Adeus Columbus

Tempo

“O tempo era um amontoado de poeira, um caminho longe que vai dar não sei onde, uma coisa sem portas nem janelas. O tempo eram as nuvens fechando o céu, o vento contorcendo as roupas no varal. O tempo era onde a menina colhia punhados de liberdade que precisavam de um lugar à sombra para esconder-se dos olhos maduros de quem carrega fardos de desilusão.”

[Rodrigo Levino, Dias estranhos]

Ps.: Porque hoje acordei com o ego rompendo o teto, começo com um texto meu. Grifo de Dom Mario, rei dos Dantas e dos Cavalcanti.

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Garopaba rulez

Abrindo as comemorações de fim de ano, “o melhor romance eleito foi Cordilheira, de Daniel Galera (Companhia das Letras)“. Ê! Puta orgulho =)

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Lendo por aí

Dizem os amigos que Garcia Marquez está escrevendo um novo romance. Sabe o que acho? Nada, não vai ser nada, passou o tempo dele (ok, podem jogar as pedras. Assim como Cabrera Infante, eu acho Guimarães Rosa mil vezes melhor e mais relevante que Marquez). A coisa realmente boa é que Saramago, Bolaño, Lobo Antunes e Rubem Fonseca entraram na lista dos melhores livros traduzidos este ano nos EUA. E olha que é difícil americano ler coisa gringa, hein.

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Terror para crianças

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Bolañomania

“Os Estados Unidos vivem hoje duas manias. A Obama-mania e a Bolaño-mania.” A frase é de ninguém menos que Andrew Wylie, um dos mais importantes agentes literários do mundo. O representante de autores como Philip Roth, Saul Bellow e Norman Mailer declarou à Folha que, em 30 anos de atuação no mercado editorial, jamais havia observado um fenômeno de vendas como o que está sendo alcançado pelo chileno Roberto Bolaño”

Se você lê o Columbus, já sabia dessa febre =)

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Roth, em doses

“Assustou-se com estas palavras, a ponto de, no carro, indo para casa, censurar-se muito, lembrando-se de todos aqueles que, por necessidade, viviam sem mulher, em condições muito mais dolorosas que a sua - homens na prisão, homens em guerra… mas logo depois estava se lembrando de novo de Wendy, imaginando todas as posições possíveis em que poderia ser penetrada pela ereção que não tinha mais, concebendo-a com a mesma fome de um presidiário que sonha acordado, mas sem poder apelar para o escape ligeiro, grosseiro, que mantém um homem solitário semi-são em sua cela. Veio-lhe à mente como tinha vivido feliz sem mulheres quando era um menino na pré-adolescência - será que tinha havido um período de vida melhor que aquela década de 40, aqueles verões na praia?”

O Avesso da Vida

“‘…Naturalmente, de início pensei nos lugares realmente bonitos em que meu pai poderia ser enterrado, os lugares onde ele e minha mãe iam nadar quando eram jovens, as praias que ele freqüentava. No entanto, por mais triste que eu fique quando olho à minha volta e vejo toda essa deterioração - vocês provavelmente também sentem o mesmo, e talvez até se perguntem por que é que estamos reunidos num cemitério tão maltratado pelo tempo -, queria que meu pai ficasse junto das pessoas que o amaram e das quais descendeu. Ele amava seus pais, e é importante que fique perto deles. Eu não queria que ficasse em outro lugar, sozinho’.”

Homem Comum

“Na Nova Inglaterra, o verão de 1998 foi marcado por muito sol e calor; no beisebol, por uma batalha entre um deus branco e outro deus negro; e, nos Estados Unidos, por uma imensa febre de religiosidade, de puritanismo, quando o terrorismo - que se seguiu ao comunismo como a principal ameaça à segurança do país - foi sucedido pela felação, quando um presidente viril, de meia-idade mas de aparência jovem, e uma estagiária ousada e apaixonada, com vinte e um anos de idade, aprontaram no Salão Oval como se fossem dois adolescentes num estacionamento, resgatando a mais antiga paixão nacional americana, historicamente talvez o seu prazer mais traiçoeiro e subversivo: o êxtase da santimônia.”

A Marca Humana

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Os eleitos

A Publishers Weekly publicou a lista dos melhores livros de 2008. Já a Time elegeu Bolaño o melhor de todos. Justo, né?

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Coquetéis, cochilos e coitos

“A raça humana, acredito eu, foi projetada para ser movida - ser motivada - pela tentação. Se o progresso é uma virtude, então essa é nossa maior dádiva. (O que é a curiosidade senão uma tentação intelectual? E que progresso é possível sem curiosidade?) Por outro lado, será que podemos chamar uma fraqueza tão profunda de dádiva, ou será uma falha projetada? Será a tentação em si a culpada pela desgraça humana, ou será apenas a falha de julgamento em resposta à tentação? Em outras palavras, de quem é a culpa? Da humanidade ou do projetista incompetente? Porque não posso deixar de pensar que se Deus nunca tivesse dito a Adão e Eva para evitarem o fruto da árvore do conhecimento, a humanidade ainda estaria correndo nua pelo paraíso, dançando de felicidade e batizando alegremente as coisas, entre coquetéis, cochilos e coitos”

Trecho de “O cordeiro - O evangelho segundo Biff, o brother de infância de Cristo”, Christopher Moore. Breve, numa Playboy perto de você =)

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Lendo e andando

Pensei em fazer uma listinha com os melhores livros que li este ano. Pensando melhor (e facilitando minha vida), resolvi publicar as resenhas que escrevi para a Playboy, ao longo do ano - claro, dos livros que li. Umas foram publicadas, outras não. Até dezembro a lista será alterada. Nos últimos dias li um horroroso, estou lendo um fantástico e tenho dois no prelo para as próximas edições da revista. É isso, espero que as resenhas despertem o principal: interesse pela leitura, apesar de concisas. Aí estão e são, moléstias à parte, um painel do que foi lançado no ano:

A Feiticeira de Florença
Salman Rushdie
Cia das Letras, 408 págs.

A literatura pode ser produzida com vários objetivos. Incômodo, crítica, entretenimento, reflexão. Um deles, no entanto, pode se tornar o mais fascinante quando alcançado: simplesmente contar boas histórias. Em “A feiticeira de Florença”, Salman Rushdie apura a sua inventividade entrelaçando corsários, místicos, guerreiros sanguinários e mulheres exóticas. As referências utilizadas pelo autor são amplas e vão desde a Bíblia até “As mil e uma noites”, passando por Bocage. Com rara habilidade narrativa, Rushdie garimpa, relê e cria histórias que prendem o fôlego do leitor. Nisso, a toda hora personagens entram e saem do enredo, como num labirinto. Com sarcasmo e criatividade ele relata a vida de um viajante ludibrioso, recém-chegado num reino distante e governado por um sanguinário, Akbar. O desconhecido toma para si o papel de caleidoscópio desses contos universais, remetendo a Sherazade. A partir daí, e tendo como pano de fundo a paixão do tirano por uma misteriosa feiticeira, Rushdie constrói pontes entre a Itália renascentista, a Pérsia, Constantinopla, naus indianas e naufrágios camonianos, num exercício literário saboroso e de alto nível.

Cotação: Ótimo

Leila Diniz: Uma revolução na praia
Joaquim Ferreira dos Santos
Cia das Letras, 280 págs.

Sem queimar um sutiã em praça pública, Leila foi uma das figuras fundamentais na evolução do comportamento feminino no Brasil. O furacão que fez da própria vida uma causa libertária, é destrinchada nesta biografia na medida exata: nunca pudica e nem tão puta, apenas livre e à duras penas, contra tudo - de todos os credos e ideologias. De tão instigante, a personagem até faz o leitor perdoar o excesso de maneirismos e a frouxidão que às vezes domina a narrativa.

Cotação: Bom

A Viagem do Elefante
José Saramago
Cia das Letras, 256 págs.

É improvável que Woody Allen produza, hoje, algo fundamental para a sua obra como Annie Hall (1977). Ou que Van Morrison apareça com um disco impactante como Astral Weeks (1968). A irregularidade, no entanto, em nada afeta a solidez dos ícones. A analogia cabe em Saramago. A Viagem do Elefante, seu novo romance – que ele chama conto, não tem a força de O Ano da Morte de Ricardo Reis ou Memorial do Convento, mas é relevante por tudo que dele conhecemos. A capacidade de criar enredos sem brechas, a construção de personagens fortes, a ironia indagadora, o humor refinado e o completo domínio da forma e da língua. É com a maestria de sempre – e o frescor renovado, faltoso em As Intermitências da Morte – que ele narra a inusitada história de um elefante, Salomão, que por caprichos reais viaja de Lisboa a Viena. Em torno da viagem e do tratador, o cativante Subhro, enxertam-se histórias humanas, solidárias, pantominas medievais e saborosos conflitos que findam traçando uma pequena radiografia humana. A certa altura do livro dá-se a seguinte cena: “Que é um acto poético, perguntou o rei, Não se sabe, meu senhor, só damos por ele quando aconteceu”. O livro se encaixa perfeito aí. A Viagem… é um ato poético, e independe de ser maior ou menor na obra do autor português.

Cotação: Ótimo

Cordilheira
Daniel Galera
Cia das Letras, 176 págs.

Um relacionamento fracassado pelo desejo incontrolável e unilateral de ser mãe, o suicídio de uma amiga e a negação da condição de escritora guiam Anita, uma “mulher construída em sucessivas perdas e tragédias”, por uma Buenos Aires tão aconchegante quanto solitária. Em Cordilheira, Galera mergulha o leitor num jogo de espelhos literários e auto-reflexão, num limite tênue entre o que é arte e o que é vida de fato. Uma história de amor (ou fim dele) triste e devastadora.

Cotação: Ótimo

Menino de Lugar Nenhum
David Mitchell
Cia das Letras, 472 págs.

O mais longo ano na vida de Jason Taylor, às vésperas de completar 13, é o leme manejado com habilidade por Mitchell, num vigoroso e empático romance de formação. Equilibrando-se nos destroços da própria família, da escola e do tédio de um condado semi-rural no interior da Inglaterra, Taylor transforma-se numa alegoria de solidão e deslocamento que serve a todos, em maior ou menor grau. Menino… é um livro que reaviva as cores (ou o cinza) de autores como Salinger e Bernhard.

Cotação: Excelente

Homem no Escuro
Paul Auster
Cia das Letras, 168 págs.

O 11/09 compeliu autores como Auster a definir a lápide do trauma histórico. Mas, as reflexões de August Brillè e do alter ego Owen Brick são incapazes de analisar em detalhe o buraco onde os EUA se meterem com Bush. O desconforto do romance se dá pela angústia insone dos personagens e também pela impressão de que não alcançando o escopo (DeLillo também falhou), Auster desiste da narrativa. Daí em diante resta o tédio de um romance pouco instigante.

Cotação: Ruim

O Santo Sujo
Humberto Werneck
Cosac Naify, 400 págs.

O livro de Humberto Werneck faz justiça – pelo resgate do protagonista e pelo primor literário - a um personagem rico, mas escondido atrás do próprio mito. Boêmio excêntrico, venerado por Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Fernando Sabino e outros nomes cintilantes da sua geração, Jayme Ovalle foi um intelectual praticamente sem obra. No entanto, ao mergulhar na vida dele, o leitor vai perceber que a grande obra de Ovalle foi a própria vida.

Cotação: Excelente

Rasif – Mar que arrebenta
Marcelino Freire
Record

Ter vencido o Prêmio Jabuti 2006 na categoria contos, não pesou sobre os ombros do pernambucano radicado em São Paulo Marcelino Freire. Nos dezessete contos de Rasif ele aprimora a vazão de impressões surreais sobre um cotidiano violento, mas nos detalhes bastante afetivo, quiçá esperançoso. A linguagem do texto, influenciada por tradições orais e um olhar de cronista urbano, é crua e seca. Como a vida, afinal.

Cotação: Bom

A Arte de produzir efeito sem causa
Lourenço Mutarelli
Cia das Letras, 208 págs.

Quadrinista consagrado, autor de Transubstanciação e O Cheiro do Ralo (romance que deu origem ao filme), Mutarelli eleva à máxima potência, e com notável amadurecimento literário, a narrativa vertiginosa alicerçada em personagens que são exposições didáticas de psicopatologias. A vida de Júnior, o protagonista, cerca-se de tramas sem moralismos e com refinado humor negro, desaguando numa mistura de Nelson Rodrigues com Spike Jonze.

Cotação: Ótimo

O Livro Amarelo do Terminal
Vanessa Barbara
Cosac Naify, 253 págs.

Trocando em miúdos, O Livro Amarelo do Terminal é como se Hunter S. Thompson encontrasse Matt Groening para uma longa conversa enquanto esperam um ônibus. O relato gonzo-literário que a jornalista Vanessa Barbara faz do Terminal Rodoviário do Tietê - uma cidade de coisas perdidas e pessoas dizendo adeus - é de um detalhismo assustador e humor de virar a perna. Um pequeno e afetuoso tratado sobre a humanidade num microcosmo.

Cotação: Bom

Diário de Um Ano Ruim
J.M. Coetzee
Cia das Letras, 280 págs.

Sob a pele do alter-ego Señor C., Coetzee entremeia, numa instigante narrativa, trechos de ensaios sobre política, terrorismo e democracia, com relatos de profunda tensão sexual e intelectual entre ele e Anya, uma jovem e volúvel filipina contratada para editar os ensaios. O Nobel de Literatura sul-africano leva às últimas conseqüências o escapismo de que “não há nada que eu queira falar sobre o mundo que já não esteja nos meus livros”.

Cotação: Ótimo

Stasilandia
Anna Funder
Cia das Letras, 375 págs.

A certa altura de Stasilandia, a autora usa o artifício da língua alemã de juntar palavras para definir uma Alemanha Oriental atônita e juntando os próprios cacos, depois da queda do Muro de Berlim: “horrormantismo”. Funder se debruça nos detalhes do romantismo (comunismo) que findou em horror (repressão), mergulhando na vida de algozes e perseguidos pela Stasi, a polícia secreta da RDA, para mostrar como o regime se sustentava numa máquina bestial de espionagem e terror.


Cotação: Bom

Fantasma Sai de Cena
Philip Roth
Cia das Letras, 282 págs.

A regularidade lapidar dos livros de Philip Roth nos últimos quinze anos distanciou-o dos seus pares americanos. Fantasma Sai de Cena torna ainda mais palpável a superioridade do autor em relação aos últimos romances de Gore Vidal, John Updike, Norman Mailer e Don DeLillo, por exemplo. O retorno de Nathan Zuckerman, o protagonista, impotente e deslocado, a Nova York, depois de onze anos de auto-exílio, dá suporte para elucubrações devastadoras sobre senilidade, morte, desejo sexual, as agruras da política americana e a literatura, repletas de referências, que por vezes se assemelham a pequenos ensaios. É tocante conhecer por ele a “amarga sensação de desamparo de um velho que, sentindo-se provocado, morre de vontade de voltar a ser um homem inteiro”. Cruel como sempre e mais cerebral do que havia ousado em O Animal Agonizante e Homem Comum, seus dois romances anteriores, Roth ressalta a caquexia de Amy Bellete, por quem Zuckerman se apaixonara décadas antes, frente a provocante juventude de Jamie Logan, com quem o protagonista trava diálogos perturbadores, para escrever no fim das contas uma obra “sobre alguém que sabe onde encontrar a agonia e que vai buscá-la”. É essa disposição que faz dele um autor necessário.

Cotação: Excelente

50 anos de crime – Reportagens policiais que marcaram o jornalismo brasileiro
Org. Fernando Molica
Editora Record, 517 págs.

Toda seleção é um risco. Mas, Molica resta ileso na escolha de vinte peças antológicas do jornalismo brasileiro, importantes pela qualidade literária e registro histórico. As narrativas traçam uma escalada da violência no Brasil e da evolução do jornalismo policial. Do leitor, a obra só pede estômago. O livro premia a leitura com pérolas como as reportagens de Percival de Souza e Octávio Ribeiro.

Cotação: Bom

Criança 44
Tim Rob Smith
Editora Record, 424 págs.

A crítica teve urticárias quando o estreante Smith, de apenas 29 anos, figurou este ano na lista dos concorrentes ao Booker Prize, um dos mais prestigiosos prêmios literários do mundo. Bobagem da critica. O mérito dele é manter o fôlego do leitor preso do inicio ao fim, num thriller matador, tendo como pano de fundo a repressora URSS de Stálin. Ridley Scott já comprou os direitos para o cinema.


Cotação: Bom

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Livros

Primeiro as livrarias bibliotecas mais bonitas do mundo. Inveja, hein? confesso. Depois um prêmio da União Européia para novos autores. Go!

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Retrato do louco quando jovem

“Era desses caras de barba por fazer que sempre escolherão o risco, o perigo, a insensatez, a insegurança, o precário, a maldição, a noite - a Fome maiúscula. Não a mesa posta e farta, com pratos e panelas a serem lavados na pia cheia de graxa - mas um hambúrguer qualquer com coca-cola no boteco da esquina, e a vida acontecendo em volta, escrota e nua.”

Caio F. Abreu.

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A verdade sobre a vida

“La poesía nos enseña a esquivar las trampas de la realidad”

Jose Manuel Caballero.

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Ao infinito e além

Conto de Marcio Naziazeno, “Como me tornei um planeta”. Classe A. =)

Nos últimos milhões de anos não tenho feito muita coisa além de girar. E, além de girar, não existe nada de muito mais interessante para se fazer aqui no espaço. Giro em torno do meu eixo, o que chamam de movimento de rotação. E giro também em movimento de translação, que lembra a tradição indígena de dançar em volta da fogueira para gravar documentários. Mas isso é pouco comparado à louca dança de ser um planeta. No caso de um planeta, a fogueira é uma grande bola de fogo que chamam de Sol – particularmente, prefiro chamá-la de “boneca”, “gata”, ou então, “Grande Bola de Fogo”.

Saber que movimentos você deve realizar quando está em órbita é muito importante. Primeiro, por ser uma questão educacional básica, e, depois, por medidas de precauções que visam sua segurança. Portanto, muita atenção. Ficar a par dos seus movimentos é de suma importância para o caso de você de repente se ver perdido em pleno espaço, que é um lugar grande, realmente grande, do tamanho do próprio universo. Sabe-se do caso de um planeta que, ainda jovem, foi seduzido pela possibilidade de encontrar novas galáxias mais atrativas e acabou se perdendo. Ninguém sabe exatamente onde ele foi parar e a sua história termina aqui, o que é uma pena, ou eu poderia fornecer mais detalhes.

Ficar zanzando no espaço pode ser perigoso para um planeta. Você pode acabar se chocando contra um meteoro, pode dar de frente em outro planeta, ir de encontro à Grande Bola de Fogo ou até mesmo ser tragado por um buraco negro e se perder para sempre no Vácuo Eterno do Mau e da Escuridão, um lugar muito, muito, muito assustador mesmo. Quando criança, todo planeta já ouviu ao menos uma vez a seguinte cantiga de roda, a canção do vácuo:

Não fique vagando por aí
O buraco negro é quem diz:

‘Abro minha boca
mesmo que você corra
e sugo você pelo nariz’

Não há no espaço um só lugar
Onde o buraco-negro não possa estar
Seja um bom menino, viva de mansinho,
Eras e eras a girar.

A parte do “sugo você pelo nariz” nunca cheguei a entender direito. São muitos os idiomas falados no espaço e a tradução pode ter sido comprometida (sem contar que em algumas civilização intergaláticas as palavras não são faladas, mas transmitidas por telepatia, e-mail ou MSN). O que ocorre é que, na verdade, a letra de Canção do Vácuo pode ser completamente diferente. Na verdade, uma verdade talvez até mais crível, essa canção possivelmente nunca existiu e talvez eu tenha mentido para você. Portanto, anote isto, que é outra regra básica para quando você está sozinho no Espaço: nunca confie em estranhos, nunca fale com estranhos e, o mais importante: nunca seja você mesmo um estranho.

Uma outra coisa importante a saber sobre um planeta é que eles duram muito e, tirando um planeta que girava tão rápido que teve toda sua história lançada em um livro de bolso, eles podem durar o infinito. E o infinito, caros pontos insignificantes, demora um bocado de tempo para passar se você não tem com o que se distrair. Por isso, se existe uma coisa realmente boa em estar perdido no espaço sideral, é o tempo para se pensar em questões primordiais, como: de onde viemos, para onde vamos, por que giramos tanto, etc. Por milhões de anos, uma das mais intrigantes das questões primordiais seria: por que cargas d`água Saturno insiste em usar aqueles anéis tão fora de moda? Dizem as más línguas que Saturno nunca se adaptou muito bem à rotação, e por isso sofreu por muito tempo com problemas de tontura e acabou ficando meio tantã. Uma pena. Outros planetas, ainda mais maldosos, espalham por aí que ele tem sofrido de sérios problemas com excesso de gases, sendo transferido para uma área mais isolada do Sistema Solar.

A minha segunda grande questão foi tentar compreender por qual motivo me tornei um planeta. Não pensem que foi fácil. Para chegar a uma resposta satisfatória refleti por alguns milhões de anos, atravessei eras geológicas, cataclismos, guerras e meus ácaros (pequenas formas de vida que estão em todos os lugares, incluindo você quando não toma banho) se tornaram espécies tão evoluídas que já dominam inclusive outros planetas. E, a resposta fundamental ao real motivo pelo qual me tornei um planeta, é: eu jamais poderia saber. Passei tanto tempo focado na questão que acabei me esquecendo inclusive como eu me tornara um planeta. Por sorte, os meus ácaros conseguiram reproduzir em laboratório todo o meu processo evolutivo, de modo que pude acompanhar de perto minha humilde origem.

Eis como tudo sucedeu.

Antes de virar uma enorme massa disforme em mutação eu fui um humano como qualquer outro. Na linha evolutiva, entre todas as espécies que habitavam o até então conhecido planeta de onde vim, os humanos estavam em um nível intermediário entre as amebas e os chimpanzés, o mais evoluído dos primatas. Cada espécie tinha seu diferencial, alguma coisa que desse um tchans. Os chimpanzés saltavam de árvore em árvore e catavam piolhos uns dos outros enquanto pensavam em quão idiota era o homem e porque eles sempre estavam lhes apontando armas. Os peixes nadavam muito bem e eram coloridos, mas de vez em quando cometiam a burrada de morder alguma isca de plástico pensando que era comida e, coitadinhos, morriam sufocados foram d`água apunhalados por um anzol - esse vacilo os deixava atrás dos chipanzés, mas não dos humanos. Os humanos sabiam no máximo escrever livros e operar máquinas, mas tão mal que às vezes acabavam colocando os pés pelas mãos e matavam uns aos outros. Deste modo, ser o terceiro lugar na linha evolutiva não tão ruim para quem fazia tanta besteira. Em situação pior estavam as amebas, que nem sei bem o que fazem, talvez seus professores de ciência possam explicar isso melhor.

Então, eu levava minha vida humana quando as coisas aconteceram.

Primeiro veio uma guerra envolvendo várias das máquinas que os humanos não sabiam utilizar bem. Depois, para completar, veio a destruição completa e com ela o fim do mundo. Com o mundo completamente destruído ninguém tinha onde ficar, de modo que todas as formas de vida como peixes, chipanzés, amebas e humanos foram lançadas ao infinito do espaço. Todos passaram a vagar sozinhos, flutuando na imensidão, e aos poucos foram se adaptando a uma nova realidade: girando, girando e girando até se tornarem algo completamente diferente das formas de vida que conhecíamos. Transformaram-se em planetas independentes, cada qual em seu lugar, como várias pedrinhas insignificantes arremessadas ao alto sem qualquer habilidade especial - exceto, talvez, girar.

E continuamos girando.

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Rapidinha

- Dez anos de Strokes =~~

Ps.: Aqui ó, do lado esquerdo do peito.

- “O ‘chá do Santo Daime’, originário da Amazônia e empregado em rituais religiosos, tornou-se a base de uma pesquisa inédita bem-sucedida da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto para tratar pacientes com depressão.”

Bacana, né?

- O cara que filmou Kung Fu Panda vai fazer He-Man?

- “Experimente passar um domingo em casa. Sem tirar os pés do chão do apartamento – se você mora em apartamento – ou do chão da casa – se você mora em casa. Mora já nas nuvens? Ah, meu irmão, então vai te fuder. Experimente passar um domingo em casa. Sem botar o nariz fora da janela, nem a pontinha – se você tem narizinho – ou a pontona – se você é um clone do Cyrano de Bergerac.”

MIDC, caprichando.

- O LCD Soundsystem vai acabar? Tristeza. “All my friends” é uma das dez músicas da década.

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Jornal das pequenas coisas

- “O ex-presidente Fernando Henrique passou do tom, ao mandar Lula “parar de falar bobagem”. Perdeu o rebolado. Para piorar, nota-se no seu discurso aos prefeitos eleitos do PSDB uma certa excitação com a crise econômica. Como se ela pudesse salvá-lo da surra de popularidade que vem levando do atual presidente. A história pregou uma peça em FH. Condenou-o a uma espécie de tortura moral – ter que ver o adversário reinando no castelo construído por ele.”

Mais uma bola dentro. Do Fiuza.

“O maior prédio do mundo deve ser finalizado no próximo ano. Mesmo antes de sua conclusão já é a mais alta construção feita pelo homem. Atualmente, o Burj Dubai já ultrapassou os 700 metros. O arranha-céu fica em Dubai, como o nome indica, e vai torrar US$ 4,1 bilhões até o final da obra, quando terá cerca 820 metros.”

O excesso de dinheiro em Dubai tem tudo para garantir a construção de um dos países mais bregas, cafonas e over da história.

- Sir McCartney quer compor com Dylan. É impressão minha ou George Harrison se adiantou em 40 anos, em relação a esse assunto?

- Eagles of Death Metal frontman Jesse “The Devil” Hughes really wanted to hate Guns N’ Roses’ new album, Chinese Democracy. Ever since his band was booted from GN’R’s 2006 tour, after a single performance in Cleveland, you could say there’s been bad blood between Hughes and Guns mainman Axl Rose. So Hughes has been waiting to get his hands on the oft-delayed, more-than-a-decade-in-the-making LP, hoping it would be an abysmal catastrophe.”

Bom, se Jesse Hughes não conseguiu odiar o Chinese Democracy, faço eu. O disco é importante como registro histórico megalomaníaco. No mais, nada salva a sonoridade, a música, as letras. Nada.

- Amarante fala à FSP. E aí, ja ouviram o disco do Little Joy? Eu curti deveras. Longe da listinha de melhores do ano, mas é um bom disco.

- E o relançamento dos tres filmes da série De Volta Para o Futuro, remasterizados e separados? Curti =)

- Não restam dúvidas que o maior lançamento do ano passado foi o disco de Roberto Justus, o Just Us (sacou? sacou? sacou o trocadilho inteligente de publicitário?). Em 2008 não tem pra ninguém, só dá Angela Bismarch - a que (não) matou Ox - na cabeça.

- Remake do Romero à vista.

- David Hadju diz que Philip Norman, biógrafo de Lennon, não tem lá esses interesses todos por música. Pergunto: ele só precisa escrever bem, ou não?

- João Brasil (rei acima de todos os reis) remixa CSS! Download aqui. Via URBE.

- “In the past few years Caracas has become one of the most violent cities on the planet. Armed gangs competing over turf and drug deals wage ruthless, low-level warfare in the slums. Nationally, homicides have soared to more than 13,000 a year, with 2,710 in Caracas alone, according to leaked government figures. That gives a national rate of 48 per 100,000 people. In some Caracas slums the rate rises to 130. The rate in England and Wales is 1.4.”

Cadê o paraíso de Chávez?

- Quais as melhores músicas sobre violência e confusão? Cartas para a redação.

- Uou! Isso tá ficando muito freak. Mallu é a Sandy do mundo indie?

- E o BBC Sessions do Belle and Sebastian? Quero muito =)

- Há sintomas inegáveis de fundo de poço, né? “Andy Summers samba com Gracyanne na Mangueira.

Aê, curtiu o feriado?

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