Sobrados
A cidade se descortina aos poucos, como moça de amor fugidio, dissimulada. Mas sem ressaca, o mar está a algumas horas daqui. O dédalo posto ao alcance do nosso temor e em mesma medida também de persuasão. As ruas, travessas, tortas, transversais, sem saída ou com muitas delas, ao nosso inteiro dispor.
Cenas que poderiam ser pinçadas de um retrato bucólico, desses que amarelam em paredes de fazendas, de sobrados com grandes janelas e senhoras bonachonas à sua frente - a expressão que uma foto diante de um sobrado antiqüíssimo pede - de repente à nossa frente. Sobrevivente do caos de concreto e asfalto, uma vila de sobradinhos, um resquício arquitetônico miniaturizado daquele senhorio de nunca mais.
Na entrada um gato gordo se refestela no sol revirando para não perder uma fatia sequer dos raios que se desramam entre avencas, samambaias, costelas-de-adão, bocas-de-leão, lianas que dão aos pequenos sobrados de cores gastas uma aparência ainda maior de improbabilidade. Há quem tenha por impossível tamanha calma encravada onde a cidade é mais infernal.
Um portão vazado e apenas encostado, sem tranca alguma, é o que separa a cidade da senhora que, repousada na janela de um dos sobrados, entrete-se com a parcimônia de quem espera apenas a morte, com um cachimbo, tão velho que se falasse contaria a história do que houve ao redor até que restasse de humanidade e paz apenas as sete casinhas miúdas e suas velhotas gordas e bonachonas, com seus gatos, cães e filhos ausentes.
Ouve-se aqui e ali o bater de panelas, o zigue-zague da velha máquina de costura movida a tração humana, o tilintar de agulhas de crochê, o roçar das argolas de madeiras que prendem o tecido para ser bordado por cuidadosas e trêmulas mãos. Três ou quatro senhoras na calçada, dividindo uma colcha de retalhos que parece contar as suas histórias, desconhecem solenemente a desarrumação instalada a poucas passadas dali.
O cheiro de café se mistura ao de biscoitos amanteigados recém-tirados do forno, anunciados em seguida pela voz rouca de uma delas, que vem até à porta oferecer o mimo, prenda e costume de quando a cidade era repleta de vilas como essas, com sobrados antigos e de cores gastas, regidas por senhoras bonachonas, cobertas por plantas trepadeiras e decoradas com gatos gordos rolando em busca de sol.
Depois de tanto observar sou percebido com olhares de susto, ao que me apresento, espio de entreolho os biscoitos na forma de alumínio esfriando na janela e os detalhes da colcha de retalhos. A desanimadora negativa se havia alguma das casinholas livre para alugar se desfaz diante do prazer amiúde de por poucos segundos ter sido parte da colcha, do cachimbo, do crochê, das plantas, do gato, e de tantas histórias que só restam ser imaginadas.
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