Rotina
Posted by levino on dezembro 26th, 2007 filed in C.A.O.S.A ressaca do porre de peru com farofa, cerejas, passas, “meu amigo secreto é…” e toda sorte de luzinhas e Simone cantando músicas do inferno foi curada na fila do FGTS. Um horror de gente horrorizada com tamanha burocracia e lentidão, apenas dois caixas para atender meio mundo. Eis o mundo real. Desencastelei direto para o hades. Preciso do seguro-desemprego.Duas horas e dezessete minutos de pé, pensando no mundo, olhando para a rua, contando carros, ouvindo uns discos, repetindo uns versos e quando chega a minha vez… Sorry, faltou um documento, sem essa assinatura não é possível dar entrada no processo.They tried to make me go to rehab,but I said ‘no, no, no’. Se reclamar é pior.
Da Ribeira para a Cidade Alta em três ruas e um sol que parece seiscentos diabos com seus candeeiros apontados para a minha cara, a essa altura vermelhinha como um tender especial de Natal. Preciso imprimir parte do livro e ainda levar à UFRN para providenciar a ficha catalográfica de Dias Estranhos.
Tem impressão?
Sim
Quanto custa?
Cinquenta centavos a página.
São
quinze, por favor.
…
…
É um trabalho?
De certa forma,
sim.
Eletricista, né?
Como?
Você é eletricista?
Não, como assim? Por
quê?
Esse poste aqui, ficou bonitinho. Achei que fosse coisa de
eletricista.
Ah, não, não, é… Um livro. Literatura. O poste é só
decorativo.
Um poste decorado? Como de natal?
Não, o poste é apenas
decorativo, para decorar a capa do livro e algumas páginas de dentro.
Ah…
Bonitinho. Livro de quê?
Da vida. Crônicas sobre a vida, calor, ônibus,
atraso, coisas assim.
Hum… Gostei mais do poste que do assunto
(risos).
Ah, eu também.
Sete reais e cinquenta centavos.
Ok. Sete e
trinta paga?
Sim, sim.
Até mais! Feliz ano novo!
Pra você também!
O circular atravessa a marginal e entra no Campus numa lentidão de remoer o estômago, ainda faminto. O rapaz tenta me convencer que fichas catalográficas produzidas pela biblioteca da UFRN só são permitidas para livros editados pela editora da instituição. Por sorte tinha em mãos o último exemplar do meu primeiro livro, com a ficha produzida pela mesma. Depois alguém explica que eu tinha razão e que o rapaz teimoso apesar de simpático, era bolsista-novato-ainda-não-pegou-todo-o-serviço. Livre. Um picolé cai bem.
No centro de convivência encontro um velho amigo na banca de jornais com o oásis colorido da Kibon Sorvane decorando a entrada. Um picolé de Guaraná Antarctica. Será que presta?
Rapaz, quem chupou gostou. Dizem que tem até o gazinho (risos).
Ah, tá. Bom,
então me dá um e uma água sem gás.
Conversa vai, conversa vem e de Heidegger e Hegel passamos - e agora já não me lembro como - para mulheres, contas, casamento, a vida sem tirar nem pôr.
Solteiro, ainda?
Nada, noivei.
Sério?
É. Me aquietei mesmo,
sabe?
Que bom.
Não sei se é bom. Mas está rolando. Cheguei a diversas
conclusões esse tempo todo.
Por exemplo…
Ah, sei lá, que tipo… Na real
pra gente ficar bem e tal com alguém, esse alguém tem que ser alguém quieto
também, na paz. Óbvio que uma putanesca é massa, uma wild girl, mas essas deixam
a gente no meio do caminho, sempre, sem exceção. Para casar, só com moça de
família. Putanescas… Deixei mesmo, de vez.
É uma tese…
É a verdade,
estou te falando. Isso ninguém me tira mais da cabeça, saca?
Saco. Então é
isso. To indo, bom te ver, bom casamento, feliz ano novo!
Valeu. E o picolé,
é bom?
É… parece guaraná sem gás.
De lá novamente para o circular, depois para a passarela com um vento quente, parecendo mais o bafo do cão soprando na nuca vermelha como um tender especial de natal e mais um ônibus, mais sinais, mais gente, outros discos, a parada. Casa. Puta merda. Ainda preciso do seguro-desemprego. E se reclamar é pior.

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