Sobre o ofício

Posted by levino on junho 15th, 2008 filed in Estante

À pergunta do que eu andava fazendo da vida o estranhamento. Cinco ou seis amigos de infância de quem fui afetivamente próximo e hoje me percebo terrivelmente distante, seja por incompatibilidade de assuntos, interesses ou simplesmente o que chamam “vida passar”, atônitos tentando compreender a resposta. “Trabalho com palavras… é isso”.

Entre cifras e relatos de vidas mercadologicamente bem sucedidas talvez não haja brecha para o impalpável. Um estranho no ninho das linhas retas em constante ascensão. Uns com suas famílias precoces e já acometidas pelo tédio inevitável, outros com uma dificuldade latente de livrar-se da irresponsabilidade da juventude, mas todos, sem exceção, atônitos.

Pois vivo assim, à margem do que talvez tenham planejado ou imaginado onde estaríamos todos hoje, anos depois da infância bucólica e da adolescência marcada por aventuras num já distante sertão. Não visto branco dos pés a cabeça; não suporto sangue. Não projeto edifícios nem meço os graus de imensas porções de terra. Não entendo leis, não defendo interesses; conheci a alforria quando joguei todos os códigos no fogo. Eu apenas trabalho com palavras.

Escrevo cá, preferencialmente em madrugadas silenciosas, o que me pedem. Minha moeda é a palavra, meu investimento os livros, minhas frases são como pacientes que assisto cuidadosamente, lapidando, recriando, apagando e reescrevendo até que soem doces, fortes, como queira. Sustento-me entre as palavras, conto histórias, umas saem no jornal, outras se lançam desesperadamente para a lixeira assim que concluídas. Mas sempre através delas, as palavras.

Nenhuma inveja deles, também do lado de cá confesso um estranhamento às vezes angustiante, noutras resignado. Interessa-me o descartável, o comum, o que as pessoas têm a dizer sobre a mais tediosa e por isso mesmo encantadora vida. E só. Escrevo crônicas sobre coisas que vi, crio contos sobre o que talvez um dia vá viver, formato reportagens, discursos, propostas, roteiros. Compro feijão com parágrafos.

Pode ser que um dia – sabe-se lá o quanto a vida é traiçoeira – eu tenha que ter os mesmos interesses de todos eles, que possa falar dos investimentos, do paciente que foi salvo por um lampejo de humanidade, de clientes, viagens, negócios. Talvez um dia. Por enquanto vivo e morro no teclado, digitando letras, pago as contas com o que produzo, não sigo regras a não ser as ortográficas, semânticas e quetais. Vivo assim, para o não discernimento de todos eles, me sustentando com palavras.

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3 Responses to “Sobre o ofício”

  1. Bianca Says:

    Esse foi o tiro certo, Rodrigo Levino. Vc existe mesmo, baby? Caso exista, saiba que aqui também mora uma estranha criatura…aqui bem pertinho de vc!

  2. Geórgia Says:

    votz

  3. Geórgia Says:

    e eu nem sou uma criatura muito estranha, mas moro mais perto ainda

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