Leitura de domingo
- “Filme açucarado, com cachorro, menino e judeu já não garante prêmio algum na cerimônia (vide a violência de concorrentes deste ano como Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez). (…) A lista dos cinco principais concorrentes é composta por uma obra-prima (Sangue Negro, com oito indicações), um filme excelente e muito acima da média (Onde os Fracos…, também com oito indicações), dois ótimos filmes (Conduta de Risco e Desejo e Reparação) e um legítimo representante da produção independente que conseguiu pelo segundo ano (para lembrar de Pequena Miss Sunshine) emplacar um título bem produzido, bem dirigido e com ótimo roteiro, Juno, de John Reitman.”
Matéria especial minha lá na Tribuna do Norte, Natal/RN.
Ps.: Tem também a resenha do livro Mãos de Cavalo, do Daniel Galera, no portal NoMinuto.
2 comentáriosMãos de Cavalo
Uma dos referenciais mais pobres dentro da literatura brasileira - e isso se repete na chamada nova literatura; a lista de autores com seus vinte ou trinta e poucos anos apontada em matérias frias dos cadernos culturais - diz respeito a cultura pop. Os autores não conseguem emular com exatidão (nem próximo disso) o amplo conjunto de informações que forjaram a sua geração e continuam alimentando a atual, num caldeirão de música, internet, cinema, vídeo game e HQs entornando o caldo com Dostoievski e Hilda Hilst.
Ou se perdem numa tentativa frustrada de soar antigo e cheio de classicismos, como se buscassem uma chancela dos autores consagrados e da crítica, ou adotam um discurso de ruptura que não se concretiza diante da linguagem descuidada, muitas vezes chula, numa busca dispensável por uma tal de visceralidade e crueza, que servem no fim das contas para encobrir o principal: não sabem contar uma história. E o pior, não parecem aprender com o passar do tempo e a publicação de mais e mais livros. Apelam para a pirotecnia.
Esse não é o caso de Daniel Galera, o escritor mezzo gaúcho mezzo paulistano autor do romance Mãos de Cavalo, lançado em 2006 pela Companhia das Letras. Desde o livro de contos Dentes Guardados, passando por Até o Dia Em Que o Cão Morreu e findando em Mãos, o que se percebe são saltos de qualidade nas narrativas, no esmero da técnica e da linguagem e o melhor, na emulação de referenciais de cultura pop com pitadas de erudição, todas dosadas com tamanho talento que ele finda não sendo nem pedante, muito menos raso, ou seja: é um grande escritor, uma promessa concretizada.
Em Mãos de Cavalo a referência às HQs de super-heróis e aos jogos de vídeo game é tão sutil, entranhada que está na personalidade do protagonista, que sobressai a formação da identidade através de uma narrativa entrecortada, que não serve para jogar areia nos olhos do leitor, e sim para dar uma idéia ampla de como cada pequeno fato no período de pré e da adolescência, se refletiram em maior escala na vida adulta de Hermano, ou Mãos de Cavalo.
O alicerce que o autor detém dessa cultura de quadrinhos o torna um escritor visual de tal forma que o leitor, desde o princípio, sente-se mais um da turma do bairro, incomoda-se com os relatos infindáveis do Bolita sobre suas aventuras sem deixar de se divertir com eles, reprova a postura misógina do Uruguaio sem deixar de reconhecer seu mérito de conquistador, e pára diante de Bonobo compartilhando a sensação de medo e admiração, raiva e estupefação. Assim como parece acompanhar Hermano aos dez anos movendo cada músculo do corpo em disparada na sua bicicleta ou sentindo o gosto metálico de sangue na boca depois da queda.
Os personagens criados por Galera assistiram aos nossos filmes, jogaram os nossos jogos, descobriram da mesma maneira atabalhoada a sexualidade e as responsabilidades da vida adulta, o tédio do casamento e a eterna busca por algo que se perdeu na infância, na liberdade inconseqüente da adolescência, carregando a culpa típica dessa inconseqüência. Gera-se a cada página uma empatia que torna inevitável o conforto e ate a nostalgia diante da caracterização de cada um da turma, pois já tivemos uma igual e ao que parece com aquelas mesmas pessoas. Dá também a quase certeza que existe um acerto de contas com o nosso passado que mais dias menos dias vira à tona e nos cobrará a coragem para resolvermos as pendências.
Nessas referências às coisas da adolescência Galera se detém de maneira tão caprichada que acaba claudicando nas narrativas da vida adulta do personagem, coisa perdoável diante das reviravoltas que a história dá, e de cenas descritas com um detalhismo assombroso, como a agonia do parto da mulher de Hermano, o bem sucedido médico, de postura austera, desolado por um eterno sentimento de culpa.
O livro não deixa de ser uma história de redenção, oferecida que é ao protagonista a oportunidade de reaver tudo que repentina e desastrosamente quebrou o sentimento de que as pessoas, o lugar, as histórias, nada daquilo se dissociaria da vida dele. E nesse diálogo com o passado, forjado nos mesmos referenciais de toda uma geração, com a vida adulta marcada por sentimentos nunca antes tão presentes como impotência, solidão e atonismo, Galera escreve um livro que não é apenas de formação, mas serve como memorando para toda uma geração.
Coincidentemente a nossa geração, a que cresceu nos escombros da falta de referenciais político e ideológico e deu vida inclusive por causa dos referenciais de cultura pop ao que hoje pode ser demarcada com classe média. Uma geração que tenta mover o mundo, às vezes embalado como se fosse uma bicicleta em disparada e um pouco adiante sentindo algum prazer no gosto de sangue que invade a boca, que teve ou continua tendo uma única motivação: precisa estar lá.
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- Eu sinto muita inveja do Stan Lee quando leio coisas como: “Fiquei sentado à mesa tentando pensar num e vi essa mosca andando pela parede e aí pensei, ‘nossa, não seria legal se um herói pudesse andar pelas paredes como um inseto?’ O maior problema quando você cria um super-herói é que superpoder você vai dar para ele. É que todos já foram imaginados. Então imaginei que alguém que grudasse nas paredes como inseto seria legal. Daí precisei de um nome. Que tal Homem Inseto? Não parecia dramático. Homem Mosquito? Nah. Fui fazendo uma lista. Quando cheguei em Homem Aranha, aquilo soava dramático. Homem Aranha!” Tem mais aqui.
Nota do Editor: via Pedro Doria.
- A Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes) já tem um calendário completo de eventos para 2007. Este ano um das peças dessa nova engrenagem da música pop ganha o reforço considerável com o patrocínio oficial da Petrobras, que vai dar até 200 mil reais para alguns dos festivais. É bom que isso se converta em ações positivas e de custeio para as bandas.
- Depois dos 25 melhores posters de rock da história (post abaixo), que tal as 100 piores capas de discos?
- Pirataria rulez pra cima do Sonic Youth. Bacana.
- E aí, curte um rock eletro-britadeira? O Cavalera Conspirancy (o novo projeto dos irmãos Iggor e Max, que aliás, é a capa da nova edição da Rolling Stone brasileira) já disponibilizou através da Road Runner o primeiro single, se chama Sanctuary.
- Tem um trecho de uma música do próximo disco da Madonna que já caiu na rede também. Se cama “4 Minutes to Save the World” e é uma parceria com Justin Timberlake. Já tem até para download.
- Lembra do disco Thriller: 25th Anniversary Edition que está custando os olhos da casa? Pode ser feito download dele gratuito aqui.
- A primeira coisa que você pensa quando ouve falar de um home theater de seis milhões de dólares (!!!) é: eu quero um. Depois você pára e vê que é quase irracional. Mas continua querendo.
- Não é todo dia que a gente encontra quem goste dos poemas do soberbo Alexei Bueno. Eu diria que Alexei está, dentro da poesia brasileira, num patamar ocupado por poucos. Por poucos leia-se Bruno Tolentino, Gerardo Mello Mourão, Agripino de Paula e João Cabral de Melo Neto.
- Essa declaração quase põe a perder uma análise interessante do Kennedy Alencar sobre as eleições americanas: “Já Bill Clinton deu uma ajuda danada a FHC na crise cambial de 1999. Clinton bancou um socorro de mais de US$ 40 bilhões do FMI para evitar a quebra do Brasil em janeiro daquele ano.” Ora, como se em política fosse no mínimo sensato esperar por ajuda humanitária quando interesses econômicos estão em jogo. 1999 foi uma exceção. Tanto que ele consegue lembrar até hoje. De resto, o artigo é lúcido.
- O Polzonoff tem razão. Spoilers definem o que é resenha mal feita e o que é crítica literária profunda. Por falar nisso estou devendo uma resenha do Mãos de Cavalo, do Daniel Galera.
- Eu sei que é difícil acreditar, mas tem quem ache no mundo que investir em jornalismo na internet é furada. Eu conheço um. Não é o caso da Spin, que agora pode ser lida na íntegra na internet. Coisa que o Times já fez ano passado.
- A entrevista que me deu mais prazer em fazer foi a do Antonio Cicero, filósofo, escritor, poeta e compositor. Culto e acessível, foi bastante gentil e sem a afetação que é típica nos filósofos, nos escritores, nos poetas e nos compositores. Pode ser lida aqui.
- A Vanity Fair desse mês é toda dedicada a Hitchcock. Luxuosa.
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