Adeus Columbus

Dossiê Pelicano II

No fim de semana eu havia repercutido aqui a informação de Luis Nassif, de que o suposto dossiê manufaturado na Casa Civil, sob as narinas da ministra Dilma Roussef, teria digitais da própria oposição. Não exatamente na feitura, mas no vazamento. E eu disse que não estava de todo convencido pelos seus argumentos. A tal fonte que Veja e Folha de São Paulo esconderam debaixo de sete chaves, o Noblat divulgou. Mas como um escape. Pois é, o Nassif tinha razão. A Veja se deu mal de novo. A Folha foi a reboque. De qualquer forma, isso não exime o governo de explicar os motivos de ter em suas mãos algo que poderia, já que obviamente o documento todo não tem apenas treze páginas como divulgado por Veja e Folha, ser usado em chantagem contra a oposição. Assim o governo fica um tanto menos sujo do que a oposição, que, mais uma vez (e depois não entende o governo com índices de popularidade nas aturas), pôs os pés pelas mãos

Outro comentário que fiz, baseado em matéria do Estado de São Paulo, foi que, caso fosse verdade de que entre os operadores do suposto dossiê encontravam-se Dilma Roussef e Franklin Martins, era algo a se lamentar com especial vigor. Por que? Por serem os dois quem são, por terem lutado justamente contra tudo que a ditadura representava de pior, que era o acache, a arbitrariedade, a chantagem, e justo eles estavam, de acordo com matéria do Estadão, envolvidos numa coisa tão suja quanto, no caso o dossiê. É possível que agora, com a oposição enrolando-se tanto quanto o governo, o assunto esfrie por interesse de ambas as partes. Mas ainda guardo a dúvida se os dois, Dilma e Franklin, seriam capazes de usar do mesmo expediente do qual foram vítimas um dia.

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Dossiê Pelicano

Luis Nassif, que neste fim de semana continua série de reportagens sobre a revista Veja, tece comentários sobre a origem e a função do dossiê/banco de dados montado com gastos realizados com cartões corporativos e contas tipo b no governo FHC. Não estou de todo convencido das observações feitas por ele, a partir de conversas com um jornalista amigo que atua em Brasília, mas vale como arcabouço e alicerce para aos poucos irmos tirando conclusões definitivas sobre o caso. 

Ps.: Eu, como leitor de Veja, gostaria muito de ler um desmentido da revista, mas não só um desmentido, um desmonte da tese que Nassif vem apresentando na série de reportagens sobre a banda podre da publicação. Mas não é o caso, Veja não vai responder e sinceramente, tudo que Nassif vem mostrando é crível demais para ser desmentido com simples achaque. A revista vai mal. Bom para o leitor, que se inteira de como realmente opera o jornalismo brasileiro.

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- É realmente preocupante ouvir um Senador da República, Arthur Virgílio (PSDB-AM), um dos líderes da oposição, dizer que se uma matéria de interesse do governo não for aprovada “dane-se”. Eis a explicação simplória, crua, nua, sem arroubo nenhum de ciência política para o governo Lula, sua aprovação astronômica, a incapacidade para o diálogo que se firmou entre a imprensa política e a sociedade, a anulação completa da boa oratória e a “ritualística” dos cargos públicos, o solene desconhecimento do povo em relação a oposição. Não há oposição que propõe o oposto, há o fel esverdeado da bílis, a falta de planejamento, a irmandade siamesa com a oposição raivosa que o próprio PT exerceu um dia. Em resumo: a oposição está muito, mas muito em maus lençóis. Em outro resumo: a política brasileira idem.

- Apesar de controverso (e caricato, é verdade), o jornalista Reinaldo Azevedo é inteligente. Mas foi por ter perdido a mão nas críticas ao governo e a quem quer que discuta ou discorde do seu ponto de vista, de forma tão grosseira e mal educada, que abriu o flanco para um tiro de doze cano duplo do Nassif. Não há resposta no mundo do Tio Rei que o faça se recuperar dessa. Essa foi, como dizem lá no meu Caicó Arcaico, “na titela”.

- Um dos jornalistas que mais me dão prazer de ler suas resenhas e críticas é Luiz Fernando Vianna. Discordo de um tanto de opiniões dele em relação a muitos discos principalmente, mas gosto do modo como escreve, claro, objetivo, sem os floreios e as estacas no cu de boa parte da grande imprensa cultural dos jornalões. Enfim, isso é uma introdução para dizer que sem nunca ter visto o sujeito passei a admirá-lo ainda mais depoi da cativante (e em certa medida revoltante) história dele com seu filho Gabriel. Se tiver com tempo, vale à pena fazer o que fiz: retornei ao primeiro post e acompanhei tudo, desde o início.

- “A experiência de conviver com um membro fantasma nunca é prazerosa. Na realidade, mais de 70% dos pacientes que vivem essa ilusão sofrem de algum tipo de dor na primeira semana depois da amputação. Quase 65% das pessoas ainda experimentam dores seis meses depois da remoção cirúrgica do membro. Pior: quase 60% relatam sentir algum tipo de dor até dois anos depois da perda do membro. Uma fração ínfima dos pacientes que sofrem dores em membros fantasma consegue encontrar alívio com quaisquer das mais de 50 terapias já propostas na literatura médica.” Do blog do Miguel Nicolelis, o cientista brasileiro que (aposto) não demora e vai ganhar um Nobel de Medicina.

- Aos amigos que irão à Europa nos próximos dias, favor trazer cartazes de Andy Warhol às pampas para este que vos escreve. Custam a merreca de dez euros, cada um.

- Ano passado o filme 30 Days Of Night despertou a minha antiga paixão por filmes que zumbis. Voltei à carga com tudo, por isso curti essa lista com os 26 melhores zumbis de todos os tempos. Qual a sua lista?

- Por falar em cinema, vocês já viram o trailer de The Incredible Hulk? Bah. 2008 vai ser um puta ano para as HQs no cinema. Rememorando: Iron Man, Batman - The Dark Knight, Hulk, Watchmen (2009, mesmo?).

- Filhos. Ou filhas. E que usem roupas cool como a de Beatrix Kiddo for babies. Eu quero =)

- A Blender listou as vinte maiores cagadas da indústria fonográfica mundial. Além do processo desastroso contra o Napster (aliás, sábado tem matéria minha na Tribuna do Norte, lá de Natal/RN, falando em parte sobre isso), os oitenta milhões de dólares pagos por cinco discos do REM foram de doer mesmo.

- A programação da Virada Cultural em São Paulo contemplou uma puta fatia do cenário independente da música brasileira. Bom, né?

- Discos, discos, discos: Third, do Portishead; Sunday at Devil, de Isobel Campbell & Mark Lenegan, Moutains Battles, do Breeders e Baile Bass, do Turbo Trio. É clicar e começar a baixar.

- Tão péssimo quanto conversar no cinema, comentar o filme full time e atender celular, é levar esfirra do Habib’s para comer lá dentro, saca? Pronto, falei.

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- Eu falei alguns posts atrás sobre o problema que a Colômbia enfrenta (ou pelo menos precisa enfrentar) com os grupos paramilitares de direita. O conflito divide o país ao meio e requer uma habilidade que até agora, Álvaro Uribe concentrado em atacar as Farc, não conseguiu mostrar que tem. E tem mais. Como se não bastasse o problema interno, a recente confusão com o Equador, tem trêta com a Nicarágua.

- Um conflito afasta-se dois milímetros da mídia e nos dá a impressão de ter arrefecido. Mas coisas continuam correndo. Iraque, conflitos tribais no continente africano, Timor Leste, China x Tibet. E Israel x Palestina, como não poderia deixar de ser. A crise no Oriente Médio entrou numa daquelas fases em que a impressão recorrente é que o buraco não tem fim e nunca vão chegar a uma solução pacífica. Israel meteu-se numa incursão desmedida que matou mais de cem palestinos, que agora responderam com a morte de oito judeus num mosteiro rabínico. Pena, muita pena. Para os dois lados. Ainda mais porque agora deve vir uma reação estúpida israelense.

- Afim de ir para Espanha nos próximos dias? Cuidado. A imigracion está, como se diz no Nordeste, com o “cão nos couro”. Muita, muita sacanagem fazer voltar brasileiros sem uma justificativa palpável. Aliás, por que o governo daqui não retalia? Basta proceder da mesma maneira. Já pensou um ministro de estado americano ou inglês sendo obrigado a retirar até os sapatos para ser revistado? Simples, a justificativa é simples: foi o que vocês fizeram com ministros nossos, brasileiros. Na mesma moeda o pagamento.

- Pop na veia (não na véia =P). De 80’s a 00’s. Joguinho supimpa para testar conhecimentos. Quer tentar?

- Três discos imperdíveis e para download gratuito: Gnars Barkley, Isobel Campbell & Mark Lenegan (discaaaaço!), Landon Pigg (folk! folk! folk!).

- O Michael Chabon, que venceu não faz muito tempo um Pulitzer, e é um puta autor de língua inglesa (melhor que o DeLilo. Ok, essa foi para provocar), publicou uma reportagem muito saborosa na The New Yorker sobre super-heróis. Aliás, sabia que os Coen, Ethan e Joel, estão adaptando um livro dele para o cinema? Deus do céu… Como se não bastasse No Country For Old Men, do Comar McCarthy. Vem obra-prima por aí.

- Pena ser na Caros Amigos, uma revista que eu acho tão sectária (mas não desonesta, jamais) quanto a Veja, mas mesmo assim vale a leitura da entrevista que o jornalista Luis Nassif concedeu abordando a série de matérias que ele vem produzindo contra o cavaleiros do apocalipse: Mainardi, Mario Sabino, Euripedes Alcantara e Lauro Jardim, jornalistas e editores da Veja.

- Lembram daquela senhora que em depoimento na novela Páginas da Vida, de Manoel Carlos, confessou ter acordado “toda molhada e babada” depois de adormecer ouvindo Roberto Carlos? Deu xabu. A justiça condenou a Globo por causa da edição, segundo a decisão da juíza, prejudicial a imagem da senhora.

- “Já fumei maconha várias vezes. Não tenho problema com isso. Se você plantar em casa e fumar, qual é o problema? É diferente de comprar de um traficante”. O José Padilha abrindo o flanco em entrevista na Playboy desse mês. Acho que agora cai a imagem de fascista do filme, a começar pelo diretor. Adorei.

- Faz um tempo que o mercado editorial brasileiro vem passando por grandes mudanças. Empresas estrangeiras praticamente dominam o mercado de best-sellers atualmente, assim como o direito de publicação de autores consagrados nacionais e gringos. Agora são as livrarias que começam a entrar no jogo. A Saraiva, por exemplo, desembolsou 60 milhões de reais pela Siciliano. Na verdade as negociações começaram ano passado e só agora foram concluídas, inclusive a transição gerencial. Vem mais coisa por aí, até com rede abrindo capital na bolsa.

- “Nessas horas, é bom ver que Dylan segue alheio ao clima que o cerca (vai ver, é justamente por isso), sobe lá, não dá um “oi” nem olha pra platéia, e manda ver suas músicas. Foi o terceiro show dele a que assisti e cheguei à conclusão que, quanto mais se assiste, mais fácil de gostar fica. Porque uma vez que você tira da frente as questões mais óbvias (a voz rouca e cada vez mais rouca, os formatos modificados das melodias clássicas - impossíveis de acompanhar, mesmo que você saiba a letra -,o fato dele sempre deixar de fora alguma das suas favoritas), uma vez que já sabe e já viu isso tudo outras vezes, passa a prestar atenção em outras coisas - na grande banda que o acompanha, na vitalidade que as músicas mantém mesmo com andamentos modificados (vide “Highway 61 Revisited”), na diversão que é estar ali (em pé, preferencialmente).” Como eu não tinha 900 reais fáceis, não pude conferir o show do Dylan. De consolo só a boa resenha/crônica do Marco Aurélio Canônico sobre o evento. Aliás, como o Marco Aurélio Canônico é bom, leve, sem afetação, nem parece os estacas-no-cu da grande mídia, ainda mais do jornalismo cultural.

- Está afim de ler sobre rock? Quarenta e cinco dicas sobre o assunto, que tal?

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Veja, Nassif, blogosfera e jornalismo

Acompanho a série de reportagens (didáticas à perfeita medida) do jornalista Luis Nassif sobre a revista Veja desde o início e confesso que dei pouca ou pelo menos a não necessária atenção para o caso, acostumado que estava com as picuinhas entre ele, o Diogo Mainardi, o Reinaldo Azevedo e o Paulo Henrique Amorim

Diogo, Reinaldo e PHA me parecem na maioria das vezes fugir do bom senso, em textos argumentativos que apesar de bem escritos (os melhores do Reinaldo), se perdem na adjetivação barata, na passionalidade e às vezes na queda de nível entre bons combatentes, com golpes baixos ou respostas escritas com a bílis. Como se sabe, a bílis não raciocina, é puro fel. De todos o Nassif sempre foi o mais comedido. Mas essa não é bem a palavra, diria ainda que o mais acertado na crítica feita de modo parcimonioso e didático, como tem sido a sua série de reportagens sobre a Veja.

Obviamente quem mexe no vespeiro sabe que não pode esperar fanfarra e tapete vermelho, por isso acredito que Nassif sabe bem o que lhe aguarda, dentro e fora dos tribunais. Eis a grande questão, como bem observou a Cora Rónai (Em suma: quem é mídia ou tem espaço na mídia, e se sentir ofendido com o que foi escrito a seu respeito, que vá pro computador e responda na mesma moeda. Processar jornalista é coisa pra igreja universal do reino de deus ou pro PT), a frase é do próprio Diogo Mainardi: Jornalista não processa jornalista. E veio à tona justo quando da reclamação sobre os processos que PHA move contra ele, Diogo. A Veja que já decidiu não responder as acusações sob a esfarrapada desculpa de que assim daria crédito a Nassif, procurou os tribunais, dando suporte para que os jornalistas citados por Nassif o processem. Mas então, eu fico com o Diogo: Jornalista não processa jornalista. A Veja escolheu o pior caminho e desmentiu sua principal estrela, na sua melhor assertiva.

Como leitor de Veja e dos quatro jornalistas citados acima, penso que a série de Nassif é de grande valia, na medida em que presta informações que serão confirmadas ou não, mediante processos jurídicos ou desmentidos da história, que geralmente caminham no limbo, nos corredores das redações, restritos aos almoços dos coleguinhas (para ficar nesse termo horroroso), numa área acinzentada que o leitor não faz a menor idéia que existe. E isso precisa vir à tona. Está vindo.

Como internauta penso que essa luta renhida que há muito perdeu o senso maniqueísta e tolo de direita versus esquerda, é sobremaneira intestina do jornalismo nacional, mas que finda num passo importante para a consolidação dos blogs como veículos de mídia no Brasil. Faz algum tempo que nos EUA essa noção de que os blogs são uma ferramenta complementar ou independente das mídias tradicionais é indiscutível. No Brasil a coisa caminha (ou caminhava) a passos lentos e sob os olhares tortos dos dinossauros do jornalismo impresso ou televisivo. Pois é justo através dessa ferramenta relativamente nova dentro da imprensa brasileira que está sendo prestado o melhor serviço ao leitor atento.

O que eu espero como leitor dos veículos envolvidos na questão são respostas convincentes que provem cada um que o que afirmam é realmente verdade. Nassif com suas reportagens, Veja com um desmentido, que infelizmente virá da forma mais truculenta possível, procurando os tribunais e não usando a pena, a caneta, o texto, a palavra. Por enquanto, Nassif segue muito a frente do seu oponente e com a impressão (tomara que se concretize) de que há muita lenha para queimar nessa fogueira de tantas vaidades.

Ps.: Sobre a Veja em si (e isso não funciona como uma justificativa para o fato de eu ser leitor da revista, pelo contrário), destaco uma observação feita pelo jornalista Pedro Doria, que diz assim “a esquerda não gosta da Veja porque a revista é de direita. Ou porque se opõe ao governo corrente. São, ambos, argumentos de péssima qualidade. Primeiro porque num ambiente de plena liberdade de imprensa, um órgão de comunicação pode defender o tom ideológico que bem entender. Segundo porque imprensa tem mesmo que ser de oposição a qualquer governo. Terceiro porque o governo não precisa de defensores. Tem poder. Muito poder. Poder suficiente para voltar-se com raiva contra qualquer órgão de imprensa e tentar sufocá-lo, recusando-se a publicar anúncios.”

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