Playboy

Matéria publicada na revista Playboy, Ed. Junho de 2008.

Roraima 2008 - Rastros de Ódio

Por Rodrigo Levino / Fotos Renan Rêgo

Do alto da ponte de concreto o homem aponta ameaçadoramente sua lança. A camiseta sobre a cabeça, que ele usa como capuz, e o escudo feito de plástico injetado fazem com que se pareça com um guerreiro medieval. Ao seu redor estão outros 30 homens, entrincheirados entre sacas de arroz, armadas com paus, espingardas, arcos e flechas. Estão ali para impedir que a Polícia Federal invada Vila Surumu, a porta de entrada da reserva indígena Raposa Serra do Sol. Mas seu alvo naquele momento não são agentes federais e sim o repórter e o fotógrafo da Playboy. Eles não querem ser fotografados e um deles ordena que os dois ergam os braços. A coisa não vai acabar bem.

A Mitsubishi L200 verde pára e dela desce um sujeito alto, de ar circunspecto, olhos azuis frios. Vestindo uma bem cortada camisa branca de listras azuis, ele em nada lembra os molambentos guardiões da ponte. Seu nome é Paulo César Quartiero, o responsável pelo clima de insurreição instaurado desde que a Polícia Federal deu início à operação Upatakon 3 (minha terra, em dialeto macuxi), para a retirada dos não-índios da reserva Raposa Serra do Sol. Quartiero pede que seus comandados baixem as armas e manda repórter e fotógrafo atravessarem a ponte. Está surpreso por ter sido encontrado. Surumu é muito longe da capital Boa Vista, onde a imprensa montou sua operação e a PF plantou seu quartel-general. Na Vila Surumu há apenas um telefone público e os celulares ficam fora da área de cobertura. Para chegar ali, é preciso vencer 180 quilômetros de estrada no meio do nada (um misto de cerrado e floresta onde você roda horas e horas sem encontrar vivalma), atravessar duas pontes queimadas e dois igarapés.

A surpresa de Quartiero também tem a ver com o fato de que ninguém a não ser sua mulher sabe do seu paradeiro. O arrozeiro se embrenhara em Surumu havia 11 dias, desde que a Polícia Federal expedira uma ordem de prisão contra ele. O mandato o impedia de visitar a esposa e os três filhos. O do meio, Renato, 22 anos, deixara o hospital havia dois dias. Fora vítima da explosão de uma bomba caseira num dos protestos contra a primeira tentativa da PF de entrar na Vila Surumu. Sem esboçar emoção, Quartiero trata o episódio como mero efeito colateral da sua guerra particular. Posso pedir qualquer coisa ao meu filho, menos que seja covarde.

A batalha em Surumu começou dia 27 de março, quando a vila chegou ao noticiário nacional como o principal foco de resistência à retirada de não-índios da reserva Raposa Serra do Sol, uma área de 17 750 km2 onde vivem 4 mil fazendeiros e 19 mil índios das etnias macuxi, wapixana, taurepang e ingaricó. É um território equivalente ao do Kuait, país onde vivem 2,8 milhões de pessoas. A Raposa Serra do Sol foi demarcada durante o governo Fernando Henrique Cardoso, mas o conflito começou a se acirrar em 2005, quando o presidente Lula assinou o decreto de homologação de terras contínuas. A decisão gerou conflito entre os que querem a demarcação em ilhas, preservando as propriedades da região, e os que acham que ela deveria ter demarcação contínua, com a expulsão dos não-índios da área homologada.

Dentre os não-índios que por ali se instalaram estão seis grandes rizicultores. O mais determinado deles é Paulo César Quartiero. À frente de um grupo de 40 homens, ele organizou a resistência. A insurreição usa de táticas de guerrilha, com pontes queimadas, estradas minadas, bombas caseiras como a que atingiu Renato e até um inusitado (para os padrões brasileiros de reação) carro-bomba estacionado em frente ao posto da PF em Pacaraima, numa tentativa frustrada de atentado. Quartiero nega que tenha alguma coisa a ver com tudo isso, mas não foram poucas as vezes em que declarou que só sairia de lá morto.

Gaúcho da cidade de Torres, Quartiero, 55 anos, se formou em agronomia na Universidade de Passo Fundo, aos 24 anos. No mesmo ano decidiu deixar a cidade à procura de um pedaço de terra. Embora seja incapaz de dizer com certeza a idade dos filhos, lembra com precisão o dia em que chegou a Roraima: 29 de setembro de 1976. Veio a reboque do projeto Integrar para Não Entregar, patrocinado pelo governo militar, para promover a ocupação da Amazônia. Quartiero acredita firmemente na teoria conspiratória que prevê a ocupação estrangeira da Amazônia, paranóia bastante difundida na região. Esse, aliás, é um dos poucos assuntos que o fazem abandonar a habitual frieza. Estão querendo internacionalizar isto aqui. Quando a Amazônia era um buraco, sem energia, asfalto e transporte, ninguém queria vir para cá. Fui um dos poucos que se arriscaram. Agora todo mundo quer um pedaço. A troco de quê?, diz, exaltado, para em seguida acusar ONGs e a igreja Católica de serem coniventes com o que ele chama de venda da Amazônia para estrangeiros que circulam livres e escondidos em reservas indígenas praticando biopirataria e ocupando ilegalmente a floresta, restringindo inclusive o acesso de brasileiros.

AMAZÔNIA INTERNACIONALIZADA
A teoria conspiratória em torno da floresta tem como alicerce teórico os estudos do general Menna Barreto, que datam das décadas de 40 e 50. A tese veio mais uma vez à tona em meados de março, quando foi realizado no Rio de Janeiro o seminário Amazônia: Cobiçada e Ameaçada, promovido pela Escola Superior de Guerra do Brasil em parceria com o Centro Brasileiro de Estudos Estratégicos. Na ocasião, Paulo César Quartiero foi saudado pelo coronel da reserva Gélio Fregapani, que serviu durante 40 anos na região amazônica, como a esperança para que não entreguemos de vez a nossa Amazônia.

A questão da ocupação amazônica é um tema complexo. Envolve índios, não-índios, colonos, ONGs, católicos, evangélicos, militares, ambientalistas, fazendeiros e mineradoras, num mosaico que dá a Roraima a estatura de microcosmo de todas as teorias de defesa, proteção, invasão e soberania da maior floresta tropical do mundo. A celeuma é tamanha que pela primeira vez na história deste país esquerda e direita formaram uma ferradura ideológica, aproximando suas teses guiadas pelo fio condutor da soberania nacional.

Argumentos defendidos pelo deputado federal de esquerda Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que em recente artigo assinado no jornal O Estado de S. Paulo condenou a demarcação da Raposa Serra do Sol, não são diferentes dos apregoados por militares de direita.

Obviamente a resistência de Quartiero à retirada não tem apenas um vírus nacionalista. Ele também defende o que conquistou nos 32 anos em que está em Roraima. A saber: 4,5 mil hectares de terra nos quais cultiva arroz e soja e mantém um rebanho de 5 mil cabeças de gado; uma usina de beneficiamento de arroz em Boa Vista e o cargo de prefeito do município de Pacaraima, onde foi eleito pelo DEM em 2006 e afastado sob suspeita de compra de votos. Coincidentemente, enquanto conversava com a reportagem da PLAYBOY, ele recebeu a notícia de que o TSE havia lhe devolvido o mandato por falta de provas.

Pacaraima fica estrategicamente localizada na fronteira com a Venezuela. A julgar pelas palavras do arrozeiro, suas relações com o país vizinho são as melhores possíveis. Na crise com a Colômbia, o governo da Venezuela fez uma oferta para que eu exportasse 45 toneladas de arroz por mês. Recusei. Preciso servir a terra onde finquei meus pés e constituí família. Sinto-me um macuxi, diz num tom de candidato em campanha e sem dispensar o típico tchê gaúcho ao final da frase. Seu mandato no município de 4,5 mil eleitores é tido como um trampolim para as eleições ao governo do estado em 2010. Mas há quem não veja com bons olhos seu futuro político. Um desses críticos é o senador peemedebista Romero Jucá. Ele não é uma liderança proeminente pelo menos não ainda e tem se revelado bastante intransigente, o que acaba por encobrir o seu mérito, que é de ser um homem trabalhador e que ajudou Roraima a se desenvolver, avalia.

ATÉ O ÚLTIMO ÍNDIO
Além de um pequeno império no coração da Amazônia, Quartiero também conquistou uma legião de seguidores e igual (ou talvez maior) número de inimigos. O clube de desafetos é formado pela Polícia Federal (a quem Quartiero se refere como uma guarda pretoriana a serviço do rei e contra o povo), padres, ONGs que atuam no local e pelos índios do Conselho Indígena de Roraima, o CIR.

Criado em 1977, sob as bênçãos da diocese de Boa Vista, o CIR é fruto das reuniões nas quais se discutiram diretrizes de preservação da terra indígena contra a invasão de garimpeiros e fazendeiros. Dirigido por Dionito José de Souza, o conselho é a organização indígena melhor estruturada e articulada na região. Além de uma sede em Boa Vista, que serve como escola de cursos profissionalizantes promovidos em parceria com a diocese e albergue para os índios filiados, a organização possui três picapes 4 x 4, iguais às de Quartiero, adquiridas com recursos de 12 ONGs norte-americanas e européias, que volta e meia enviam seus representantes para a região.

Um dia depois de receber a notícia do cancelamento da operação Upatakon 3 pelo STF, o semblante de Dionito era de desolação. A decisão do Supremo de cancelar a operação partiu de um pedido protocolado pelo governo do estado de Roraima, sob o argumento de que, se levada adiante, poderia causar um conflito civil.

Dionito toma como um revés para a causa, mas não se dá por vencido. Lutaremos até o último índio e, se preciso for, iremos para o combate contra gente do nosso próprio sangue, diz exaltado. Para o provável combate, ele diz contar com o apoio de índios do Mato Grosso e do Pará. Algumas semanas depois, a promessa seria cumprida com a invasão das terras de Quartiero. Nove índios foram feridos a bala pelos homens do rizicultor, que alegaram ter sido recebidos a flechadas. O saldo do faroeste caboclo foi a prisão, no dia 7 de maio, de Quartiero, seu filho Renato e mais dez pessoas, sob a acusação de formação de quadrilha, tentativa de homicídio e posse de explosivos. Quartiero seria solto nove dias depois. Outro inimigo sacramentado de Quartiero é o padre Vanthuy Neto. Nascido no Rio Grande do Norte, Vanthuy chegou a Boa Vista há duas décadas. Hoje, além de cuidar da paróquia local, dedica-se, por meio da diocese e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), ao que chama de direito urgente dos índios: Quartiero usa seu poder econômico, e agora político, como prefeito de Pacaraima, para incitar a massa e agir de maneira terrorista e contra a lei, na defesa pura e simples dos seus interesses econômicos, afirma Vanthuy. Faz até acusações mais graves. Obviamente não tenho como provar, mas todo mundo em Boa Vista sabe sobre quem recai a suspeita de ter incendiado a missão da diocese em Surumu, que destruiu a capela, uma escola e um posto de saúde em 2004.

CATÓLICOS XEVANGÉLICOS
Engana-se quem vê o conflito da Raposa Serra do Sol como apenas um embate entre brancos e índios. Ele também é um confronto entre índios católicos e índios evangélicos. Enquanto os católicos são representados pelo CIR, na oposição está a Sodiur (Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima), entidade criada em 1992 por Lauro Barbosa, um índio de etnia macuxi. Lauro diz congregar em torno da sua causa, a de remodelagem da demarcação de terras indígenas no Brasil, cerca de 10 mil índios de todas as etnias que habitam a região. É da ignorância do índio que depende a saúde financeira de ONGs e pastorais, por isso o interesse em nos isolar do mundo, diz com expressão cansada em meio a cerca de 30 índios que se alternam na casa de apoio que a Sodiur mantém em Boa Vista.

A organização, segundo Lauro, se mantém com recursos financeiros próprios, fruto da doação dos membros, mas não falta quem acuse a Sodiur de receber ajuda dos rizicultores, para quem muitos dos filiados trabalham. O contra-ataque de Lauro vem rápido como uma flecha. A nossa organização, que congrega mais índios que o próprio CIR, não tem voz por quê? Porque nunca aceitamos o apoio de ONGs nem dos padres. Eles, com o poder de articulação que possuem, passam a imagem de índios castigados e desrespeitados pelos brancos, quando na verdade eles é que são os brancos que se intrometem nos interesses dos índios, diz, sob o olhar afirmativo de três tuxauas (líderes indígenas) de regiões distantes da Vila Surumu.

Além disso, continua Lauro, há a questão religiosa: como boa parte dos filiados à Sodiur é evangélica e nunca houve nenhuma pregação separatista como a que é feita pelos padres, somos desconsiderados. Pelo lado do Cimi, padre Vanthuy rebate a insinuação: A demarcação da reserva não impedirá em nada o culto de outras religiões, então não há nenhum aspecto religioso no conflito, diz, ao mesmo tempo em que se nega a comparar a pregação dos padres a favor da demarcação com a dos pastores, que são contra.

A opinião de Lauro também é dividida com índios de outras etnias, como a baré Deise Maria Rodrigues. Nascida na região de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, e formada em educação, ela e o marido, o cientista social José Brasão, criaram há cinco anos a Aliança de Integração e Desenvolvimento das Comunidades Indígenas de Roraima (Alidcir). De acordo com Deise, dois terços dos 19 mil índios espalhados em 194 comunidades dentro da área da Raposa Serra do Sol são contra a demarcação de terras nos moldes como estão sendo realizadas pelo governo Lula. E vai além: Caso sejamos obrigados a viver de maneira forçada dentro da reserva, o que vai acontecer é um conflito entre tribos. Daí só Deus sabe onde pode parar. Liderados por Deise, alguns integrantes da Alidcir, em sua maioria mulheres, entraram em conflito com a Polícia Federal por ocasião da segunda prisão de Quartiero no dia 7 de maio. A cena de um grupo de senhoras enfrentando policiais armados de gás pimenta e escopetas poderia ser classificada como brancaleônica, mas reflete bem o clima de animosidade criado entre a população local e a PF. Eles chegaram aqui em Boa Vista com toda a arrogância do mundo, treinaram usando gás lacrimogêneo numa região cheia de civis e passam o dia cantando os pneus das suas caminhonetes. Deveriam ter mais respeito pelos moradores, diz o taxista Francisco de Souza.

O outro lado, o da Polícia Federal, não parece preocupado com a opinião alheia. Ao saber da presença da reportagem da Playboy um policial esbraveja: Puta que o pariu! Isso virou esculhambação. Até a Playboy tá por aqui!. Ele vira para o seu superior e pergunta, Quer que eu tome a câmera?. Afasta-se quando o delegado Fernando Segóvia informa que tal atitude não é necessária. Responsável pela operação Upatakon 3, Segóvia defende seus comandados: Viemos aqui para fazer cumprir a lei, desrespeitada por fazendeiros e poderosos. Quem não gosta de nossas ações tem interesses escusos. Segóvia estava bastante irritado com o fato de até aquele momento não ter conseguido prender Quartiero. Em meio a sua irritação, vaticina: Esta guerra ainda não terminou. A frase é praticamente a mesma usada por Dionito. A guerra não acabou. Essa também foi a penúltima frase proferida por Quartiero quando a reportagem da Playboy saía da Vila Surumu: A guerra ainda não acabou.

Quando a reportagem se despede para voltar a Boa Vista já é noite alta. É quando Quartiero diz sua última frase em tom de advertência: Nos próximos cem metros dirijam pelo lado esquerdo da estrada, porque o direito está minado.

Enviar artigo em PDF para PDF Creator