Considerações latinas
“Nunca é fácil decifrar a mente agitada de Hugo Chávez, mas no geral uma crise externa sempre cai sob medida quando um país está assolado por uma crise interna. Na incursão colombiana no Equador, parece até que a soberania da Venezuela foi violada ou parece que é complexo de culpa, pois o país também é santuário do terror colombiano. Na sequência de sua derrota no referendo de dezembro, que permitiria sua reeleição por tempo indeterminado, Chávez intensificou sua guerra verbal contra a Colômbia.”
“A Colômbia está tendo sucessos na guerra contra o terror (o que deveria ser saudado por todos na América Latina), mas fracassa na retumbante guerra às drogas empreendida pelos EUA. Algo como 90% da cocaína nas ruas americanas vêm da Colômbia (isto sim é um puro tratado de livre comércio). Nos últimos oito anos, os EUA deram mais de US$ 4 bilhões aos colombianos para treinamento militar, equipamento e inteligência para caçar os traficantes e erradicar as plantações de coca. Estes investimentos lembram a fortuna dada ao Paquistão do general Pervez Musharraf , que se mostrou dúbio naquela outra guerra, contra o terror.”
Como eu gosto de ler coisas inteligentes, sabia? Dá muito prazer não ficar preso a visões sectárias, maniqueístas. Como a de Caio Blinder, sobre o conflito Colômbia-Venezuela-Equador.
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Bom, pelo jeito o acordo entre a Colômbia e a Venezuela na OEA não surtiu efeito a curto prazo. Uribe continua afirmando que o governo do Equador tem laços com as Farc, e mais, que a campanha de Rafael Correa recebeu recursos da guerrilha. Para piorar tudo, o número 3 da organização narcoguerrilheira foi morto em combate com o exército colombiano (em território seu). É mais um duro golpe na organização das Farc. A coisa vai desmoronar. É esperar. Quando esse barco estiver afundando, os guerrilheiros serão os primeiros a desertarem. Previsão do tempo: raios e trovoadas.
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- Eu falei alguns posts atrás sobre o problema que a Colômbia enfrenta (ou pelo menos precisa enfrentar) com os grupos paramilitares de direita. O conflito divide o país ao meio e requer uma habilidade que até agora, Álvaro Uribe concentrado em atacar as Farc, não conseguiu mostrar que tem. E tem mais. Como se não bastasse o problema interno, a recente confusão com o Equador, tem trêta com a Nicarágua.
- Um conflito afasta-se dois milímetros da mídia e nos dá a impressão de ter arrefecido. Mas coisas continuam correndo. Iraque, conflitos tribais no continente africano, Timor Leste, China x Tibet. E Israel x Palestina, como não poderia deixar de ser. A crise no Oriente Médio entrou numa daquelas fases em que a impressão recorrente é que o buraco não tem fim e nunca vão chegar a uma solução pacífica. Israel meteu-se numa incursão desmedida que matou mais de cem palestinos, que agora responderam com a morte de oito judeus num mosteiro rabínico. Pena, muita pena. Para os dois lados. Ainda mais porque agora deve vir uma reação estúpida israelense.
- Afim de ir para Espanha nos próximos dias? Cuidado. A imigracion está, como se diz no Nordeste, com o “cão nos couro”. Muita, muita sacanagem fazer voltar brasileiros sem uma justificativa palpável. Aliás, por que o governo daqui não retalia? Basta proceder da mesma maneira. Já pensou um ministro de estado americano ou inglês sendo obrigado a retirar até os sapatos para ser revistado? Simples, a justificativa é simples: foi o que vocês fizeram com ministros nossos, brasileiros. Na mesma moeda o pagamento.
- Pop na veia (não na véia =P). De 80’s a 00’s. Joguinho supimpa para testar conhecimentos. Quer tentar?
- Três discos imperdíveis e para download gratuito: Gnars Barkley, Isobel Campbell & Mark Lenegan (discaaaaço!), Landon Pigg (folk! folk! folk!).
- O Michael Chabon, que venceu não faz muito tempo um Pulitzer, e é um puta autor de língua inglesa (melhor que o DeLilo. Ok, essa foi para provocar), publicou uma reportagem muito saborosa na The New Yorker sobre super-heróis. Aliás, sabia que os Coen, Ethan e Joel, estão adaptando um livro dele para o cinema? Deus do céu… Como se não bastasse No Country For Old Men, do Comar McCarthy. Vem obra-prima por aí.
- Pena ser na Caros Amigos, uma revista que eu acho tão sectária (mas não desonesta, jamais) quanto a Veja, mas mesmo assim vale a leitura da entrevista que o jornalista Luis Nassif concedeu abordando a série de matérias que ele vem produzindo contra o cavaleiros do apocalipse: Mainardi, Mario Sabino, Euripedes Alcantara e Lauro Jardim, jornalistas e editores da Veja.
- Lembram daquela senhora que em depoimento na novela Páginas da Vida, de Manoel Carlos, confessou ter acordado “toda molhada e babada” depois de adormecer ouvindo Roberto Carlos? Deu xabu. A justiça condenou a Globo por causa da edição, segundo a decisão da juíza, prejudicial a imagem da senhora.
- “Já fumei maconha várias vezes. Não tenho problema com isso. Se você plantar em casa e fumar, qual é o problema? É diferente de comprar de um traficante”. O José Padilha abrindo o flanco em entrevista na Playboy desse mês. Acho que agora cai a imagem de fascista do filme, a começar pelo diretor. Adorei.
- Faz um tempo que o mercado editorial brasileiro vem passando por grandes mudanças. Empresas estrangeiras praticamente dominam o mercado de best-sellers atualmente, assim como o direito de publicação de autores consagrados nacionais e gringos. Agora são as livrarias que começam a entrar no jogo. A Saraiva, por exemplo, desembolsou 60 milhões de reais pela Siciliano. Na verdade as negociações começaram ano passado e só agora foram concluídas, inclusive a transição gerencial. Vem mais coisa por aí, até com rede abrindo capital na bolsa.
- “Nessas horas, é bom ver que Dylan segue alheio ao clima que o cerca (vai ver, é justamente por isso), sobe lá, não dá um “oi” nem olha pra platéia, e manda ver suas músicas. Foi o terceiro show dele a que assisti e cheguei à conclusão que, quanto mais se assiste, mais fácil de gostar fica. Porque uma vez que você tira da frente as questões mais óbvias (a voz rouca e cada vez mais rouca, os formatos modificados das melodias clássicas - impossíveis de acompanhar, mesmo que você saiba a letra -,o fato dele sempre deixar de fora alguma das suas favoritas), uma vez que já sabe e já viu isso tudo outras vezes, passa a prestar atenção em outras coisas - na grande banda que o acompanha, na vitalidade que as músicas mantém mesmo com andamentos modificados (vide “Highway 61 Revisited”), na diversão que é estar ali (em pé, preferencialmente).” Como eu não tinha 900 reais fáceis, não pude conferir o show do Dylan. De consolo só a boa resenha/crônica do Marco Aurélio Canônico sobre o evento. Aliás, como o Marco Aurélio Canônico é bom, leve, sem afetação, nem parece os estacas-no-cu da grande mídia, ainda mais do jornalismo cultural.
- Está afim de ler sobre rock? Quarenta e cinco dicas sobre o assunto, que tal?
1 comentárioPitacos
Conclusões de um leigo interessado em politica depois de ler meio mundo de jornais, sites, blogs, articulistas de lá, de cá, enfim, entornar um caldo de opiniões, análises e pitacos sobre o conflito entre o Equador, a Colômbia e a Venezuela. Que aliás, chegaram a um acordo ontem.
- Álvaro Uribe tem um passado suspeito, principalmente de ter ligações com o narcotráfico e muitas coisas que até hoje não ganharam explicações convincentes. Independente disso, tem feito um governo pragmático e eficaz - obviamente com o apoio militar e financeiro dos EUA - no combate ao narcotráfico, o mesmo que ele é acusado de ter tido ligações. Resumindo: o que é melhor para a Colômbia? O fim do narcotráfico. Se isso está sendo conseguido, que argumento contrário vai pesar mais contra um presidente eleito democraticamente?
- Contra fatos não há argumentos: a aliança da Colômbia com os EUA conseguiu um resultado impensável se lembrarmos do país quinze ou vinte anos atrás. 78.000 hectares de terra a menos disponíveis para o plantio de coca. Isso significa metade da área utilizada pelo tráfico. Eficaz e pragmático.
- A crise com o Equador, e por tabela com a Venezuela, encobre um problema interno que a Colômbia precisa resolver e trazer à tona: os grupos paramilitares de direita. O problema não se dá apenas com narcoguerrilheiros terroristas de esquerda. O governo tem um problema grave para resolver e diria que tão grave quanto as Farc, pois divide o pais ao meio, num clima de embate político e ideológico que só prejudica o desenvolvimento social, político e econômico.
- Invadir território equatoriano é um desrespeito grave, às leis internacionais, à soberania do país vizinho. Um pedido de desculpas público não basta. O ideal vai além do comprometimento de que fatos dessa natureza não voltarão a ocorrer. Mais do que ideal são pactos de cooperação entre os países onde haja área de domínio das Farc. Contra elas, obviamente.
- Na mesma medida que a Colômbia deve desculpas e comprometimento com a não invasão de território alheio, o Equador deve sim explicações sobre o envolvimento do seu governo com as Farc. Em resumo: se as denúncias forem verdadeiras, o Equador foi pego com as calças nas mãos, negociando com um grupo que que implodir o país vizinho. Isso é tão grave quando ser invadido por esse país vizinho.
- Rafael Correa não é Hugo Chávez. Apesar de apoiado pelo fanfarrão venezuelano, el puto del todo genero, o presidente eleva o tom de suas críticas mas sem a bufonice teatral de Chávez. Além do mais, procurou o melhor caminho, a via diplomática, não declarou guerra, fez o que devia ser feito, chamou seu embaixador de volta e pôs-se num périplo por países vizinhos em busca de apoio. Apoio diplomático, diga-se.
- Chávez é das coisas que mais dão nojo no mundo. Fanfarrão, bufão, dissimulado. Encheu a fronteira com a Colômbia de soldados, tanques, armas. Mas eu pergunto: cortou relações comerciais? Não. É bom não esquecer que 40% dos itens básicos consumidos por venezuelanos vêem da Colômbia. Ovos, carnes e cositas mas, tudo Hecho en Colombia. Por que? Pelas condições precárias em que se encontra o mercado interno e o consumo na Venezuela. Com os petrodólares investidos em armas e financiamento de guerrilhas e governos de esquerda e esquerda delirante, o país deixa de produzir o básico para o seu povo, por falta de incentivo estatal.
- Por que Chavéz non se calla? Porque precisa de apoio interno. Desde o plesbiscito em que foi fragorosamente derrotato e surpreendido, o fanfarrão precisa de alguma forma justificar sua política tendo um inimigo sempre à mão. Eis a bola da vez: Colômbia. Se o consumo fosse mais prejudicado ainda com o acirramento da crise e por tabela a dificuldade em se importar produtos colombianos (afinal, não se come gasolina), quem será o culpado? Álvaro Uribe. Bingo! Maquia-se o problema apontando para o lado errado. A crise nasce no palácio de Mira Flores, mas auto-crítica não é um costume muito aceito por ditadores.
- O Brasil é o único país que pode gerenciar crises no continente sem sem arroubos de arbitrariedade disfarçado de ideologia. Quem está certo? Ninguém. Nem a Colômbia, por ter pescado em aquário alheio, nem o Equador, por ter dado apoio as Farc (mesmo com a desculpa de que a ligação com a guerrilha fazia parte de um plano para soltar reféns, eis uma desculpa fácil), nem a Venezuela, que entrou de gaiata no navio, feito cachorro que late mas não morde. Aliás, só morde se a Colômbia continuar exportando carne. Que o país por ser o maior e mais importante da América Latina, saiba racionalmente conduzir sempre as negociações. Afinal, na boa? Não é interesse de nenhum dos três envolvidos um conflito armado. Chávez e Correa sabem, que por exemplo, se juntarem seus exércitos ainda perdem e feio num combate com as forças armadas colombianas.
- Quanto aos teóricos de esquerda, continuo com a fala de antes: precisam assumir uma postura de auto-crítica, deixar de argumentar com condicionantes. E aí, as Farc sequestram? Sim. Que ideologia reside em sequestrar e manter em condções subumanas os sequestrados? Nenhuma. Isso pode ser defendido? Não. Envolvimento com o tráfico é correto? Não. Então, por que defender algo pelo simples fato de ser contra um alvo do qual discordamos? Por isso são o que são, sectários, anacrônicos, fadados aos museus.
Deixe seus comentáriosPor ti, America II
Obviamente o acordo militar entre a Colômbia e os EUA fomentam variadas discussões, que vão desde as racionais, sobre questões de soberania, até as delirantes, com um alforje sem fim de teorias conspiratórias. Mas o que dizer dos fatos? Existirão argumentos? Pois o fato é que o resultado parcial da aliança entre EUA e Colômbia é de redução em 78.000 hectares de terra destinadas ao cultivo da coca. Em números percentuais isso significa metade da área disponível para a plantação do que em seguida se transoforma em droga. Ou seja: a aliança mostrou-se eficaz. Tão eficaz que basta cascaviar arquivos de cadernos internacionais de 15 ano atrás e perceber o buraco em que havia se metido a Colômbia, dominada pelos cartéis internacionais de tráfico de drogas, seqüestros, assassinatos. Comparando com a situação atual, há algo que se possa concluir além de, com Uribe e apesar de Uribe, com os EUA e apesar dos EUA, a Colômbia ruma para um novo país e tem o direito de pelo melhor para a coletividade, extirpar o mal que ainda resta, que seja, a narco-guerrilha das Farc? Preferencialmente dentro de território colombiano.
Deixe seus comentáriosPor ti, America (Up dated)
A morte do número dois das Farc, a força guerrilheira de esquerda (ainda?) que atua na Colômbia, Raúl Reyes, pelo exército colombiano numa incursão em território equatoriano parece ter sido o estopim para um estado de tensão que pode, Deus queira que não, desaguar em conflito armado. O que seria um caminho tolo, caso seja o escolhido pelos países envolvidos diretamente, no caso Colômbia e Equador, como também pelo papagaio de pirata Hugo Chávez, da Venezuela. O Equador, que rompeu relações com a Colômbia, retirando do país o seu embaixador, agora está às voltas com a acusação de que membros do seu governo mantinham ligações com o líder da Farc morto, o que dá margem à ilações que sobrepõe o fato do exército do país vizinho ter invadido - pedido desculpas públicas por isso em seguida - o território equatoriano. Em resumo, o Equador pode ter relações (por motivos ate justificáveis de conviência pacífica, vá lá) com uma organização que tenta a todo custo implodir a Colômbia.
Uma coisa parece ser mais grave que a outra, tendo em vista a situação em que vive a Colômbia de permanente conflito com o grupo armado, que hoje detém cerca de 17 mil soldados e mantém centenas de pessoas em cativeiro, em condições subumanas e longe, bem longe de uma mínima cartilha humanitária que qualquer regime pretendito, até mesmo o de esquerda, deve praticar em relação a opositores (na verdade nem todos os são).
Não é a primeira vez que dá-se um conflito entre os dois países. Agora, sob o mando de Rafael Correa, um dos eleitos na onda que levou ao poder presidentes de esquerda, centro-esquerda e esquerda delirante na América Latina, como Lula, Evo Moralez e Tabaré Vazques, o Equador vê-se fustigado ao conflito direto com o país ao lado por Hugo Chávez, abertamente contrário a desrespeitoso ao presidente colombiano Álvaro Uribe, e praguejador da aliança com os EUA que permitiu a Colômbia manter sob relativo controle as ações terroristas das Farc.
É hora do Brasil, como mais importante país e líder da América do Sul agir sobriamente, sem arroubos de esquerdismo idiota e pirotécnico (que vai de Chávez a Marco Aurélio Garcia) e tentar de todas as formas diplomáticas possíveis colocar panos quentes na questão, sob o risco de termos por tabela um conflito que não interessa a ninguém, a não ser a sandice política de Chávez: América Latina x EUA.
Não interessa do ponto de vista social, já que se trata de países com profundas desigualdades e repletos de pobreza por todos os lados (e em qualquer que seja o conflito os pobres sempre se dão pior), não interessa do ponto de vista econômico, basta imaginar a crise em relação ao petróleo que um conflito armado envolvendo a Venezuela causaria, muito menos do ponto de vista político, ainda mais num ano de eleições nos EUA onde os candidatos por mais que se esforcem não conseguiram traduzir quais são de fato os seus projetos para a relação com a América Latina. Além do mais, querendo ou não, até que alguém sensato assuma o poder na Casa Branca, o senhor da guerra é quem dá as cartas e sabe-se lá se não se arriscaria em mais uma frente de batalha.
Up Date
Os documentos que o governo colombiano apresentou, que a priori confirmam a ligação entre o governo do Equador e as Farc, podem ser lidos aqui e aqui. Foram disponibilizados pelo jornal El Tiempo.
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