Adeus Columbus

Gaza

Eu comecei a escrever um texto sobre os conflitos em Gaza, mas achei que estava ficando muito longo, que havia referências em demasia a vários fatos históricos um pouco complicados de explicar didaticamente e que, enfim, serviam para dar sustentação à minha opinião. Até que veio o Malbergier e disse tudo que eu queria. É isso. Desisto do que estava escrevendo e fico com isso aí, assinado embaixo. Ei-lo.

A brutal ofensiva de Israel contra os ataques do grupo extremista islâmico palestino Hamas na faixa de Gaza excita comentaristas de várias especialidades a expor seus pensamentos sobre o complexo conflito árabe-israelense.

É um festival de crimes contra a história, a razão e, muitas vezes, contra os cerca de 14 milhões de judeus no mundo.

As barbaridades mais ofensivas, e por isso disparadas com mais gana, são as indignas comparações com o nazismo e com o os guetos onde os nazistas e seus muitos colaboradores europeus confinavam os judeus da Europa antes de exterminá-los.

Conheço bem essa história. Os irmãos e os pais de meus avós poloneses foram aniquilados no gueto de Cracóvia, no sul da Polônia. Ao contrário do Hamas, eles nunca lançaram nem sequer pensaram em lançar foguetes contra cidades polonesas ou alemãs, nunca quiseram exterminar poloneses ou alemães, nunca endoutrinaram suas crianças no ódio antipolonês ou antialemão.

Mas mesmo assim abundam pelo mundo, e na mídia brasileira, autoproclamados ‘humanistas’ que veem na ação do Exército israelense traços das ações nazistas, um artifício imoral que minimiza a barbárie nazista e maximiza a ação israelense.

Abundam ainda aqueles que, como os nazistas, se dedicam à desumanização dos judeus israelenses, que querem transformá-los em lobos atrás do sangue das crianças palestinas, em pessoas sem alma que querem destruir Gaza pelo prazer de matar palestinos.

Um chegou a escrever com impunidade que a metade dos israelenses que não apoia a ação de seu Exército em Gaza (na verdade o apoio à ação na pesquisa citada é maior do que 50%) “é a parte da humanidade no Estado de Israel”.

O ‘humanista’ colocou na coluna dos não-humanos mais da metade dos israelenses, então vamos chamá-lo só de meio-nazista, já que para a ideologia hitlerista nenhum judeu era humano.

O mesmo híbrido (”humanista” e meio-nazista) escreve ainda que o Estado de Israel foi “instituído por não-judeus” e é fruto do “humanitarismo que proporcionou a criação” do Estado judeu.

O Estado de Israel é na verdade resultado da barbárie nazista, o oposto do tal ‘humanitarismo’. O nazismo e seus voluntariosos colaboradores europeus expuseram a necessidade básica de se criar um Estado judeu como forma de evitar novas tentativas de extermínio.

E o Estado judeu não foi uma mera concessão da atrasada consciência culpada do mundo, que nada fez para impedir os campos de extermínio nazistas apesar das evidências claras do que acontecia na Europa.

Ele nasceu dos esforços das lideranças judaicas muito anteriores à Segunda Guerra (porque a ligação dos judeus com Israel é milenar e o antissemitismo genocida é um mal pré-nazista), que promoviam a imigração clandestina à Palestina britânica apesar de ela ser proibida por Londres, inclusive durante o extermínio nazista.

Há ainda teses novas, como a de que os israelenses suportam a ofensiva porque vivem sob a censura de seus meios de comunicação, que os impede de tomar conhecimento do que se passa em Gaza, quando as TVs e os jornais do país estão cheios de relatos e imagens das lamentáveis mortes de civis palestinos durante o bombardeio e a invasão de Gaza e milhares de israelenses saem às ruas para protestar contra ela.

E o que os supostos ‘humanistas’ que desumanizam os israelenses têm a dizer sobre o islamofascimo niilista e antissemita em marcha acelerada pelos países do Oriente Médio? O que disseram quando o Hamas lançava dezenas de foguetes diariamente contra a população civil de Israel, buscando e provocando a reação israelense? O que disseram quando o presidente do Irã, já convidado a visitar o Brasil pela ativa Chancelaria brasileira, ameaçou ‘varrer Israel do mapa’ e busca ativamente, com pouca resistência global, uma bomba atômica para poder realizar seu desejo manifesto?

Nada.

Devem achar que a maioria dos israelenses, não sendo humana, não merece seu “humanismo”.

A desumanização de Israel em curso em alguns setores do planeta é um dos maiores equívocos contemporâneos, fruto do antissemitismo, da ingenuidade e da ignorância.

Até as pedras dos cemitérios da Palestina e de Israel sabem que a única saída para o trágico conflito árabe-israelense é a criação de um Estado palestino viável que viva em paz e segurança ao lado do Estado de Israel.

Sucessivas eleições em Israel elegeram maiorias que buscavam justamente esse objetivo de dois Estados. Inclusive o governo atual, cuja principal bandeira era a retirada das tropas e colônias israelenses dos territórios palestinos.

A primeira ação nesse sentido foi a retirada total de Gaza, que se transformou em campo de lançamento de foguetes contra a população civil do sul de Israel, como a linha dura israelense, na oposição, previu que aconteceria.

A disposição de Israel para novas retiradas está mortalmente abalada. Vai depender muito do resultado da ofensiva atual.

Quando as armas se calarem, e esperemos que se calem o quanto antes, os terroristas do Hamas, e seus patronos na Síria e no Irã que guiam suas ações, clamarão vitória (assim como seu irmão mais velho, o Hizbollah, clamou vitória sobre os cadáveres de mil libaneses e o escombro de suas casas!).

É uma ideologia niilista, um culto da morte, onde morrer é vencer.

Assim, terroristas do Hamas disparam foguetes contra Israel cercados de mulheres e crianças, do meio de cidades super povoadas, torcendo para que um míssil israelense aniquile essas mulheres e crianças, cujos cadáveres, expostos quase como prêmios, são uma de suas maiores “vitórias” pois convencem alguns “humanistas” de plantão que os israelenses não são humanos.

E serão os “humanistas” de plantão os primeiros a decretar a derrota de Israel e a vitória do islamofascismo, como aquela infame manifestação esquerdista em Londres com os cartazes “somos todos Hizbollah”.

Espera-se que os humanistas sem aspas pensem diferente e coloquem a derrota dos objetivos do Hamas como a única saída possível dessa guerra.

E ela não precisa vir das bombas de Israel, mas de negociações internacionais para um novo arranjo em Gaza que anule a capacidade do Hamas de levar o povo que diz defender a novas tragédias lamentáveis.

P.S: Embora seja óbvio, mas para não ser declarado um não-humano impunemente nas páginas dos jornais, vai aqui um esclarecimento: eu, como a esmagadora maioria dos israelenses, sou pela paz e contra a morte de civis inocentes em qualquer parte do mundo.

Em As Barbaridades sobre Gaza.

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Sifu, e daí?

“Não me incomoda muito que o presidente da república tenha usado a expressão “sifo” num discurso no Rio. Conheço pessoas que estavam lá e ficaram revoltadas. Dou-lhes razão. Mas não me abalei muito. Me aborrece mais que todos os jornais do país, ao contar a história, tenham grafado “sifu”. Não entendo a razão. Me parece que assim os jornais mostraram no mínimo tanta vulgaridade quanto Lula. “Sifu”, assim escrita, é uma palavra oxítona. O “u” final cria o problema. Ele entrou aí porque palavras relativas a sexo são vistas como sujas: não têm história. O verbo que está abreviado na segunda sílaba da palavra composta não contém a vogal “u”: é “foder”. Mas leio até em livros eruditos “culhão” no lugar de “colhão”, “buceta” no lugar de “boceta” e “fuder” no lugar de “foder”. “Sifo” é, assim escrita, a palavra paroxítona que o presidente pronunciou - e sua segunda sílaba é a primeira do verbo abreviado. Escrevê-la com um “u” é transformar a primeira página dos jornais brasileiros em parede de banheiro suja de parada de ônibus. Este sou eu: apesar das incertezas a respeito da origem do uso da palavra “veado” para designar “homossexual do sexo masculino”, me sinto mal quando vejo escrito “viado”. Millôr Fernandes escreveu que quem escreve “veado” está dando provas de que é um. Acho que adoro dar esse tipo de prova, pois só grafo “veado”. Primeiro porque sou adepto da tese de que se está dizendo o nome do animal e não algo derivado de “desviado”. Depois porque, na dúvida, preferiria manter a mesma atitude que exijo em relação a “boceta”, “colhão” e “foder”. Cariocas e baianos não escrevem “chuveu” nem pernambucanos, “cibola”. Não. “Sifu” é uma indecência oxítona que a imprensa consagrou.”

Caetano, sem assombro algum.

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Salvem o jornalismo

De Geneton Moraes Neto:

Começa a chover. Não me ocorre outra idéia para me proteger do aguaceiro: paro na banca para comprar um jornal. Em época de “crise econômica”, eis um belo investimento, com retorno imediato: além de me brindar com notícias interessantes, o jornal, quando dobrado e erguido sobre a cabeça, cumpre garbosamente a função de guarda-chuva.

O jornal é de São Paulo. Poderia - perfeitamente - ser do Rio de Janeiro ou de qualquer outro estado brasileiro. Eu disse “notícias interessantes”? Em nome da verdade, retiro o que disse.

Pelo seguinte: não sou nenhum fanático por informação, não passo quatorze horas por dia conectado, não sou desses jornalistas que, à falta do que fazer na vida, acham que não existe nada sob o sol além do jornalismo. Em suma: considero-me apenas um consumidor mediano de notícias. Ainda assim, eu já sabia de noventa e cinco por cento do que aquele jornal tentava me dizer na primeira página.

O que o jornal me dizia, nos títulos ? Que o São Paulo “abre cinco pontos sobre o Grêmio”. Que novidade! Qualquer criança de dois anos que tivesse passado diante de um aparelho de TV na véspera já sabia. Nem preciso falar da Internet. “Chuvas em Santa Catarina matam 20″. Que novidade! “Obama divulga nomes de cargos-chave”. Que novidade! “EUA podem injetar até US$ 100 bi no Citigroup”. Que novidade!

Não é exagero: eu já tinha recebido todas essas informações na véspera.

Tive a tentação de voltar à banca, para pedir meus dois reais e cinquenta de volta. Mas, não: resolvi dar um crédito de confiança ao jornal. Quem sabe, como guarda-chuva ele teria uma atuação melhor. Teve.

De tudo o que estava nos títulos da primeira página do jornal, só uma informação era “novidade” para mim: “Brasil será o único país do mundo que não eliminou hanseníase”. Conclusão: o jornal estava me oferecendo pouco, muito pouco, pouquíssimo.

Tenho certeza absoluta de que milhares de leitores, quando abrem os jornais de manhã, são invadidos pelo mesmíssimo sentimento: em nome de São Gutemberg, para quem estes jornalistas acham que estão escrevendo? Em que planeta os editores de primeira página vivem? Por acaso eles pensam que os leitores são marcianos recém-desembarcados no planeta? Ninguém avisou a esses jornalistas que a TV e os milhões de sites de notícias já divulgaram, desde a véspera, as mesmíssimas informações que eles agora repetem feito papagaios no nobilíssimo espaço da primeira página?

Os autores dessas obras-primas (primeiras páginas que não trazem uma única novidade para o leitor médio!) são, com certeza, jornalistas que temem pelo futuro do jornal impresso. É triste dizer, mas eles estão cobertos de razão: feitos desse jeito, os jornais impressos estão, sim, caminhando celeremente para o mausoléu. Não resistirão.

Os coveiros da imprensa estão trabalhando freneticamente: são aqueles profissionais que aplicam cem por cento de suas energias para conceber produtos burocráticos, óbvios, chatos, soporíferos e repetitivos.

Em suma: os jornalistas estão matando o jornalismo.

Quem já passou quinze segundos numa redação é perfeitamente capaz de identificar os coveiros do jornalismo: são burocratas entediados e pretensiosos que vivem erguendo barreiras para impedir que histórias interessantes cheguem ao conhecimento do público. Ou então queimam neurônios tentando descobrir qual é a maneira menos atraente, mais fria e mais burocrática de transmitir ao público algo que, na essência, pode ser espetacular e surpreendente: a Grande Marcha dos Fatos.

Qualquer criança desdentada sabe que não existe nada tão fácil na profissão quanto “derrubar” uma matéria. Há sempre um idiota de plantão para dizer : “ah, não, o jornal X já deu uma nota sobre esse assunto”; “ah, não, o jornal Y publicou há trinta anos algo parecido” e assim por diante. O resultado desse exercício de trucidamento jornalístico é o que se vê: uma imprensa chata, chata, chata, chata. É raríssimo aparecer um salvador de pátria que pergunte: por que jogar notícias no lixo, oh paspalhos? Por que é que vocês não procuram uma maneira interessante e original de contar - e oferecer ao publico - uma história? Haverá sempre uma saída!

A regra vale para jornal impresso, revista, rádio, TV, internet, o escambau.

Mas, não. Contam-se nos dedos da mão de um mutilado de guerra os jornalistas que devotam o melhor de suas energias para fazer um jornalismo vívido e interessante. Já os burocratas e assassinos, numerosíssimos, continuam golpeando o Jornalismo aos poucos. Vão matá-lo, cedo ou tarde, é claro.

Não há organismo que resista à repetição dos botes dos abutres (um dia, quando estiver prostrado à beira de um pedaço de mar verde da porção nordeste do Brasil, farei - de memória - uma lista dos crimes que já vi serem cometidos, impunemente, nas redações. Se tiver paciência para juntar sujeito e predicado, prometo que farei um post. Almas ingênuas podem acreditar que absurdos não acontecem com frequência nas redações. Mas, em verdade, vos digo: acontecem, diariamente. O pior, o trágico, o cômico, o indefensável é que os assassinos do Jornalismo são gratificados com férias, décimo-terceiro, plano de saúde, aposentadoria, seguro de vida e vale-alimentação. Detalhe: lá no fundo, devem achar que ganham pouco….Quá-quá-quá).

Um detalhe inacreditável: em qualquer roda de conversa numa redação, em qualquer congresso ( zzzzzzzzzzz) de Jornalismo, é possível ouvir que há saídas simplíssimas. Bastaria tomar - por exemplo - providências estritamente “técnicas”: em vez de repetir papagaiamente(*) nos títulos aquilo que a TV e a internet já cansaram de divulgar, por que é que os jornais não destacam na primeira página a informação inédita, o ângulo pouco explorado, o detalhe capaz de prender a atenção do coitado do leitor na banca ? Pode parecer o óbvio dos óbvios, mas nenhum jornal faz. Qualquer lesma semi-alfabetizada sabe, mas nenhum jornal faz. Se fizessem este esforço, os jornais poderiam, quem sabe, atiçar a curiosidade do leitor indefeso que entra numa banca em busca de uma leitura atraente. Coitado. Não encontrará. É mais fácil encontrar um neurônio em atividade no cérebro de Gretchen.

Fiz um teste que poderia ser aplicado a qualquer estagiário de jornalismo: tentar achar, no exemplar que tenho em mãos, informações que rendam títulos menos burocráticos e mais atraentes do que os que o jornal trouxe na primeira página. Em quinze segundos, pude constatar que havia, sim, no texto das matérias, informações mais interessantes do que as que foram destacadas nos títulos óbvios. Um exemplo, entre tantos: a chamada do futebol na primeira página dizia “São Paulo abre 5 pontos sobre o Grêmio”. Por que não algo como “TREINADOR PROÍBE COMEMORAÇÃO ANTECIPADA NO SÃO PAULO” ou “JOGADORES DO SÃO PAULO PROBIDOS DE IR A PROGRAMAS DE TV”? A matéria sobre as enchentes dizia que, depois do maior temporal dos últimos dez anos, Santa Catarina enfrentava racionamento de água potável - um duplo castigo. E assim por diante. Daria para fazer dez chamadas diferentes. Mas… o jornal repete na manchete o que a TV já tinha dito.

Quanto ao futebol: com toda certeza, as informações que ficaram escondidas no texto eram mais atraentes do que a mera contagem de pontos que o jornal estampou no título da primeira página! Afinal, cem por cento dos torcedores do São Paulo já sabiam, desde a véspera, que o time disparara na liderança. Não é exagero dizer: cem por cento sabiam. Mas, a não ser os fanáticos por resenhas esportivas, poucos sabiam que o treinador tinha proibido os jogadores de participarem de programas de TV, para evitar comemorações antecipadas. Por que, então, esconder o detalhe mais interessante ? É o que os editores fazem: tratam de sepultar a informação mais atraente em algum parágrafo remoto, lá dentro do jornal. Depois, querem que o leitor saia da banca satisfeito por ter pago para ler o que já sabia…

Estão loucos.

Resumo da ópera: os assassinos do Jornalismo, comprovadamente, são os jornalistas. É uma gentalha pretensiosa porque acha que pode decidir, impunemente, o que é que o leitor deve saber. Coitados. O que os abutres fazem, na maior parte do tempo, em todas as redações, sem exceção, é simplesmente tornar chata e burocrática uma profissão que, em tese, tinha tudo para ser vibrante e atraente.

Mas nem tudo há de se perder. Os jornais podem, perfeitamente, ser usados como guarda-chuva. Fiz o teste. O resultado foi bom: cheguei tecnicamente enxuto ao destino.

(*)Papagaiamente: neologismo que acabo de criar, iluminado por uma inspiração animalesca.

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Leituras do dia

Cinema caro por causa do etanol? O Calil explica:

“Por uma série de fatores interligados da cadeia econômica, a explosão do etanol do milho está elevando o preço da pipoca nos cinemas e, em última instância, também o dos ingressos de filmes. Funciona assim: 1) com a demanda crescente de milho para a produção de biocombustível, diminui a oferta do produto e aumenta seu preço, incluindo aí o da pipoca; 2) nas grandes redes de cinema americanas, o faturamento da venda de pipoca é usado para conter o preço do ingresso; se cai o lucro do primeiro, aumenta-se o valor do segundo. De acordo com uma série de notícias publicadas nos EUA, o problema já é uma realidade. A rede AMC Entertainment, do Kansas, anunciou que irá aumentar o preço da pipoca em 25 centavos e o dos ingressos, de US$ 9 para US$ 10.”

O Hanif Kureishi desancou bonito oficinas de criação literária. Podia ser menos cru, mas tem lá suas razões:

“Os cursos de escrita, especialmente quando envolvem a palavra “criativa”, são os novos hospícios. Uma das coisas que se nota é que, toda vez que ligamos a televisão e um estudante enlouqueceu com uma metralhadora em algum campus dos Estados Unidos, é sempre um aluno de um desses cursos. A fantasia é que todos os estudantes vão se tornar escritores de sucesso, e ninguém os desilude. Quando você usa a palavra “criativo” e a palavra “curso”, há algo de enganador nisso.”

Fiúza pergunta: E agora, Lula?

“Se a Anistia Internacional estivesse preocupada com os direitos humanos, e não em tomar posições ideológicas, não passaria (vergonhosamente) a mão na cabeça das Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, guerrilha que utiliza os métodos humanitários por todos conhecidos. Outro que, meio dissimuladamente, mima as Farc é Luiz Inácio Lula da Silva. Agora com a revelação das cartas do líder Raúl Reyes ao presidente brasileiro, em reportagem de “Época”, espera-se que ele venha a público dizer, afinal, de quem é amigo. As cartas não têm um tom qualquer. O tom é de companheirismo, quase de bajulação, denotando uma relação de alta cumplicidade. De 2003 (data das cartas) até hoje, não se ouviu uma só palavra de reprovação de Lula às Farc. Se não quisesse essa cumplicidade, o presidente brasileiro deveria ter rechaçado publicamente o flerte político.”

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Saudades do BBB

“Ungido vencedor do BBB8, Rafinha sai pulando da casa aos gritos de ‘milão! milão!’ (não a cidade, a cifra) e encontra o sagaz Bial: “Primeiras palavras como milionário?”. Rafinha: “Valeu galera! Todo mundo! Eu tô ríííícôôô!” Quem gosta de miséria é intelectual. Acaba o programa, e a Globo gruda no campeão de audiência mais um episódio modorrento da minissérie “Queridos Amigos”: entram homossexual tentando convencer outro a sair do armário, cena de sexo, papo cabeça, a novela de sempre. Um suposto retrato dos anos 1980, nos quais eu infelizmente sou velho o bastante para ter vivido com alguma intensidade e saber como aquilo tudo é raso, falso, como todas as telenovelas, colagem de clichês antigos e/ou reciclados de Hollywood ou qualquer outra arte mais original. A direção, a luz, os enquadramentos, as acentuações musicais no mesmo tom dos novelões, no mesmo tom do Big Brother, mas sem seu frescor, sua autenticidade fake, seu vigor popular. Saudades do BBB.”

Sergio Malbergier assume que adora BBB.

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Blogosfera em chamas

Três fatos ocorridos nessas duas semanas são sintomáticos sobre o rumo que a comunicação tomou nos últimos dez anos. Ratificam a importância das novas ferramentas de divulgação e informação, sem, no entanto, preencher a lacuna das respostas que todos esperam acerca do futuro dos veículos tradicionais de mídia. Há de se concordar que nem é esse o objetivo. Simplesmente há mudanças em curso e isso basta.

Cuba, França e Tibet estão unidos pelo fio de liberdade do território livre, a zona autônoma da web. Bytes para denunciar mordaça, blogs para alertar sobre censura. Jornais, TVs e rádios a reboque do fato que não comporta argumentos: a revolução chegou a bordo da internet.

Na ilha de Fidel ou Raul, tanto faz, a blogueira Yoani Sanchéz (www.desde cuba.com/generaciony) está impossibilitada de postar notícias da sua rotina de cubana jovem e insatisfeita com os velhotes de Sierra Maestra. Cuba, que possui apenas um provedor, o estatal, e um único ponto de acesso livre (os demais são controlados pelo governo) onde a hora de uso pode chegar a cinco dólares, vinha sendo descortinada até então pelas palavras irônicas - nem sequer subversivas - de Yoani.

Sobre o incentivo que (pasmem!) só agora o Estado cubano anunciou para a compra de eletrodomésticos a todo el pueblo, Yoani foi mordaz: “Nesse ritmo os meus netos conhecerão o GPS quando estiverem na adolescência”. Na nomenklatura fizeram careta e acharam que ela foi longe demais. Resultado: censura. O blog que é hospedado em um servidor alemão, já não pode ser acessado dentro da ilha. Aos que tentam, a mensagem é cômica, mesmo quando trágica: Erro no download.

Do outro lado do mundo, no Tibet, quando a China, coincidentemente comunista, expulsou de Lhasa os jornalistas e limitou a cobertura e as imagens à TV estatal, celulares waps e smartphones furaram o bloqueio com imagens do conflito entre monges e tanques, que matou mais de cem pessoas até agora, muito embora o site do governo chinês só admita dez. Os herdeiros de Mao, pagando o pato da própria tecnologia que pirateiam, ainda não sabem o que fazer com os blogs que divulgaram as imagens recebidas via celular.

Para os que entendem os fatos como mera coincidência ou nada tão importante, é da França que chega a notícia que atesta o peso que os blogs tomam a partir do momento que deixam de ser apenas um repassador de releases do governo, para questionar a ordem vigente. O primeiro-ministro Sarkozy, derrotado fragorosamente nas últimas eleições municipais, estarreceu-se com a assertiva do seu conselho político: blogs de toda a França foram elementos primordiais no protesto, que culminou com a derrota.

O que fez o modernoso conservador? Contratou o jovem Nicolas Princen, 24 anos, blogueiro, para prestar consultoria de imagem na internet. Nicolas vai tentar explicar aos dinossauros que a blogosfera unida pode dar muito trabalho para ser vencida. E que há maneiras menos truculentas de lidar com quem pode, a partir de casa, mobilizar milhares de pessoas em protestos, campanhas e votos em massa. É provável que não consiga, mas não deixa de ser um grande passo para a consolidação da ferramenta como oficial, e não oficiosa, no trabalho de mobilizar pessoas e furar bloqueios.

Nos EUA, alguns blogs políticos (http://www.instapundit.com/ ou http://www.dailykos.com/) foram alçados a condição de grande mídia pelo poder de ataque e empatia que possuem junto aos usuários. Não é raro uma denúncia política surgir em blogs e só depois ganhar apuração mais detalhada em grandes jornais. Alguma coisa está fora da ordem e é assim que vai ser agora.

Já no Brasil, como de costume, ou a coisa tende para o completo desvairio de interesses velados e circo armado de uma falsa guerra ideológica (vide Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi x Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif), ou para o exercício descarado do “chapa-branquismo”. O meio termo é coisa rara, mas é bom acreditar que a natureza livre da blogosfera nutra em cada um dos que dela fazem parte, um sentimento universal de desapego à arbitrariedade e apoio a todo e qualquer governo. Pois uma coisa é certa, quando a rede incomodar de fato, vai ser a primeira coisa que tentarão bloquear. Estejamos de teclados e mouses a postos.

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