Adeus Columbus

Elogio a burrice

Ser conservador não é cool.

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O outro lado de 68

Jarbas Passarinho, apesar dos 88 anos, continua lúcido. Há quem ache sua opiniões uma sandice, mas é sempre bom ouvir a voz de quem estava do outro lado do balcão em 1968, do lado de quem mandava. Uma boa opinião vai nascer do filtro das duas partes envolvidas.

“Quando deram o choque, ela caiu em coma. Fui apurar o fato e pedi com urgência ao presidente Médici uma audiência. (…) Fui ao presidente e disse: “Presidente, trago um caso concreto. Acho que nem o senhor pode passar pra história como torturador institucional, nem seu ministro”. Na minha presença, ele pegou o telefone e ligou para a Polícia Federal, que era a única que ele tinha comando direto.”

“Como disse o Delfim (Netto), ele (FHC) foi auto-exilado. Saiu do Brasil como o Delfim dizia: com passaporte e bagagem despachada (risos).”

“Foram coisas que se somaram. Uma interpretação que eu li, com interesse, é a seguinte: o movimento de 1964 apanhou de surpresa a garantia daquele general da Casa Militar, que falava no tripé em que sustentaria o governo Jango: a área sindical, a infiltração no Exército e o legalismo do governo.”

“Bom, eu tive uma conversa com dom Hélder, em Olinda. Ele me recebeu muito bem. Eu era ministro da Educação. O AI-5 em vigor. Perguntei a ele se a esquerda que estava adepta da Igreja não tinha a capacidade de fazer uma oposição democrática. Ele disse: “Não. Porque aí vem a violência. É a violência número 2, porque a número 1 é de quando vocês depuseram Jango”. A explicação era essa. A violência 2 era uma resposta à violência 1.”

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Ainda 1968

A Prospect Magazine é uma das revistas mais fodas do mundo. Bons textos, liberdade editorial, análises lúcidas e reportagens impecáveis. Por isso pesquei para o Adeus Columbus um texto de Dominic Sandbrook sobre 1968, o ano que paira no inconsciente coletivo do ocidente como um eldorado ideológico, libertário ou coisa que o valha. A tese de Dominic é polêmica, mas vale pela classe como ele argumenta. Coisa rara numa época em que socos e pontapés são a tônica das opiniões. O texto se chama A Irrelevância de 1968. Segue:

Em todo esse alvoroço sobre o 40º aniversário dos acontecimentos de 1968 no Reino Unido, as pessoas sempre se esquecem de que na realidade houve duas manifestações na Grosvenor Square, não uma. No dia 27 de outubro, sete meses depois da famosa briga de socos fora da embaixada americana, cerca de 30 mil pessoas marcharam por Londres para exigir a paz no Vietnã.

Nas semanas anteriores, a imprensa fervilhava de ansiedade. Os conservadores aconselharam o secretário de Assuntos Internos Jim Callaghan a fechar as estações da capital e preparar os regimentos da guarda real para retomar a cidade. E o que aconteceu? Nada, que é provavelmente a razão pela qual ninguém se lembra disso.

Parece até cruel chamar a atenção para o fato, dado o investimento emocional que algumas pessoas claramente fizeram, em uma fantasia de sua juventude, mas a maioria dos momentos emblemáticos daquele ano foram essencialmente irrelevantes. Os manifestantes pela paz não acabaram com a guerra no Vietnã, como costumam afirmar; de fato, a guerra continuou por mais sete anos e acabou só com a vitória militar do comunista Vietnã do Norte.

Nos Estados Unidos, o movimento pelos direitos civis estava em efervescência, o liberalismo perdia o rumo e Richard Nixon liderava em uma nova era de domínio conservador. Na França, os gaulistas conquistaram uma grande maioria e de Gaulle acabou dando lugar a Pompidou. Mesmo em Praga, talvez a mais inspiradora de todas irrupções de idealismo do ano, o pulso de ferro se reafirmou. É fácil dizer agora que a primavera de Praga anunciou o eventual colapso do comunismo, mas isso era pouco óbvio na época.

Em um contexto britânico, é difícil se afirmar que 1968 foi um ano de idealismo juvenil e sonhos românticos. A libra acabara de ser desvalorizada, os salários estavam estagnados, cada vez havia mais greves e o governo Wilson parecia esgotado. A maior história política do ano foi o discurso de Enoch Powell atacando a imigração. Muito mais pessoas escreveram a Powell apoiando suas idéias do que os que jamais participaram de uma passeata contra a guerra.

Foi semelhante nos Estados Unidos. Veteranos da década de 1960 lembram do assassinato de Martin Luther King, mas raramente se lembram que ele havia perdido grande parte de seu impulso mesmo antes de sua morte, com um claro fracasso na sua campanha para deter a segregação residencial no norte urbano. Eles também lamentam o assassinato de Robert Kennedy, mas mal se lembram de que era quase certo que ele perderia a indicação pelo Partido Democrata de qualquer forma.

E quem, afinal, era o grande vencedor americano em 1968? Era Richard Nixon. Ele deu voz às esperanças e aspirações de milhões de pessoas que tiveram uma boa vida durante as décadas de 1950 e 1960; supostamente estúpidas, suburbanas, o tipo de pessoas que gostavam de Julie Andrews e de “The Brady Bunch” (Família Sol-Lá-Si-Dó no Brasil). Para eles, a Guerra do Vietnã foi um erro, não um crime, e os protestos nas ruas não eram animadores mas sim alarmantes. E foram essas pessoas, a “grande maioria silenciosa”, que conduziram a história nos anos que se seguiram.

Os jovens votaram em massa em Nixon, e as pesquisas mostram que dos dois lados do Atlântico muitos, até mesmo a maioria dos jovens se mantiveram conservadores em suas atitudes políticas e culturais.

Os acontecimentos de 1968 estão agora quase tão distantes de nossa experiência quanto a greve geral estava para Tariq Ali e Germaine Greer. Eles tornaram-se um agradável mito romântico, uma frívola mistura de produtores de televisão e avós de olhos lacrimejantes, um útil bastão com o qual se bate nos supostamente cínicos e auto-centrados jovens de hoje.

Mas embora nós provavelmente venhamos a lembrar de 1968 a cada dez anos, até que o último dos integrantes da geração Grosvenor Square se tenha ido, talvez nós possamos então chamar a atenção para os acontecimentos de uma década mais tarde -a revolução islâmica no Irã, a ascensão do Papa João Paulo 2º, as dores do nascimento do Thatcherismo e do Reaganismo. Menos inspirados que os acontecimentos de 1968, mas no longo prazo, para o bem ou para o mal, foram bem mais importantes.

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