Suspensão da descrença
Lembro como se fosse ontem. Da cor do lugar, da rua em que o edifício vive até hoje, agora transformado em igreja, e particularmente da impressão que busquei causar nas pessoas ao redor - e certamente fui infeliz na tentativa - de que nada daquilo era novo para mim. Acho que na maneira de portar-me, de falar com o bilheteiro. Um ar desses que percebemos, ainda mais numa criança com nove ou dez anos, ser farsesco e até engraçado, de no fundo deixar de ser “pre” e passar a ser “tween“.
Mas a realidade não tinha como ser escondida no frio que se enroscava no estômago, atravessava os rins e subia pela espinha para na altura dos ombros se espalhar pelos braços e findar em suor na ponta dos dedos. Tudo era novo, absolutamente. Passada a cortina grossa que mantinha a luz afastada do grande vão com um declive de vinte e poucos graus adiante, a curiosidade se acomodou como um corpo se acomoda numa poltrona curvada de madeira, uma poltrona de cinema.
O nome do filme era na medida em que eu podia - muito embora não o tenha feito, até por desconhecer a expressão - deter-me no conjunto da obra, que incluía o formato das poltronas, a inclinação do chão, as luzes laterais, a janela minúscula acima da galeria de onde saía um facho de luz amórfico e milagrosamente parava solto no ar estacionado por um imenso fundo branco e com vida, o menos importante daquele ritual. Foi essa a primeira impressão e que se mantém até hoje, cinema um ritual.
O mecanismo técnico dos vinte e quatro quadros por segundo com variações imperceptíveis ao olho humano eram capazes de suspender toda e qualquer descrença que pudesse existir àquela época e que, à medida que o tempo correu a vinte quatro dias por hora de tanta ansiedade na vida, aumentaram consideravelmente. No mundo, nas pessoas, nos sentimentos, a descrença. Mas jamais dentro do grande vão escuro de chão inclinado e poltronas curvadas. No cinema tudo é crível.
Aceitamos passivamente ser enganados, ter os conflitos que nos perseguem a vida inteira simplificados em cento e vinte minutos, e quando muito refletir sobre coisas nas quais tropeçamos todos os dias ou somos alertados por vozes próximas, mas que só o alheio de um drama encenado consegue despertar.
Somos em pouco tempo partes do mise-èn-scene proposto por pastiches, dramas autorais, medos e emoções que tomamos como nossas por pura empatia com personagens e situações, muitas das quais saímos com a impressão de termos vivido, quando na verdade sempre a desejamos e nunca foi possível. Porque no fim das contas a vida é praticamente isso, os riscos que desejamos correr e a coragem de fazê-lo que só teríamos no cinema.
Deixe seus comentáriosEpifania
A imagem que guardo de coisa semelhante mora tão longe, na infância, que o cheiro é quem se torna lívido na memória quando entro. Um estalo, já o senti antes. Os traços que consigo unir na mente e formar um pictograma sequer do referencial que se perdeu no passado são difusos. Resta o prazeroso exercício de olfatometria. O cheiro de um lugar que pensei extinto.
Plantada numa improvável avenida, quase passa despercebida, não fosse o acaso e o profundo tédio que me fez caminhar a esmo, decupando com atenção cada código do lugar. Sem pompa, só a circunstância de ser e assim ter anunciado com um letreiro tímido e sincero no alto de sua estreita porta: barbearia.
Tudo é familiar. O cheiro da poltrona de couro surrado, o aconchego das velhas coisas que não entulham, o armário de madeira amarelada posto a um metro e vinte do chão, com o largo espelho logo acima emoldurado por um talhe fino que se complementam com o sofá coberto por uma manta grossa de algodão. O lugar de espera. Onde assim que entrei apenas um senhor me esperava folheando um jornal de ontem.
As cãs e a pele engelhada noticiam a idade avançada que em época de tantos disfarces para o tempo, soa tão démodé quanto o próprio lugar. A sinergia das coisas que estacionaram nos anos passados e sobrevivem assim, sem disfarce algum, por teimosia ou prazer de sê-lo. Os cabelos brancos se enroscam na poltrona de couro que acomoda o armário acima do espelho, todos aguardando o roçar das lâminas das tesouras, e assim por diante. Cada coisa parte de um corpo. Minúsculo e aparentemente frágil. Aparentemente.
A voz suave que pergunta sobre a forma e o comprimento do corte desaparece no roufenho passar de carros na avenida. Refaz o questionamento com a calma de quem já teve a vida na palma da mão e agora resta a calma do resignado. Num instante o enorme lençol branco com amarras numa ponta que envolve o meu pescoço é estendido. Dá-se a epifania.
As mãos borrifam um frasco que lança água nos cabelos. A tesoura se acomoda entre os dedos e o pente, traçando um feitio com calmaria de mosteiro. Quase adormeço de tão macio que é o trato e o som uniforme das lâminas. Os dedos de prosa não passam de três ou quatro. Estranha o sotaque, tem chance de mais perguntas, mas segue absorto no ofício com o afinco de um condenado a morte em seu último pedido.
O cheiro. A mistura de coisas que findam brancas acomodadas numa pasta homogênea dentro de um pequeno pote de mão toma conta do lugar. Cânfora, hortelã, um pouco de água e coisas que não sei o nome vão sendo entornadas pelo mexer do pincel. Vê-se Deus quando o frescor toma conta do rosto, parte a parte, depois de cada talhe certeiro da navalha. De repente a sensação de que o tempo não precisa correr naquele instante, como parece não ter corrido para a barbearia em si.
Deixe seus comentáriosPs.: SP
Desde que cheguei a esta cidade, imerso num poema de Corsaletti - lambuzado pelos beijos de mamãe e sob o olhar poderoso do meu pai -, tenho tateado as ruas com dedicação canina. Inclusive pelas quais me perdi na dolorosa ilusão de que ao contornar o quarteirão estaria de volta ao exato ponto de onde parti. A cidade é antes de tudo um dédalo.
