China, um paradoxo II
“Perante o público, o governo continuou a chamar tudo de ‘comunismo’. Na China é assim: não importa muito como as coisas funcionam, o que importa é que tenham o nome certo. Weiying é um dos principais nomes do pensamento da ‘direita’ do Partido Comunista. Seu projeto de permitir que os preços encontrados na feira ou na loja de eletrônicos fossem ajustados de acordo com o mercado foi possível por conta das reformas implantadas pelo sucessor de Mão Zedong, Deng Xiaoping.”
“Na visão de Yang Yi, um almirante na Marinha chinesa dentre os principais pensadores da estratégia do país, os EUA estão em vantagem militar e cercam a China. A vantagem não é dada pela quantidade ou modernidade de armas. Os EUA não precisam disso porque o cerco é muito mais sutil - está no argumento. Sempre que a China procura modernizar ou ampliar seu poderio militar, de presto ela é apresentada como ameaça. E o mundo compra esta idéia. Para Yi, a impressão de que a China é uma ameaça militar acaso decida se armar é o maior obstáculo de sua política externa.”
Ainda sobre o ensaio de Mark Leonard, na Prospect, Pedro Doria destrincha dois aspectos: primeiro a relação entre direita e esquerda dentro do próprio partido, segundo como a China se vê hegemônica.
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“Paradoxically, the power of the Chinese intellectual is amplified by China’s repressive political system, where there are no opposition parties, no independent trade unions, no public disagreements between politicians and a media that exists to underpin social control rather than promote political accountability. Intellectual debate in this world can become a surrogate for politics-if only because it is more personal, aggressive and emotive than anything that formal politics can muster. While it is true there is no free discussion about ending the Communist party’s rule, independence for Tibet or the events of Tiananmen Square, there is a relatively open debate in leading newspapers and academic journals about China’s economic model, how to clean up corruption or deal with foreign policy issues like Japan or North Korea.”
O texto acima é um trecho do brilhante ensaio publicado pelo jornalista Mark Leonard, na revista britânica Prospect. Aborda detalhes que passam ao largo da cobertura do factual. É um depoimento, mas também uma análise inteligente que tenta expor os paradoxos do pensamento e da intelectualidade chinesa atualmente, para tentar compreender um pouco mais do monstro de olhos puxados e dos dilemas que enfrente dos pontos de vista ecnômico e político.
Já Pedro Doria desdobra Mark, esmiuçando a análise um pouco mais e tornando, eu diria, que até didática. A priori, a grande questão que percetível depois de tomar pé da liberdade que a massa pensante chinesa possui, é que essa mesma liberdade não chega, nem de longe, ao povo, o comum, o mortal.
“Yu Keping, um professor que tende à esquerda chinesa e, hoje, é próximo ao presidente Hu Jintao, vem defendendo a posição que se tornou dominante no governo. Assim como a economia foi apenas muito lentamente sendo aberta, liberdade política deve caminhar com igual cautela. E assim como, no tempo de Deng Xioping algumas cidades da costa tiveram a permissão de fazer experimentos com um mercado livre, algumas regiões têm, hoje, a permissão de mexer com democracia.”
“Outro professor, Pan Wei, questiona suas idéias e propõe um modelo diferente. A democracia chega ao povo mas não pelo voto. Seu argumento é que em todos os países em que há democracia com livre direito ao voto, cada vez menos os eleitores têm ido às urnas e a descrença geral nos líderes é evidente.”
“Essencialmente, a China é tão vasta e tão populosa que o governo decidiu que pode fazer experiências até encontrar um modelo que considere ideal. Seus cientistas políticos debatem na imprensa, via Internet, nas revistas especializadas mas, além disto, têm algo que intelectuais não têm em qualquer outro país. A oportunidade de botar em teste suas idéias no campo.”
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