Blow
“Lembro-me de estar deitado no banco de trás da Brasília, com as pernas esticadas por cima do encosto e a cabeça pendendo entre os bancos da frente, próxima à base do freio de mão. Hoje em dia, se a polícia pára um carro e flagra uma criança nessa posição, o motorista deve perder a carta, talvez até guarda dos filhos, mas estávamos em 1984 e o mundo era outro, não se usava cinto de segurança nem protetor solar, as pessoas não andavam por aí com garrafinhas d’água, como se fosse o elixir da vida eterna, fazíamos cinzeiros de argila para os pais nas aulas de artes e o colesterol era apenas uma vaga ameaça de gente paranóica, como a CIA ou a KGB, dependendo da sua visão de mundo; de modo que eu seguia feliz, estrada acima, vendo as árvores passarem de cabeça para baixo, lá fora. Foi a Maria, minha irmã mais nova, sentada próxima a janela da esquerda, quem deu o alarme: ‘Ó lá ela chupando o pinto dele!!!’.”
(mais) Uma crônica impagável, do Antonio.
Deixe seus comentáriosTubo de Ventilação
Crônica deliciosa do Antonio. Como sempre, aliás. Segue:
Num mundo ideal, as janelas dariam sempre para árvores frondosas, crepúsculos de calendário ou vizinhas distraídas. Aqui neste vale de lágrimas, no entanto, tenho que aceitar como vista do meu banheiro um vão de concreto onde a luz do sol jamais penetrou. Segundo o Jurandir, zelador zeloso e profundo conhecedor das questões condominiais, o nome técnico da anti-paisagem é “tubo de ventilação”.
Se a tal garganta que perpassa treze andares não brinda os moradores do Edifício Maria Eulália com visões do paraíso, ao menos distribui, para deleite do cronista, a trilha sonora de algumas vidas empilhadas acima e abaixo do meu banheiro.
Tem o garoto que ouve música sertaneja e canta junto. Tem a moça que passa a vida ao telefone, repetindo sempre a mesma conversa: “E ele? Não! E você? Sei. E ele? Não! E você? Sei.” Tem um senhor que tosse toda manhã, com uma força capaz de enviar seus perdigotos à Dinamarca, caso para lá sua janela estivesse virada — e não, como já foi dito, para o “tubo de ventilação”. Tem os namorados adolescentes que tomam banho juntos, descobrindo as artimanhas e agruras do asseio a dois: “deixa eu, tá frio!”. “Calma, tem xampu no meu olho!”. “Lindoco, posso lavar?!”. “O que?”. “Ele…”. “Ele não, Gatucha! Tenho vergonha…”. “Ah, deixa, vai?!”. Tem alguém que passa as madrugadas no messenger. Triste… A noite toda aquele brrrrlump, brrrrlump — um sapo eletrônico, a coaxar pelo prédio nossas solidões compartilhadas.
Semana passada, chegou pelo tubo uma coisa diferente. Não era som, era um cheiro. Cheiro de…. De que, meu deus?! Senti meu cérebro formigando, como se as memórias lá do fundo borbulhassem, confusas, querendo saber qual deveria emergir. Seria o desodorante da enfermeira que primeiro me pegou no colo? O xampu da minha mãe, na infância? O perfume de uma namoradinha da quinta série, que estava submerso há anos em algum rincão, ao lado do gosto do Halls de cereja e da música tema de Top Gun?
Fiquei ali parado, no box do chuveiro, de olhos fechados, com a sensação de estar muito próximo de uma coisa enorme e íntima, mas que ia se esvaindo, enquanto o cheiro sumia e se acalmava o alvoroço nas galés da memória. Então alguém deu a descarga, outro ligou o rádio e fui pegar uma coca na cozinha.
Deixe seus comentáriosLinks
- O Tas está dando um rolé pela China. Por falar nisso, é imperdível o relato do Antonio Prata, de quando lá esteve ano passado. Já falei para o Antonio que ele tem um livro de crônicas irretocável só com os relatos. E dos melhores livros de crônica que li. É só procurar nos arquivos do blog.
- A dica é do Matias. Só faltava isso. Roscofe, lata de doce, fundo, furico, isso mesmo, só que de chocolate.
- Foi uma das coisas mais criativas que fizeram com capas de discos. Genial.
- Vamos que vamos que a onda é folk! Tem Mallu, Stephanie (bem ruim =/), e tem Lisa Li-Lund, que segundo consta toca no Brasil em Abril.
- Tem coletânea gringa de eletrorock saindo do forno. E com música do Lucy and The Popsonics.
- Música demais nesses links hoje, né? Pois tem mais. Constantina, banda mineira. Eu achei uma mistura de Toe com Explosions in The Sky e pitadas de Clube da Esquina. Sacou?
- Os Cavalera marcaram para 25 de março o lançamento do Cavalera Conspirancy. Na boa? Não acho digno. Sou mais o Max no Soufly.
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