Trocando em miúdos
Nesses últimos dias, quando a blogosfera e o jornalismo brasileiros deixaram de repassar notícias para serem a notícia, a turba de stalkers fez as vezes de espectadora e torcida. De um lado os “reinaldoazevedianos” e os “diogomainardianos”, do outro os “PHamorinianos” e os “minocartianos”, criando um clima de disputa que na real, resume-se em interesses velados. Todos macacos velhos, cobras criadas, gente que garantiu faz muito tempo o pé de meia e por causa disso mesmo, por não correr o risco de por uma demissão ou outra ir parar no beco da amargura, dá-se o luxo de manipular as massas com um jogo de cena que à primeira vista a gente pode jurar que é real. Tudo conto da caronchinha. E o Doria, na minha opinião, consegue provar isso por a + b.
Às vezes, a conversa política fica difícil. Não era assim, passou a ser. Polarização não me incomoda pessoalmente. Mas polarização artificial, polarização inventada onde ela não existe, sim. E parte do público politizado, interessado em política, está sendo usado como massa de manobra.
Não há diferenças entre os planos de governo do PT e do PSDB. Ambos apostam na mesma política monetária. Ambos têm a mesma política social baseada em bolsas de renda mínima com contrapartidas. Ambos têm a mesma falta de projeto futuro para o Brasil.
Do ponto de vista de projeto de governo, a diferença entre PSDB e PT é mais ou menos como a diferença entre Hillary e Obama. Ou seja: quase nenhuma, de filigranas. Representam ambos, no Brasil, o mesmo que o New Labour inglês de Tony Blair representa, o que os New Democrats de Bill Clinton representaram. São as mesmas idéias.
PT e PSDB têm diferenças de história. Em seus núcleos duros, um dos partidos tem base sindical e o outro na elite de centro-esquerda paulista. Coisa equivalente existe dentro do Partido Democrata norte-americano. Há os democratas da Nova Inglaterra e há o poder interno das Unions. Não faz qualquer sentido que PSDB e PT sejam partidos diferentes. Mas são. Acaso o Brasil fosse lógico, faria sentido uma aliança PT-PSDB no governo e uma oposição DEM-PL. Ou vice-versa. Mas a lógica nós a abandonamos faz tempo.
O que realmente separa tucanos e petistas são os projetos pessoais de poder de seus líderes. Isso não enobrece ninguém. Há ódios, raivas, cálculo, esperteza - coisas da política. E parte da imprensa ingênua ou espertamente compra isso como se fosse diferença política de fato. Nesta toada, rusgas de alguns políticos, as várias brigas internas em governos, as histórias de corrupção que ambos têm, vão sendo alimentadas. O público é iludido. Usa-se a tática do inimigo externo - velha como a Sé de Braga. Para distrair o eleitor de meus problemas, que se jogue a culpa no outro, que fique bem disfarçado aquilo que realmente importa.
Enquanto isso, a imprensa tem um problema. Há uma mudança tecnológica em curso que dificulta a vida. Revistas vendem menos. A polarização, a incitação ao ódio, serve para vender revista. Serve para atrair leitores de blog. Mas que ninguém tenha dúvidas: imprensa ainda é um grande negócio que faz muita gente muito rica. E esta é uma segunda briga que rola em paralelo.
A Igreja Universal do Reino de Deus é o novo grande concorrente nesta disputa. Tem um canal de televisão que está crescendo. Terá um jornal diário. Tem um projeto político-partidário. Está mais influente na vida brasileira e quer seu espaço. Está preparada para um conflito. Do outro lado, os jogadores correntes deste mercado, nas tevês e jornais, também estão armados. Quem aumentará audiência? Quem perderá? Quem terá mais poder no final? Quem terá mais dinheiro?
Por causa da Internet, as grandes empresas de telecomunicação que emergiram da privatização de Sérgio Motta entraram no negócio da imprensa. Foi um movimento natural: a princípio, não havia nada em português na web e era preciso dar material de leitura para que as pessoas usassem o serviço. Hoje, virou negócio: há influência para exercer sobre um grande público e há dinheiro para ganhar.
A maneira como grandes negócios são conduzidos não é bonita. Há um emaranhado que envolve laços políticos, bancos, o peso que o governo tem por conta dos fundos de pensão. É muito dinheiro o que levantam as grandes telecoms. Ninguém envolvido neste jogo é inocente.
Empresas jornalísticas vivem de venda direta aos leitores e, principalmente, publicidade. O governo - qualquer governo - usa a verba que tem para beneficiar quem lhe interessa. Grupos com interesses próprios usam a imprensa para melhorar suas chances na política. Alguns veículos, em troca de gordas verbas publicitárias, se dispõem a atacar o inimigo de seu amigo. É uma máquina complexa com muitas variáveis, um jogo muitas vezes complicado de alcançar. As fidelidades de um dia no dia seguinte são outras. Mas não é jamais ideologia que está em jogo neste troca-troca de alianças e inimizades. É poder e é dinheiro.
Antonio Carlos Magalhães costumava dizer que existem três tipos de jornalista. Um quer emprego. Outro quer dinheiro. O terceiro quer notícia. Assim, ele continuava, o político que souber diferenciar pelo olho um jornalista do outro sempre se dará bem. Ele tinha toda razão: é como somos. Controlava os três grupos como um mestre.
Não existe uma guerra ideológica na imprensa brasileira. Não existe uma guerra ideológica no Brasil. Não há polarização. Finge-se uma polarização para disfarçar empresas e grupos que têm interesses. E ainda existem os mesmos três tipos de jornalistas. Diferenciar um do outro requer bom olho.
Enquanto a disputa pelo poder de fato no Brasil rola, o leitor é ludibriado com uma briga ideológica inexistente.
Pedro Doria, em O Brasil Como Ele É.
1 comentárioChina, um paradoxo II
“Perante o público, o governo continuou a chamar tudo de ‘comunismo’. Na China é assim: não importa muito como as coisas funcionam, o que importa é que tenham o nome certo. Weiying é um dos principais nomes do pensamento da ‘direita’ do Partido Comunista. Seu projeto de permitir que os preços encontrados na feira ou na loja de eletrônicos fossem ajustados de acordo com o mercado foi possível por conta das reformas implantadas pelo sucessor de Mão Zedong, Deng Xiaoping.”
“Na visão de Yang Yi, um almirante na Marinha chinesa dentre os principais pensadores da estratégia do país, os EUA estão em vantagem militar e cercam a China. A vantagem não é dada pela quantidade ou modernidade de armas. Os EUA não precisam disso porque o cerco é muito mais sutil - está no argumento. Sempre que a China procura modernizar ou ampliar seu poderio militar, de presto ela é apresentada como ameaça. E o mundo compra esta idéia. Para Yi, a impressão de que a China é uma ameaça militar acaso decida se armar é o maior obstáculo de sua política externa.”
Ainda sobre o ensaio de Mark Leonard, na Prospect, Pedro Doria destrincha dois aspectos: primeiro a relação entre direita e esquerda dentro do próprio partido, segundo como a China se vê hegemônica.
Deixe seus comentáriosLinks (na correria)
Foi mal aê não atualizar direito esses dias. Ando bem ocupado (com coisas boas =P), enfim, qualquer hora volto com cositas nuevas. Por enquanto, sacaí:
- Bacana: o Pedro Doria linkou o Adeus Columbus no site dele, falando sobre a Mallu Magalhães. Aliás, a Mallu vai estar na Rolling Stone do mês que vem (a que terá os Cavalera na capa). Já caiu na rede um vídeo dela cantando Anyone Else But You, tema de Juno, duranta a entrevista. Cool. Hype it!
- Por falar em Mallu, o Zé Flávio Jr. contou na comuna da Bizz no Orkut que o produtores/empresários da Mallu já se reuniram com quatro empresários de grandes gravadoras no Brasil. Mas o que dizem é que a menina vai ficar com a DeckDisc. Hum… =/
- Ah, o Zé Flávio, junto com o Paulo Terron e o Ronaldo Evangelista estrearam um podcast bacana.
- A Maxim, revista americana britânica de comportamento pediu desculpas por ter resenhado o próximo disco do Black Crowes sem ter ouvido. Justo, né? Sem ouvir eu não sei, mas tem neguinho que adora resenhar com uma puta má vontade, que para mim é equivalente.
- Ontem na Estação de Metrô da Luz, às seis da tarde, eu realmente me assustei com o mar de gente da Paulicéia Desvairada. Depois fiquei sabendo que vai piorar.
- Eu jamais conseguiria fazer ISSO.
- Ensaio bacana do CSS na NME =)
Volta aí depois, qualquer hora apareço.
1 comentário
