Adeus Columbus

Sobre o ofício

À pergunta do que eu andava fazendo da vida o estranhamento. Cinco ou seis amigos de infância de quem fui afetivamente próximo e hoje me percebo terrivelmente distante, seja por incompatibilidade de assuntos, interesses ou simplesmente o que chamam “vida passar”, atônitos tentando compreender a resposta. “Trabalho com palavras… é isso”.

Entre cifras e relatos de vidas mercadologicamente bem sucedidas talvez não haja brecha para o impalpável. Um estranho no ninho das linhas retas em constante ascensão. Uns com suas famílias precoces e já acometidas pelo tédio inevitável, outros com uma dificuldade latente de livrar-se da irresponsabilidade da juventude, mas todos, sem exceção, atônitos.

Pois vivo assim, à margem do que talvez tenham planejado ou imaginado onde estaríamos todos hoje, anos depois da infância bucólica e da adolescência marcada por aventuras num já distante sertão. Não visto branco dos pés a cabeça; não suporto sangue. Não projeto edifícios nem meço os graus de imensas porções de terra. Não entendo leis, não defendo interesses; conheci a alforria quando joguei todos os códigos no fogo. Eu apenas trabalho com palavras.

Escrevo cá, preferencialmente em madrugadas silenciosas, o que me pedem. Minha moeda é a palavra, meu investimento os livros, minhas frases são como pacientes que assisto cuidadosamente, lapidando, recriando, apagando e reescrevendo até que soem doces, fortes, como queira. Sustento-me entre as palavras, conto histórias, umas saem no jornal, outras se lançam desesperadamente para a lixeira assim que concluídas. Mas sempre através delas, as palavras.

Nenhuma inveja deles, também do lado de cá confesso um estranhamento às vezes angustiante, noutras resignado. Interessa-me o descartável, o comum, o que as pessoas têm a dizer sobre a mais tediosa e por isso mesmo encantadora vida. E só. Escrevo crônicas sobre coisas que vi, crio contos sobre o que talvez um dia vá viver, formato reportagens, discursos, propostas, roteiros. Compro feijão com parágrafos.

Pode ser que um dia – sabe-se lá o quanto a vida é traiçoeira – eu tenha que ter os mesmos interesses de todos eles, que possa falar dos investimentos, do paciente que foi salvo por um lampejo de humanidade, de clientes, viagens, negócios. Talvez um dia. Por enquanto vivo e morro no teclado, digitando letras, pago as contas com o que produzo, não sigo regras a não ser as ortográficas, semânticas e quetais. Vivo assim, para o não discernimento de todos eles, me sustentando com palavras.

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Fiat Lux

É sempre bom começar a semana com uma crônica do Antonio. Segue:

Houve uma época em que a noite era dos gatos e dos gatunos. 24 H eram três caracteres lidos apenas em luminosos de hospitais, clínicas dentárias em sobrelojas e uma ou outra borracharia – geralmente, bem distante de nosso pneu furado.Não sei bem porquê, mas não passava pela cabeça de ninguém, até o final da década de oitenta, vender máquinas de lavar, vatapá ou livros de administração muito depois do horário comercial.

Tudo mudou na noite em que o Rodolfo, um amigo do meu pai, chegou tarde à nossa casa, cheio de sacolas. Entusiasmado, nos explicou de onde vinha: “chama loja de conveniência! Vende tudo, a qualquer hora! Se você tá voltando de uma festa, por exemplo, três da manhã, e lembra que tem que comprar sabão em pó…”. “E quem vai querer comprar sabão em pó às três da manhã, Rodolfo?!”, cortou meu pai, mostrando muita sensatez e nenhum tino comercial.

Foi mais ou menos nessa época que começaram a vender produtos pela TV, de madrugada. Didi Seven, um alvejante capaz de transformar carvão em marfim; Facas Guinsu, a melhor maneira de serrar pregos e sapatos; meias-calça Vivarina — se um maníaco te atacasse com um garfo, as meias ficariam intactas. Os anúncios passavam entre pornochanchadas e programas evangélicos, sugerindo que Deus, sexo e bugigangas estavam competindo pelo monopólio de nosso tédio, nossa solidão.

Dali para a frente, tudo mudou. Fogão, rabada, samambaias, golden retrievers, Proust completo: não há quase nada que se compre ao meio dia que não possa ser encontrado a meia-noite. Acho ótimo. Vira e mexe, faço compras lá pelas duas da manhã. A salsinha costuma estar meio murcha, é verdade, mas só de você poder escolher os tomates sem ter que ficar encolhendo a bunda para os outros carrinhos passarem, já vale a pena.

Não consigo, contudo, deixar de sentir um incômodo ao carregar produtos de limpeza pela madrugada, como se fizesse alguma coisa profana, imoral. (Mais ou menos como beber pela manhã, ou ir a um casamento de chinelos). Nada que não desapareça, é verdade, assim que me lembro que, se o pneu furar, posso achar um borracheiro aberto em qualquer canto da cidade. Poderia, ainda, encomendar Facas Guinsu, um terço bizantino ou um vatapá pernambucano, pelo celular, sem nem sair do meu carro. Mas é claro, quem é que iria fazer uma coisa dessas, não é mesmo, Rodolfo?

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Palavras escritas à mão

Uma deliciosa crônica do Antonio Caetano, amigo do peito. Segue:

Perdera o hábito de escrever a mão. Nada além de bilhetinhos e lembretes, palavras esparsas numa letra apressada, quase ilegível, mais código taquigráfico do que exercício de caligrafia. Mas a esta hora, tinha de escrever a mão. Não poderia sujar o silêncio com o ruído regular do teclado.

A caneta deslizava pelo papel sem pautas. E em cada variação de letra, lia a presença de alguém. “Este é meu pai”, pensou, ao olhar o arremedo da letra bem talhada de escriba, redonda e calma, igual. Seu pai. Haviam feito em sonho um acerto de contas sentimental, de modo que podiam lembrar um do outro sem apuros ou culpas. Estranho mundo este, repleto e intenso, em que há coisas que se resolvem em sonho.

Outro dia, tentara lembrar o verso de um poema e escrevera “caos sangrento” em vez de “cosmos sangrento”, como no original: “Não conseguiu firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura”. Não demorou a perceber o quanto lhe custava admitir essa proximidade de sangue e ordem. Pensava a ordem como um princípio de simplicidade e economia que associava à paz. Mas era evidente que a indubitável beleza da vida e do mundo estava permeada de violência. Uma violência vital, sangrenta de seres devorando seres - que à alma pura talvez chocasse menos do que a violência premeditada dos homens. Mas ainda assim, violência. “Que ao menos não seja em vão o sangue que corre sobre o cosmos: a isso chamaremos de justiça.”

Era o correr desse sangue cósmico que fazia o silêncio imenso da madrugada: raros carros passando, o rumor longínquo de máquinas invisíveis, o estalar das coisas, uma ou outra voz, fiapos de música, passos ocasionais de alguém na rua, o vento. Até o frio do vento era som nesse silêncio. “O ressoar da vida em repouso velo como se a amada dormindo fosse” era um verso que só poderia ser escrito a mão. “Minha cama é o mundo e nela você é a vida que repousa sob a luz ambígua da Lua”, diria a ela, a amada, quando acordasse.

Em francês, o mar é feminino: La mer. Não sei se todos, mas ao menos este silêncio é feminino.

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Sobre Heróis

Transcrevo abaixo a deliciosa crônica de Cony, publicada hoje na Folha de SP. Segue:

Ao lado de Vladimir Palmeira e do professor de filosofia Paulo Oneto, participei de um debate na PUC-RJ promovido por Anna Lee e subordinado ao tema: “Olhares sobre Maio de 68″. Procuramos dar os nossos recados para uma platéia de universitários, e um deles nos perguntou se não haveria uma inexplicável nostalgia daquele tempo.

De minha parte, respondi que não. Mas admiti que se instalara, nas gerações que não viveram aquele período, não apenas uma nostalgia mas um desejo de aventura existencial equivalente, no passado, àquele dos que procuravam a Legião Estrangeira para fugir da monotonia de tempos menos heróicos. Ou, em escala mais politizada, iam lutar na Guerra Civil da Espanha. Lá atrás, muito atrás, os cruzados, que iam resgatar os lugares sagrados do cristianismo.

Os tempos são outros e não estimulam atos heróicos -sejam quais forem as causas em conflito. A cabeça das novas gerações está voltada para temas mais prosaicos. Tirante a defesa do meio ambiente, que já produziu alguns heróis individuais, como Chico Mendes, grande parte da energia jovem foi canalizada para a expressão de um tipo de comportamento, pessoal ou coletivo, que contesta a sociedade, os valores estabelecidos, a moral conservadora.

O instrumento mais usado para exprimir esta agenda, até certo ponto revolucionária, são as numerosas bandas que se formam, sucedendo-se umas às outras na preferência do eleitorado. Participar de um megasshow incrementado pode equivaler, para a platéia de hoje, à passeata de ontem.

Daqui a alguns anos, quando os valores mudarem, haverá gente que terá nostalgia do tempo em que se pedia ao Brasil que mostrasse a sua cara. Cada geração tem a luta que merece.

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Tubo de Ventilação

Crônica deliciosa do Antonio. Como sempre, aliás. Segue:

Num mundo ideal, as janelas dariam sempre para árvores frondosas, crepúsculos de calendário ou vizinhas distraídas. Aqui neste vale de lágrimas, no entanto, tenho que aceitar como vista do meu banheiro um vão de concreto onde a luz do sol jamais penetrou. Segundo o Jurandir, zelador zeloso e profundo conhecedor das questões condominiais, o nome técnico da anti-paisagem é “tubo de ventilação”.

Se a tal garganta que perpassa treze andares não brinda os moradores do Edifício Maria Eulália com visões do paraíso, ao menos distribui, para deleite do cronista, a trilha sonora de algumas vidas empilhadas acima e abaixo do meu banheiro.

Tem o garoto que ouve música sertaneja e canta junto. Tem a moça que passa a vida ao telefone, repetindo sempre a mesma conversa: “E ele? Não! E você? Sei. E ele? Não! E você? Sei.” Tem um senhor que tosse toda manhã, com uma força capaz de enviar seus perdigotos à Dinamarca, caso para lá sua janela estivesse virada — e não, como já foi dito, para o “tubo de ventilação”. Tem os namorados adolescentes que tomam banho juntos, descobrindo as artimanhas e agruras do asseio a dois: “deixa eu, tá frio!”. “Calma, tem xampu no meu olho!”. “Lindoco, posso lavar?!”. “O que?”. “Ele…”. “Ele não, Gatucha! Tenho vergonha…”. “Ah, deixa, vai?!”. Tem alguém que passa as madrugadas no messenger. Triste… A noite toda aquele brrrrlump, brrrrlump — um sapo eletrônico, a coaxar pelo prédio nossas solidões compartilhadas.

Semana passada, chegou pelo tubo uma coisa diferente. Não era som, era um cheiro. Cheiro de…. De que, meu deus?! Senti meu cérebro formigando, como se as memórias lá do fundo borbulhassem, confusas, querendo saber qual deveria emergir. Seria o desodorante da enfermeira que primeiro me pegou no colo? O xampu da minha mãe, na infância? O perfume de uma namoradinha da quinta série, que estava submerso há anos em algum rincão, ao lado do gosto do Halls de cereja e da música tema de Top Gun?

Fiquei ali parado, no box do chuveiro, de olhos fechados, com a sensação de estar muito próximo de uma coisa enorme e íntima, mas que ia se esvaindo, enquanto o cheiro sumia e se acalmava o alvoroço nas galés da memória. Então alguém deu a descarga, outro ligou o rádio e fui pegar uma coca na cozinha.

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Dia de outono

Rather Lovely Thing”, de Nick Cave e Warren Ellis, foi a primeira coisa que me ocorreu como tema, se necessário fosse, para ilustrar com uma seqüência harmônica impecável – um tanto melancólica, é verdade – os passos curtos das três crianças buscando desesperadamente a bola, ladeira abaixo. Um dia agradável. A saber: a segunda vez em meses que flagro meninos correndo por improváveis ruas.

 

Um pouco além, debaixo das frondosas árvores centenárias e, cirurgicamente observadas por você, apaziguadoras de espírito, alguns senhores com elegantes, mesmo que gastos, suéteres de lã e luvas para rebater o frio entre os dedos, disputam o que desesperadamente podem ser as últimas partidas de truco de suas vidas. Por isso tanto gosto, afinco em distrair o pavor de perceber-se findando.

 

Do outro lado da calçada, a relação inversa do tempo no abraço demorado e desavergonhado dos namorados. O enroscar de mãos lisas como se acompanhasse num compasso regido por algo invisível, mas que sabemos estar lá, a sinfonia de silêncio e desejo esborrando dos olhos cerrados, dos corpos, dos cabelos em desalinho da menina agasalhada com um suéter de mesma cor do avistado na roda de velhos que disputam mais uma – quem sabe a última – partida de truco.

 

Um dia assustador de tão agradável, a julgar pelo cinza azulado que tomou conta do céu não faz vinte e seis horas, quando o temporal varreu as ruas, arrastando – agora se sabe – tudo que pudesse, mesmo que não saibamos exatamente o quê, desacordar o que nesse instante se derrama sob nossos olhos calmos, adormecidos para o caos: as crianças, o casal, os velhinhos, a alameda com suas árvores gigantes.

 

Os poucos raios de sol, apesar do sol aberto e claro, que se atrevem a ultrapassar os galhos da alameda, enroscam-se nos troncos como gatos manhosos nas pernas do seu dono. A estupenda calma de um dia incomum para o que nos acostumamos do lado de cá do mundo, aonde o céu é permanentemente decorado com tons de cinza e respira-se não ar, mas uma gosma cinza inominada.

 

Silêncio. De repente os apontamentos cessam. Estamos a observar, e apenas isso, o que nos convém, apraz, o que nos permite extrair de cenas cotidianas seqüências sem cortes de filmes pessoais, intransferíveis, pontuados por atuações de poucas palavras, alguns tons pastéis – dos suéteres – um ou dois gritos agudos dos meninos correndo atrás da bola e o abraço demorado do casal, que torna-se mais apaixonado num dia de outono em São Paulo.

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Terremoto

Ah, eu preciso celebrar o prazer que é encontrar o Antonio, coisa rara diga-se. O Prata sempre ocupado, eu idem, materializamos o improvável que é sentar numa mesa e jogar conversa fora a cada três meses, embora estejamos separados por dois bairros apenas. Mas ontem foi um dia alegre, Antonio apareceu e o Corsaletti também, falando empolgadamento do seu próximo livro, King Kong e outras cervejas. E, claro, falamos do terremoto. Antonio com mais classe do que nós todos juntos. Ei-lo:

Não é que eu não soubesse que de 2008 a gente não passava, mas esperava a hecatombe só lá para julho, quando uns cientistas colidirão mini-partículas num bambolê de 27 km, enterrado entre a França e a Suíça, criando um buraco negro que reduzirá a mim, a você, ao Kilimanjaro e a tudo o que existe no planeta a uma bolota do tamanho de uma azeitona. Contava com os meses restantes para ler Proust, conhecer as cataratas do Iguaçu e fazer um curso rápido de danças de salão – um antigo desejo de minha senhora. Então a tela do computador tremeu, o quadro atrás da tela também, minha bunda chacoalhou sobre a poltrona, a poltrona deslizou uns dois centímetros sobre a crosta terrester, a crosta sambou sobre a enorme camada de gelatina, também conhecida como magma, com a qual Deus imprudentemente recheou a Terra e pensei: danou-se.

Enquanto corria para baixo do batente da porta — precaução aprendida num desses documentários da TV e que jamais achei que me fosse ser útil, pelo menos não aqui nas Perdizes – pensei nas duas hipóteses mais prováveis: terremoto ou loucura. Contemplando o lustre a tremelicar no teto, torci egoisticamente pela primeira opção. Afinal, se o céu finalmente caísse sobre nossas cabeças, como temia Obelix, eu não estaria só em meu sofrimento. (Desculpem, camaradas, mas foi assim mesmo).

A idéia de um terremoto no Brasil é tão absurda que logo abriu uma fenda no centro de meu bom senso, fazendo-me considerar outras possibilidades não menos estranhas. George Bush apertou o botão vermelho, sem querer, iniciando a guerra atômica? Os marcianos estão atacando? (O tremor seria, provavelmente, causado pelo pouso da nave mãe no Memorial da América Latina). Deus, conforme prometido, havia iniciado o juízo final?

Depois de mais ou menos cinco segundos, quando eu já havia me conformado com o fim do mundo e até encontrado algum consolo ao perceber que, se tudo acabasse, ao menos estaria livre de fazer o imposto de renda, o chão voltou a se comportar como antes. Peguei uma coca-zero, sentei-me novamente sobre a poltrona e o terremoto apareceu na internet, embaixo da manchete sobre as noventa e duas mortes causadas por dengue no Rio de Janeiro e acima do padre que saiu voando, agarrado a umas bexigas, na costa de Santa Catarina. A vida seguia seu rumo, como sempre, na mais perfeita normalidade.

Terremoto, de Antonio Prata

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Bandeira, o cronista

“O caso Antonieta Rudge me faz pensar no caso Machado de Assis. Perdão, eu conheço bem as enormes diferenças. O caso Machado de Assis era complicadíssimo, o de Antonieta simples.Machado de Assis era inquietante. Conheci-o pessoalmente, eu era rapazola. Laranjeiras… O rio da Carioca a descoberto. Era particularmente pitoresco nas proximidades da casa do mestre. Uma casa que era um amor de simpatia. Porque era do mestre. A prova é que havia mais duas ou três iguais a ela e não eram a mesma cousa. Eu passava por lá sempre com um bruto respeito. O Brás Cubas fora escrito ali? Em todo caso o Dom Casmurro. A casa de Capitu. À tardinha havia sempre uma janela aberta na sala de visitas, a primeira janela à esquerda, e eu já sabia que havia um vulto de senhora, bonita cabeça de cabelos todos brancos, com um livro aberto nas mãos.”

A crônica acima é uma das que até então permaneciam inéditas, do Manuel Bandeira. Agora, além de ganharem um livro, estão na Piauí.

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Uma merda

Na boa? Eu também acho Glauber Rocha uma tremenda merda. Tem gente que acha o mesmo e está sendo patrulhada. O Ruy Castro fala disso, na crônica que transcrevo abaixo.

São Paulo, com mais a fazer, não tomou conhecimento de uma discussão que sacudiu setores do Rio na semana passada -talvez umas 18 pessoas- e que, em outros tempos, teria provocado um sismo no pensamento nacional: a declaração do humorista do “Casseta” Marcelo Madureira de que Glauber Rocha era “uma merda”.

Estivéssemos em 1978, não 2008, e pode-se imaginar o arranca-rabo que essa frase teria provocado. Artistas começariam a se estapear pelos jornais; a USP promoveria um ciclo de debates; os “Cadernos do Cebrap” tirariam edições extras; a CNBB seria chamada a arbitrar; haveria uma noite de vigília no Teatro Oficina; e o assunto logo renderia teses de doutorado na Unicamp.

E com razão. O que estaria em pauta não seria o conteúdo da afirmação, se Glauber seria ou não “uma merda”, mas o direito de Marcelo proferi-la. Afinal, pouco antes naquela época, o cineasta Cacá Diegues tinha detonado as patrulhas ideológicas, garantindo-nos o direito de pensar a contrapelo do “politicamente correto”.

Trinta anos depois, esse direito acaba de ser contestado. Ao ouvir a imprecação de Madureira, os viúvos de Glauber estrilaram. Levou-se “Deus e o Diabo” à ABI em desagravo, a família do baiano ameaçou processar e, como argumento fatal, alguém sentenciou: “As pessoas não podem sair falando qualquer coisa. Daqui a pouco vão dizer que Niemeyer é uma merda”.

Ué, também não pode? Acontece que Glauber estava vivo em 1978, e muitos dos que hoje o defendem tinham acabado de romper com ele por sua surpreendente opinião de que o general Golbery, guru da ditadura, era um “gênio da raça”. Golbery não fazia jus à tão alto conceito, mas ninguém podia impedir o incorretíssimo Glauber de jogar frases como aquela no ventilador.

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1968

A crônica que transcrevo abaixo é de Carlos Heitor Cony e foi publicada hoje na Folha de São Paulo, se chama O rosto na multidão. Vou te contar, o Cony quando acerta a mão, me faz até esquecer que todos os meses embolsa uma fortuna da Viúva, por ter sido vítima (!) da ditadura militar no Brasil. Mas vamos ao que interessa…

Tudo bem, cada um se diverte e se glorifica como quer. A mania agora é fuçar fotos do passado, sobretudo as das passeatas de 1968, documentadas à farta pelos bons profissionais do ramo. Apesar de farta, a oferta foi menor do que a procura, não deu para todo mundo deixar registro na história nacional. Mesmo assim, descontando os que morreram por isso ou por aquilo, é difícil encontrar um cidadão maior de 40 anos que não tenha dado sua contribuição heróica à luta contra a ditadura.

Parece um pouco com o caso dos figurantes dos filmes do Glauber. Volta e meia esbarro com um cara que garante ter feito figuração em tal filme -e, neste particular, minha glória particular é ter tido um irmão que, sem querer, fez figuração num filme de Hitchcock (”Notorius”) que tem cenas passadas aqui no Rio. Cary Grant e Ingrid Bergman estão sentados na Cinelândia, tomando coco por canudinho, ali mesmo no Amarelinho, gente passando pra lá e pra cá. De repente, surge meu irmão, que estava indo para a Faculdade de Medicina, tomava o bonde ali perto, no Tabuleiro da Baiana. A cena é rápida, mas deu para consagrar a família.

Bem verdade que o Janio de Freitas e o Ruy Castro viram o filme 247 vezes para me desmentirem, mas, nos fastos familiares, ninguém nos tira essa glória.

Voltando às fotos da passeata. Não me procuro entre os heróis daquele tempo. Não participei de nenhuma delas, metade por preguiça, metade por ser militante do único partido que me interessa, o do “Eu Sozinho”.
Quando chegar ao inferno (este dia não está tão longe assim), pedirei a Satanás um único favor: o de me dar uns gravetinhos e uma caixinha de fósforos para fazer a minha fogueirinha particular, onde purgarei meus pecados. Sozinho e mal-acompanhado.

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Lirismo

“Toda mulher, após trinta dias de felicidade, sente fome e sede de desgraça. Só não irá embora se não tiver condução”

Antonio Maria, em crônica

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Sobrados

A cidade se descortina aos poucos, como moça de amor fugidio, dissimulada. Mas sem ressaca, o mar está a algumas horas daqui. O dédalo posto ao alcance do nosso temor e em mesma medida também de persuasão. As ruas, travessas, tortas, transversais, sem saída ou com muitas delas, ao nosso inteiro dispor.

Cenas que poderiam ser pinçadas de um retrato bucólico, desses que amarelam em paredes de fazendas, de sobrados com grandes janelas e senhoras bonachonas à sua frente - a expressão que uma foto diante de um sobrado antiqüíssimo pede - de repente à nossa frente. Sobrevivente do caos de concreto e asfalto, uma vila de sobradinhos, um resquício arquitetônico miniaturizado daquele senhorio de nunca mais.

Na entrada um gato gordo se refestela no sol revirando para não perder uma fatia sequer dos raios que se desramam entre avencas, samambaias, costelas-de-adão, bocas-de-leão, lianas que dão aos pequenos sobrados de cores gastas uma aparência ainda maior de improbabilidade. Há quem tenha por impossível tamanha calma encravada onde a cidade é mais infernal.

Um portão vazado e apenas encostado, sem tranca alguma, é o que separa a cidade da senhora que, repousada na janela de um dos sobrados, entrete-se com a parcimônia de quem espera apenas a morte, com um cachimbo, tão velho que se falasse contaria a história do que houve ao redor até que restasse de humanidade e paz apenas as sete casinhas miúdas e suas velhotas gordas e bonachonas, com seus gatos, cães e filhos ausentes.

Ouve-se aqui e ali o bater de panelas, o zigue-zague da velha máquina de costura movida a tração humana, o tilintar de agulhas de crochê, o roçar das argolas de madeiras que prendem o tecido para ser bordado por cuidadosas e trêmulas mãos. Três ou quatro senhoras na calçada, dividindo uma colcha de retalhos que parece contar as suas histórias, desconhecem solenemente a desarrumação instalada a poucas passadas dali.

O cheiro de café se mistura ao de biscoitos amanteigados recém-tirados do forno, anunciados em seguida pela voz rouca de uma delas, que vem até à porta oferecer o mimo, prenda e costume de quando a cidade era repleta de vilas como essas, com sobrados antigos e de cores gastas, regidas por senhoras bonachonas, cobertas por plantas trepadeiras e decoradas com gatos gordos rolando em busca de sol.

Depois de tanto observar sou percebido com olhares de susto, ao que me apresento, espio de entreolho os biscoitos na forma de alumínio esfriando na janela e os detalhes da colcha de retalhos. A desanimadora negativa se havia alguma das casinholas livre para alugar se desfaz diante do prazer amiúde de por poucos segundos ter sido parte da colcha, do cachimbo, do crochê, das plantas, do gato, e de tantas histórias que só restam ser imaginadas.

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Disneylândia II

Moça coreana trazida para Santos num cargueiro de bandeira holandesa vende tênis de marca americana fabricado ilegalmente na China. Bolivianos costuram mil e duzentas camisas por dia com tecido contrabandeado do Paraguai, durante dezesseis horas seguidas de trabalho, num galpão com fachada de oficina para carros alemães no Bexiga, o bairro italiano. Paraense criado no Mato Grosso do Sul oferece picolé de Caicó, segundo ele uma cidade na Bahia, enquanto um sushiman mineiro na Liberdade, o bairro japonês, prepara um sashimi de robalo pescado na costa do Rio de Janeiro.

Baiana de Vitória, no Espírito Santo, vende acarajé com pimenta trazida do Crato, no Ceará, por um caminhoneiro goiano que viaja para o Nordeste duas vezes por mês carregando frutas produzidas no Paraná. Moçambicanos disputam compradores para as cópias de relógios suíços na 25 de março, em frente a loja de doces árabes recheados com tâmaras iranianas e mel de jandaíra alagoano, de um senhor libanês.

Putas uruguaias fazem ponto nas calçadas do bairro judeu enquanto turista chileno assedia um michê gaúcho no Ibirapuera. Jornaleiro maranhense entrega cópias da edição que estampa na capa a foto do presidente nascido em Pernambuco abraçando o primeiro ministro francês, casado com uma cantora italiana. Garçom recém-chegado do Tocantins para trabalhar no restaurante de um chef mexicano agradece a polpuda gorjeta de um cliente paulistano com investimentos na bolsa de Londres.

Taxista filho de piauienses recebe um indiano vindo da África de Sul pela companhia de aviação do Catar, e o leva para encontrar sócios austríacos na cafeteria em frente à igreja de padroeiro grego. Atores de uma companhia de teatro paraibana encenam adaptação de clássico inglês, enquanto um jogador brasileiro, nascido em Roraima, anuncia na TV a volta ao país para jogar no time fundado por imigrantes portugueses.

Senhora polonesa pede ajuda a um rapaz brasiliense para atravessar a rua com nome de um político argentino que jamais esteve em São Paulo. Do outro lado da cidade um policial nascido no Amazonas e criado no Jardim Ângela prende um mafioso russo acusado de recrutar jovens catarinenses para rede de prostituição comandada por uma senhora tailandesa.

Receita de macarrão chinês é preparada por um senhor acreano, numa barraca fabricada por metalúrgicos sergipanos, na Praça da Sé. Filhos de um executivo dinamarquês são assaltados enquanto acompanham um amigo paulista à embaixada americana, para tentar o visto que o permita conhecer a Disneylândia. Ele certamente não olha ao redor.

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Sobre a vida

Ler Geneton Moraes Neto é das coisas que me dão mais prazer. Vê aí.

***

Filosoria barata: A vida, no fim das contas, não passa de uma gloriosa coleção de inutilidades. Quer ver? 

Sou capaz de citar de memória a escalação completa do time do Sport Clube do Recife de 1968: Miltão; Baixa, Bibiu, Gílson e Altair: Válter e Vadinho; Dema, Zezinho, Acelino e Fernando Lima.

Faz quase quarenta anos que tento encontrar algum uso para esta lista de nomes.

Não encontrei até agora.

Nunca apareceu a chance de ir a um programa de televisão para responder à pergunta fatal que me daria um milhão de reais em prêmio: quem era o ponta-esquerda do time do Sport que ganhou o Nordestão de 1968 ?Eu diria, depois de uma pausa dramática de quinze segundos: “Fernando Lima!”.

O apresentador exclamaria: “Absolutamente certo!!!”.

Com o dinheiro do prêmio, eu iria morar numa casa de quarto e sala na zona rural de Santa Maria da Boa Vista, sem celular e, principalmente, sem televisão. Lá, passaria o resto dos anos à espera de uma visita da Charlotte Rampling dos anos setenta, miraculosamente rediviva.

Charlotte não apareceria, é claro. O dinheiro um dia iria se acabar.

E eu teria de me inscrever de novo num programa de perguntas-e-respostas,em que um apresentador faria a pergunta fatal: quem era o médio-volante do time do Náutico que foi vice-campeão da Taça Brasil de 1968 ?

Depois de dezoito segundos de pausa, eu diria : “Rafael!”.

O apresentador diria: “Absolutamente certo!”.

E começaria tudo de novo.

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Suspensão da descrença

Lembro como se fosse ontem. Da cor do lugar, da rua em que o edifício vive até hoje, agora transformado em igreja, e particularmente da impressão que busquei causar nas pessoas ao redor - e certamente fui infeliz na tentativa - de que nada daquilo era novo para mim. Acho que na maneira de portar-me, de falar com o bilheteiro. Um ar desses que percebemos, ainda mais numa criança com nove ou dez anos, ser farsesco e até engraçado, de no fundo deixar de ser “pre” e passar a ser “tween“.

Mas a realidade não tinha como ser escondida no frio que se enroscava no estômago, atravessava os rins e subia pela espinha para na altura dos ombros se espalhar pelos braços e findar em suor na ponta dos dedos. Tudo era novo, absolutamente. Passada a cortina grossa que mantinha a luz afastada do grande vão com um declive de vinte e poucos graus adiante, a curiosidade se acomodou como um corpo se acomoda numa poltrona curvada de madeira, uma poltrona de cinema.

O nome do filme era na medida em que eu podia - muito embora não o tenha feito, até por desconhecer a expressão - deter-me no conjunto da obra, que incluía o formato das poltronas, a inclinação do chão, as luzes laterais, a janela minúscula acima da galeria de onde saía um facho de luz amórfico e milagrosamente parava solto no ar estacionado por um imenso fundo branco e com vida, o menos importante daquele ritual. Foi essa a primeira impressão e que se mantém até hoje, cinema um ritual.

O mecanismo técnico dos vinte e quatro quadros por segundo com variações imperceptíveis ao olho humano eram capazes de suspender toda e qualquer descrença que pudesse existir àquela época e que, à medida que o tempo correu a vinte quatro dias por hora de tanta ansiedade na vida, aumentaram consideravelmente. No mundo, nas pessoas, nos sentimentos, a descrença. Mas jamais dentro do grande vão escuro de chão inclinado e poltronas curvadas. No cinema tudo é crível.

Aceitamos passivamente ser enganados, ter os conflitos que nos perseguem a vida inteira simplificados em cento e vinte minutos, e quando muito refletir sobre coisas nas quais tropeçamos todos os dias ou somos alertados por vozes próximas, mas que só o alheio de um drama encenado consegue despertar.

Somos em pouco tempo partes do mise-èn-scene proposto por pastiches, dramas autorais, medos e emoções que tomamos como nossas por pura empatia com personagens e situações, muitas das quais saímos com a impressão de termos vivido, quando na verdade sempre a desejamos e nunca foi possível. Porque no fim das contas a vida é praticamente isso, os riscos que desejamos correr e a coragem de fazê-lo que só teríamos no cinema.

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