Adeus Columbus

Sobre escrever

“Eu sempre começo a escrever um esboço, um esboço muito ralo. São apenas algumas concepções dos personagens. Preciso saber quem é quem no que vai acontecer e algumas indicações de conflitos. Preciso saber o que me preocupa, o que me inquieta, por que eu vou escrever isso, o que me impele a escrever e publicar um texto. A primeira versão é bastante confusa, até para mim. É quase ilegível.”

“Cada livro te ensina como escrevê-lo. Cada narrativa impõe o ritmo e uma forma de escrita.”

“Mas pensando bem, existe esse isolamento, faz parte da história do romance. E também a solidão, porque quase todos nos meus livros são solitários. O narrador de “Dois Irmãos” está sozinho na edícula escrevendo a história da família. Um pouco também como o “Cinzas do Norte”, Olavo sozinho, vários anos depois, e agora o Arminto contando na tapera o que aconteceu com ele.”

Hatoum, numa entrevista saborosa, sobre o mais recente livro e o processo criativo.

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Eldorado

“Acordei de boca aberta, respirando como um asmático. Apalpei a camisa molhada e vi o rosto de Florita. Ouvi uns gritos de afogado e vim te socorrer.

Quando ela falava assim, parecia adivinhar meus sonhos. Fiquei assustado com as palavras de Florita. Medo de alguém que nos conhece. Para disfarçar, pedi a ela que perfumasse a banheira com essência de canela. Quando me viu na pinta e perfumado, disse que eu não devia sair de casa.

Por quê?

Não respondeu. E eu confiei na minha intuição. Antes das cinco, fui até a Ribanceira e fiquei encostado no tronco da cuiarana, o lugar onde vi Amando morrer. No chão, flores arrancadas pela ventania. Um céu que nem o desta tarde: nuvens grandes e grossas. A rua do Matadouro, deserta. Estava tão ansioso que tremi ao ouvir as cinco batidas do sino. Então ela apareceu sozinha, usando um vestido branco, os braços nus.”

Um trecho saboroso do livro Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum. Já à venda. O meu está em mãos.

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- Sabe quanto Reznor Trent, a alma do Nine Inch Nails, apurou colocando o disco para download e cobrando cinco pilas pelas obra quádrupla e instrumental, chamada Ghost? 750 mil dólares. Sabe quando ele ganharia a mesma coisa contratado por uma gravadora e lançando disquinho em lojas? Nem perto disso. Ou seja: é irreversível. A indústria fonográfica precisa encontrar uma maneira de ganhar dinheiro deixando que o artista também faça o mesmo em igual proporcionalidade. Gerenciando shows e a carreira completa? É uma idéia.

- A tecnologia aliada a informação às vezes me faz pensar que alimenta mais ainda o instinto bestial do ser humano. Vejam só, para quem achava que Abu Graib era coisa do passado, os soldados americanos que estão no Iraque continuam filmando, com seus celulares, o horror da guerra e a maneira como infelizmente entram nesse círculo vicioso de violência e inversão dos valores humanitários. Se você for cardíaco, fique longe.

- Uma das melhores coisas da década de noventa era esperar disco novo do Pavement. Sério. Até hoje volta e meia o iPod “trava” em Cut Your Hair, Gold Soundz e cositas do tipo. Quem lembra do show de Stephen Malkmus no Abril Pro Rock? Bons tempos. Até do festival. Pois é, dizem que os caras vão voltar… Será?

- Punk will never diet. Puta trocadilho. Tinha que ser da Beth Ditto, uma das criaturas mais insanas da música pop atual.

- Já são dois votos a favor da pesquisa com células-tronco. o STF parou a votação, mas tudo indica que a pesquisa em favor de muitas vidas vai vencer o sectarismo religioso. É bom ficar de olho.

- Saiu o acordo entre Equador e Colômbia. Bom para os dois. E apontando um fato: a Venezuela não tem absolutamente nada (a não ser pela suspeita de financiar as Farc) a ver com a história. Só uma coisa, a Colômbia ainda tem um grande problema para ser resolvido.

- “Basta ler algumas páginas e você logo identifica: eis um sub-Rosa, eis uma sub-Clarice, eis um sub-Fonseca - para citar alguns nomes dos brasileiros mais cultuados pelas novas gerações. Isso vale também para escritores (digamos) estabelecidos. O que é Saraminda, de José Sarney, senão uma versão piorada daquilo que nem era o melhor de Jorge Amado? Sofrer influência é uma coisa, não ter voz própria é outra. “Sofrer”, por sinal, é o verbo certo: só transforma influência em recurso o escritor que a enfrentar, que ler muito e escrever muito, que não se deixar levar pelos trejeitos alheios. O bom autor tem muitos pais e não é submisso a nenhum.” Daniel Piza faz um belo nariz de cera (sem ironias) para apresentar o novo livro de Milton Hatoum. O meu ja foi encomendado, hoje eu passo na Cultura para pegar.

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Sabadão de preguiça e feijoada. Papo bom até a boquinha da noite com o Joca, o Galera e o Bressane. De Comarc McCarthy a Bonde do Rolê passando por Lia de Itamaracá e queijo de manteiga derretido com açúcar. Bah, antes que bata uma puta azia, aí vai umas coisas bacanas que catei:

- A série Bourne não faz exatamente o gênero que mais me agrada no cinema, apesar do meu gosto elástico, mas enfim, não pode ser desconhecida. Vide os três Oscar que venceu este ano, para ficar num referencial mais pop e sem muita afetação. A novidade é que vai ser produzido mais um filme da série. Aproveito e vejo todos de uma vez até lá.

- E a New Line, hein? Foi engolida pela Warner Bros. Sinal dos tempos.

- Neil Gaiman, que os sisudos ainda reconhecerão como um dos maiores romancistas (na verdade eu prefiro um termo que junte narrador com novela, mas nada me vem à mente agora) desta época, atendeu a pedidos e decidiu - seguindo a lógica irreversível - disponibilizar a série The American Gods na íntegra e gratuita via web. Não é o máximo?

- Eu já gostei mais de Bossa Nova. Hoje ouço por obrigação em elevadores, salas de espera de consultórios e às vezes de madrugada enquanto faço compras no supermercado (ainda voltarei a falar sobre as músicas selecionadas para tocar entre gôndolas). Mas tem um personagem do estilo que eu acho impossível não gostar: João Donato.

- Falando em coisas que eu gosto, tem o Milton Hatoum lançando um novo livro (que chega às lojas dia 4 de março), que se chama Órfãos do Eldorado. Hatoum tem uma obra que pode ser chamada, apesar de curta, de monolítica. Tem uma narrativa às vezes até conservadora, mas nem por isso menos fascinante, caudalosa, com personagens muito bem construídos. Eu destacaria Dois Irmãos como seu pricinpal livro (há quem ache o livro apenas um eco de Relato de Um Certo Oriente, discordo), ou pelo menos o que mais gosto. Sobre Cinzas do Norte, o terceiro livro de Hatoum, o Daniel Piza fez uma boa resenha e também falou um pouco sobre o novo.

- Eu nem posso dizer que desisti de Lost, afinal, sequer comecei ou entrei na mania da série americana. Aliás, nenhuma série. Não acompanho, não sou fissurado. Mas Ápyus tem seus argumentos para quem desistiu do produto de J.J. Abrams.

- Eu acho muito bonito (¬¬) ser socialista, me dá uma certa comoção por quem acredita, seja por instinto de sobrevivência ou apego a um totem, algo que os faça continuar vivos, enfim, a vida é dura, é preciso acreditar em algo mesmo. Acho mais bonito ainda socialistas de boutique, essa galerinha maconheira de classe média que de 68 só tem a fumaça e mantém a ideologia abastecida com o rico dinheirinho do pai que desistiu das barricadas e foi ganhar grana para manter a família com o conforto típico de classe média. São assim, sectários e/ou ingênuos, porque vivem num país aberto, com sua liberdade limitada, mas liberdade a bem da verdade. Fariam a mesma coisa na China?

Up date

- O G1 ouviu o próximo disco do CSS. Que há tem turnê com datas fechadas a partir do mês que vem. Bacana, hein?

- Escritores brasileiros não costumam ter colhões para isso.

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