens desconhecidos e suspeitos
que por ali costumavam aparecer.
Vai à taverna, porém, regularmente, toda noite,
e, lá sentado, põe-se a olhar a porta;
vigia a entrada até ficar exausto.
Talvez chegue. Hoje quem sabe vem.

Durante três semanas faz o mesmo.
A sua mente enfermou-se de lascívia.
Os beijos na boca lhe ficaram.
Padece, toda a sua carne, de um desejo ardente.
Quer unir-se a ele uma vez mais.

Tenta, bem entendido, não trair-se.
Mas por vezes isso já quase nem lhe importa.
Aliás, bem sabendo ao que se expunha,
tomou a decisão. Não é nada improvável uma vida assim
levá-lo a um escândalo fatal.

Konstantinos Kavafis, em No 25º Ano de Sua Vida.

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Start

“O que poderia ter sido é uma abstração/ Que permanece, perpétua possibilidade,/ Num mundo apenas de especulação./ O que poderia ter sido e o que foi/ Convergem para um só fim, que é sempre presente.” 

TS Elliot, quebrando a banca do sobrescrito.

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Resposta ao anjo Gabriel

Fazia um bom tempo que eu não lia Iracema Macedo…

Agora que aprendeste a incendiar-me
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua

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Naked

Um disco com William S. Burroughs recitando poemas, enquanto Kurt Kobain faz ruídos com a guitarra? Pois é, e de 1993. Se chama The Priest They Called Him. Tinha lido sobre isso faz muito tempo, agora reencontrei.

via With Lasers.

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Carpinejar

Um pecado, ontem, em pleno Dia da Poesia, eu não lembrar de Carpinejar. Com quem aliás, semana que vem tomo dois goles de Original na Mercearia São Pedro. Que é quando ele deixa o abrigo de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e visita os amigos em São Paulo. Ei-lo, soberbo, como sempre.

Não chama nenhum dos meus filhos
de meio-irmão. Que metade é essa
apartada de sua inteireza?

Qual é o complemento que falta
para que o sangue seja legítimo?
Será bastarda a perna esquerda ou a direita?

Qual é o braço falso? Aponta-me os traços fingidos.
O que fugiu do nascimento para acusá-los de incompletos?
Não noto, na aparência são semelhantes.

Na convivência são semelhantes.
Ambos se debruçam ao prato com igual
indiferença dos dentes.

Ambos recorrem às mesmas
desculpas para não dormir.
Ambos me sufocam de risos quando acordo.

O ventre não se repete.
Não chama nenhum dos meus filhos
de irmão emprestado.

Eu não emprestei, eu dei à vida,
não reclamo de volta.
Não há pai por partes, nem mãe em porções

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Poestupidez

Enfim, pode ser que pareça chato e não cabível o apontamento que pretendo fazer, justo hoje o Dia da Poesia, mas é que eu não suporto violência gratuita, má educação, principalmente contra colegas de profissão ou uma amiga querida, como é o caso da jornalista natalense Michelle Ferret. Pois Michelle, poetisa, musicista, apaixonada por arte, conhecedora e amante da poesia de Alice Ruiz, a ex-senhora Leminski, foi tratada de uma maneira tão estúpida por Alice enquanto tentava entrevistá-la, que me causou repulsa. Repulsa a ponto de não conseguir (não dessa vez) compreender (coisa que aliás vivo repetindo) que criador e obra são coisas diferentes, que o leitor pode confundir e esperar de quem cria a empatia que às vezes um poema, um livro, qualquer obra de arte desperta nele, mas não é esse o caso. O fato é que uma pessoa comportou-se de maneira grosseira, gratuitamente, cheia de amargura e desrespeito por uma profissional. O agravante é ser essa profissional justamente uma leitora e conhecedora de sua arte. Fica o registro. Michelle com toda a calma e serenidade que lhe são peculiares, é bem provável que consiga por obra e graça de versos, desculpar a ex-senhora Leminski. Quanto a mim, não. Não quero nenhum verso dela pela casa, muito menos dois dedos de prosa. Que o diabo a carregue para caixa prego, o oco do mundo, a casa do baralho.

Ps.: Deus não dá asa a cobra, né? Já pensou essa mulher me destratando assim? Ah, menino, ela ia ouvir uma touceira de palavrões rimados, como se fossem poemas, que nunca mais ia esquecer na vida.

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Poema sujo

(…)

Tanto não adianta prever as cicatrizes
Penúltimas pelo avesso das matrizes as
Raízes do antigo porto morto onde eras
Um rio navio onde eras uma praia um
Altar onde eras um mar um velório ao
Vento de velas acesas onde era um frio

(…)

João Gualberto, em Máquina de Lavar Poema

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