Adeus Columbus

Piauí

Colaborações para a Revista Piauí

O tesouro da casa 1968 (Edição Dez.06)

O assalto à agência do Banco Central em Fortaleza, em agosto do ano passado, entrou para os anais do crime como um dos maiores assaltos a banco do mundo e, seguramente, o maior da história brasileira. A 550 quilômetros dali, para três adolescentes e suas famílias, o episódio virou sinônimo de tormento.

Um ano depois do assalto, grande parte dos 164 milhões de reais roubados continuava desaparecida. Em Natal, na zona norte da cidade, Roberto, 13 anos, Carlos, 14, e Tadeu, 14 (os nomes são fictícios), disputavam mirim na Rua Praia Grande, em frente à casa de número 1698. A regra do jogo é simples: dois driblavam, e a cada três gols o goleiro ia para a linha. Num chute mal calculado, a bola foi parar dentro da casa. Ao buscá-la, deram com uma porta mal trancada. Como a casa estava abandonada, entraram. Na cozinha, jogada entre ferramentas, encontraram uma bolsa. Dentro dela, 82 mil reais.

Os meninos voltaram eufóricos para a casa de Roberto. “Estamos ricos, estamos ricos!” Pensavam no videogame PlayStation ii que comprariam, “desses que tocam até dvd”. Alarmada, a mãe de Roberto exigiu que os meninos devolvessem o dinheiro e não falassem mais no assunto. A polícia foi contatada. Sob o piso falso da cozinha, encontrou mais 336 mil reais.

Segundo a mãe de Roberto, o que se seguiu foi um pesadelo. Além de repórteres, vizinhos, colegas de escola e desconhecidos faziam campana dia e noite, à cata de informações. Muitos começaram a desconfiar que os meninos haviam ficado com parte do dinheiro. A rotina da família virou de cabeça para baixo. Os dois irmãos mais novos deixaram de ir à escola. O pai, motorista de buggy na praia de Genipabu, afastou-se do trabalho para ficar com a mulher e os filhos. Com medo da quadrilha de assaltantes, todos passaram a dormir no mesmo quarto, inclusive a cadela de estimação.

Carlos e Tadeu se refugiaram no interior do estado. Roberto foi para a casa da avó, em outro bairro, mas a notícia o seguia por toda parte. Acabou indo para o interior também, a convite de uns primos. Ali as perguntas eram poucas e ele se sentia mais à vontade. Passava as tardes andando a cavalo.

Hoje, só Roberto e sua mãe se dispõem a falar sobre o que aconteceu. O menino conta que, ao regressar a Natal, quase um mês depois, soube por colegas de escola que uma turma de garotos maiores o esperava para um “acerto de contas”. Diziam que estava escondendo parte do dinheiro — devia compartilhá- lo. A mãe conversou com o diretor da escola. Ouviu que só poderia haver garantia de proteção ali dentro. Fora da instituição, o menino continuaria a correr perigo. Cansado de se ver chamado pelas pessoas de “o menino do dinheiro”, Roberto avisou à família que queria recomeçar do zero. Mudou de escola.

Os primeiros dias de aula foram um alívio. O garoto pensou que tinha voltado a ser anônimo. Em pouco tempo, se deu conta do engano. Um dia, na hora do intervalo, percebeu um grupinho de meninos que apontava na sua direção e ria. Dito e feito: era de novo “o menino do dinheiro”.

Nos dois meses seguintes, Roberto teve sucessivos pesadelos. Não conseguia dormir sozinho nem sair de casa. Tinha medo de que os bandidos voltassem para pegar o dinheiro. Imaginava vingança. Sonhava que a polícia invadia a casa do assalto e o encontrava lá, ou que jornalistas insistiam em falar com ele a todo custo. Ele apenas “fugia, fugia, fugia”. Hoje os pesadelos rarearam. Ainda assim, às vezes desperta no meio da noite, ofegante, e procura o quarto dos pais. Não sabe exatamente por que se assusta, mas sabe que acorda “por causa do barulho”. Barulho do quê? “Ah, das sirenes, dos carros, do povo na rua…”, responde acanhado.

As perguntas a respeito do dinheiro ainda incomodam. A tática do garoto é desconversar. “Dinheiro? Que dinheiro?” As más línguas continuam a repetir a história: ele ficou com uma parte. A mãe é taxativa: “Dizem isso por maldade. Aquilo era dinheiro sujo, não foi Deus que mandou. Se Ele tiver que mandar, não vai ser dinheiro de roubo, vai ser do nosso trabalho!”. A mãe lembra que até hoje o poder público não fez um só gesto em relação aos meninos. Não ofereceram ajuda de psicólogo nem de assistente social. “Nem um ‘obrigado’ das autoridades. Já pensou se a gente não tivesse sido honesto? O dinheiro nunca teria aparecido.”

Os três meninos continuam inseparáveis. “Eles não se desgrudam. No sábado, saem de casa logo cedo, só voltam para comer e desabam no mundo de novo. Vão jogar bola, videogame, vão andar de bicicleta”, diz a mãe. Aflita, ela redobrou a atenção. Vai com freqüência à rua para se certificar de que está tudo certo. Ainda tem medo dos carros desconhecidos que, volta e meia, são vistos rondando a região. Mas a família não pensa em sair da casa onde mora há treze anos: “Não devemos nada a ninguém. Por que sair daqui?”.

Os meninos jogam mirim, agora bem longe do número 1698 da Rua Praia Grande. Ainda não ganharam um Play- Station ii. “É caro demais e não sobra dinheiro,” diz Roberto — e, em voz baixa, completa: “Era melhor que nada disso tivesse acontecido”.

O carteiro e o folclorista (Edição Mar.07)

José Helmut Cândido aprendeu sozinho o que é uma metáfora. Essa é uma das muitas diferenças entre ele e Mario Ruoppolo, personagem vivido por Massimo Troisi no filme O Carteiro e o Poeta, a história da relação do poeta Pablo Neruda com seu carteiro, a quem ensinou o que é uma metáfora. Filme, aliás, que Helmut não viu. Ele prefere os franceses da nouvelle vague: Godard, Truffaut, Rivette, Resnais. Assistiu a todos e, não sem nostalgia, reconta algumas cenas a quem lhe pergunta sobre cinema. A semelhança com Mario, carteiro do poeta chileno Pablo Neruda, é que Helmut também foi responsável por entregar a correspondência endereçada a um escritor.

Em Natal, no número 377 da antiga Rua Junqueira Aires, uma ladeira suave que vai da Ribeira para a Cidade Alta, residiu até morrer, há vinte anos, o folclorista Luís da Câmara Cascudo. Todo dia útil, de 1952 a 1960, por volta das 14 horas, Helmut deixava a agência dos Correios, na Ribeira, o bairro histórico da cidade, e levava até lá as cartas e pacotes — sempre de dez a vinte itens — que chegavam diariamente para Cascudo. Ele se orgulha de não ter quebrado nem por um dia a regularidade do ofício.

A relação entre os dois era de respeito e silêncio. Não havia gorjetas. Ao ouvir seu nome entrar pelos janelões da fachada, Câmara Cascudo saía devagar, de pijama, chinelo e charuto aceso. De vez em quando, com os olhos, indicava a porta de entrada, no alto da escada lateral do casarão. Helmut aproveitava o convite esporádico. Enquanto Cascudo assinava os comprovantes de entrega, tomava nota da casa — as estantes sempre muito organizadas, a escrivaninha, os suvenires, os objetos de artesanato, a cadeira de balanço. Até o último dia de trabalho de Helmut, tudo permaneceu no mesmo lugar. O agradecimento era gentil e curto.

Helmut às vezes descobria pelos jornais o conteúdo do que entregava. Um dia, leu que Câmara Cascudo estava se correspondendo com um estudioso italiano que queria explorar os aspectos folclóricos da Divina Comédia. Entendeu então a quantidade de cartas que chegava mensalmente com o timbre do correio italiano. Helmut perdia alguns minutos admirando os selos. Os remetentes não lhe interessavam. Sentia-se importante por entregar cartas do mundo inteiro. “Canadá, Portugal, Espanha, Estados Unidos, África, Austrália, até de onde Judas perdeu as botas”, conta. Sempre achou um despautério incomodar Câmara Cascudo com perguntas que não dissessem respeito aos estudos do folclorista. Por isso, e também porque Cascudo nunca foi de falar muito, não fez mais de três ou quatro durante os oito anos de convívio. Uma vez, quis saber o que significava “anhembi”. Câmara Cascudo desandou a falar sobre a palavra, localizou sua origem tupi-guarani, remeteu a história às entradas e bandeiras, a Borba Gato, a Fernão Dias, a muitos outros fatos e personagens e, quinze minutos depois, tudo bem dito e explicado, pôs o charuto na boca e sumiu porta adentro. Helmut aprendeu que “anhembi” é “o rio dos inhambus”, uma ave.

Dos pecados que esconde, Helmut confessa um pequeno delito que não chegou a lhe tirar o sono. Um dia, recebeu alguns livros que deveriam ser entregues à tarde, como sempre. Um deles, em alemão, idioma que havia aprendido por correspondência, tratava de folclore. Decidiu ler. Deliciou-se, e só o liberou dias depois. Como era encomenda registrada, Câmara Cascudo percebeu que estava atrasada, mas assinou o comprovante em silêncio, sem uma pergunta, e sumiu porta adentro. Nunca pediu explicações.

Quando não estava em serviço, Helmut ocupava o tempo com leitura e boemia. Leu os clássicos da literatura universal, adquiridos pelo reembolso postal. Embora não tenha passado do primário, sempre escreveu e leu compulsivamente: Shakespeare, Dostoiévski, Marx, Freud, Tolstói, Camões, Pessoa. Dos brasileiros, seus preferidos são até hoje Lima Barreto e Euclides da Cunha.

Sabe de cor passagens de Os Lusíadas, Os Sertões e ensaios freudianos. “E tem mais: só li uma vez. Decorei de primeira, entende? Vamos, anote aí: ‘…a travessia brasileira sertaneja é mais exaustiva que a de uma estepe nua. Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo largo, ao passo que a caatinga afoga, abrevia-lhe o olhar, agride-o, estonteiao, enlaça-o na trama espinescente e não atrai, repulsa-o com as folhas urticantes…’ Não é bonito?”, pergunta, depois de declamar praticamente ipsis litteris um trecho de Os Sertões.

Helmut, O Carteiro de Cascudinho—título do livro que lançou em setembro último pela Sebo Vermelho Edições —, diz que parou de ler por pura preguiça. “Passo o dia no sebo. Leio um parágrafo de um, duas frases de outro e assim vou, bolinando as letras até morrer.” Helmut escreve alguma coisa todos os dias, para manter o hábito. No momento, está às voltas com suas memórias (em sentido amplo). O esforço já recebe alguma paga: o editor do futuro livro, Abimael Silva, dono do Vermelho, é obrigado a desembolsar 2 reais a cada página concluída pelo autor. O dinheiro ajuda a cobrir parte de uma despesa que vem de longe, desde os tempos de carteiro: seis maços de cigarro por dia.

Quanto Costa? (Edição Out.07)

Não são poucas as pessoas que têm inveja de Marcelo de Oliveira e Gilvanísia Medeiros. Ela tem um celular tão dourado quanto a cor do seu cabelo, comprado (o celular, não o cabelo) na quarta das viagens que fez à Europa, só neste ano. Foram viagens para atrair mais negócios “e, claro, para me divertir e gastar, que ninguém é de ferro. Só gosto do que é bom e trabalho honestamente para isso. Um instante: Helloooo, honeeeey!” O honey do outro lado da linha provavelmente é italiano. Gilvanísia cuida dos italianos. Já Oliveira se especializou em escandinavos e portugueses. Os dois são corretores imobiliários em Natal. Na verdade, corretores não, já que operam fora do enquadramento legal da profissão. Não aparecem nos cadastros do CRECI-RN, o Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Rio Grande do Norte, que tem hoje 2600 afiliados. Ambos preferem se apresentar como “corretores de negócios”. Os 2600 afiliados morrem de ciúme.

Natal é pródiga em invasões. Por lá viviam, na santa paz, os índios potiguaras. A primeira leva invasora foi a dos portugueses, que puseram os índios para correr. Em seguida vieram os franceses, que puseram para correr os lusitanos, os quais acabariam voltando, apenas para serem corridos novamente pelos holandeses, que por lá passaram 21 anos de muita serenidade. Quando tudo finalmente parecia resolvido, e Natal se acostumava a uma vida sem forasteiros, chegaram os americanos. Construíram ali a maior base militar fora dos Estados Unidos durante a II Guerra Mundial. Houve festa, milk-shake, chiclete e muita farra. A cidade prosperou, mas a bonança durou pouco. Natal mergulhou na cava depressão de quem se vê subitamente solitário.

Esse era o estado geral das coisas até o início do século XXI. Há uns cinco anos, o mundo redescobriu Natal. Voltaram os portugueses, e vieram também os italianos, os espanhóis e os noruegueses (estes últimos, segundo consta, para lavar dinheiro). Não mais a bordo de caravelas, mas em vôos fretados. De acordo com a Infraero, de janeiro a junho deste ano, 117 531 estrangeiros desembarcaram na cidade (Natal tem 700 mil habitantes). Dispostos a gastar — e com o euro valorizado —, eles são recebidos com pompa e circunstância por comerciantes, taxistas, guias turísticos, garotas de programa e corretores de imóveis, legais e ilegais. Ambulantes vendem água de côco em norueguês e potiguares publicam, nos jornais locais, anúncios de locação de imóvel só em língua de gringo.

Tal influxo de europeus fez o preço dos imóveis explodir. Esta sim é uma bolha imobiliária. Qualquer terreno, de uma casa a uma granja, desde que perto do mar, desperta a concupiscência de estrangeiros à cata de sol. No início do ano, um senhor espanhol se interessou por uma casa perto da Ponta Negra, a principal praia da cidade. O dono não tinha a intenção de vendê-la e, para se livrar do chato, pediu um valor que considerava absurdo: não se desfazia do imóvel por menos de 100 mil. O espanhol, relutante, contra-atacou com uma oferta de 85 mil. O dono arregalou os olhos e percebeu que havia subestimado o valor do seu lar. Conversa vai, conversa vem, fecharam em 90 mil. A caminho de assinar o contrato, o proprietário ponderava, feliz como uma criança: “Em circunstâncias normais, minha casa, com terreno de 100 metros quadrados, não alcançaria nem 30 mil reais. Nunca”. Tinha feito o negócio da sua vida. Mais exatamente, de duas vidas: ele não tinha se dado conta de que o espanhol não estava negociando em moeda brasileira. Saiu da corretora com 90 mil euros no bolso. (Mais precisamente, na maleta.) Cash: 320 mil reais. Tanto ele como o corretor preferem manter o anonimato, para evitar olho gordo.

Os espanhóis têm feito a alegria de muitos nativos. Um executivo de Natal vendeu a um deles seu terreno de 400 metros quadrados, sem energia elétrica e sem água encanada. Recebeu, no ato, 215 mil reais. Dez anos antes, a área tinha sido comprada por um décimo do valor. O executivo — mais um que morre de medo de olho gordo — não se lembra de nenhum outro negócio com retorno financeiro tão grande.

Eduardo Guilherme, há 27 anos no ramo, diz que metade dos seus negócios já são realizados entre natalenses e estrangeiros. Em média, são 45 imóveis por mês que acabam na mão de europeus. É nesse filão que garimpam Marcelo de Oliveira e Gilvanísia Medeiros.

“Com o que esses gringos despejam de dinheiro aqui todo ano, dá pra fazer um bom pé-de-meia. Rico a gente não fica”, diz Oliveira, “porque gente honesta não fica rica nesse país. Mas dá para se arrumar na vida.” De fato, ele se arrumou. Orgulhoso, exibe o novo carro zero quilômetro, o notebook de última geração e suas pulseiras de ouro, concorrentes do celular dourado-estupefaciente de Gilvanísia. Boa hora aquela em que decidiu largar os mil e poucos reais que ganhava como sargento da Aeronáutica. Entrou no negócio por acaso. Em 2002, vendeu a casa de praia da família para um italiano. Enxergou ali um caminho. Embora seu português não seja propriamente o recomendado pela Academia Brasileira de Letras, ele não está preocupado em aprimorar seus conhecimentos da língua pátria. Mais útil é aprender italiano. Foi o que fez, num curso no Senac. “Não completei por falta de tempo, mas já sei o básico. Va bene, Che facciamo? e coisa e tal. Além do mais, quem é que não entende a linguagem do dinheiro?”, pergunta sorrindo.

O telefone toca. Com sotaque nordestino carregado, Marcelo de Oliveira não se constrange em maltratar as línguas estrangeiras. “Réé-lôu! Vá beni, vá beni. Má che coisa, hein?”

Caviar, champagne e Ministério Público (Edição Dez.07)
Com João Moreira Salles

Natal, capital do Rio Grande do Norte, não é exatamente um celeiro de celebridades. Com exceção da top model Fernanda Tavares, a fama dos personagens nativos corre na faixa que vai da Paraíba ao Ceará. Mas, se o nordestino é um forte, o colunista social potiguar é um hércules. A pobreza da lavra não o impede de suar o rosto nas minas exíguas do jornalismo de sociedade. O ouro é pouco; a concorrência, imensa. Espalhados por jornais, rádios e tevês, o contingente de colunistas potiguares é forte de cerca de noventa almas.

O vespeiro se alimenta das festas, farras, intrigas, políticas e segredos de alcova dos personagens que a tradição local organiza em três castas: os jets (dotados de classe e dinheiro), os pibs (com mais dinheiro que classe) e os pebas (sem nenhum dos dois). Nas últimas semanas, entretanto, o que se viu em Natal foi uma inversão das coisas. Nem jets, nem pibs, nem pebas produziram as notícias mais apetitosas da estação. Saborosos mesmo se saíram os colunistas.

Houve o episódio no restaurante italiano. Ainda que muitos nomes robustos da sociedade estivessem matando ali a sua fome, o que atraiu olhos e ouvidos foram os gritos que cruzaram o salão:

“Vagabunda! Você é uma va-ga-bun-da!” O autor da crítica mordaz era um dos decanos do colunismo local. A vítima dos ataques, uma sua colega de profissão, Eliana Lima, que acabava de ser contratada, a peso de ouro, para dar expediente no mesmo jornal em que o agressor reinava absoluto. Ele agora teria de dividir com a intrusa a página em que mandava e desmandava havia duas décadas. Donde o epíteto eloqüente: “Va-ga-bun-da!” A moça, jovem e bonita, é conhecida por haver modernizado a crônica social potiguar — “seguindo a escola da Mônica Bergamo, querido”.

Mas o caso Vagabunda! é trivial perto do affaire Hilneth Correia, uma senhora de larga circunferência e feição bonachona que se proclama embaixatriz do Rio Grande do Norte. Hilneth é a mais querida colunista da cidade. Jamais imaginaria que alguém do mesmo ofício pudesse magoá-la tanto — principalmente um “jornalistazinho jovem, sem história nem procedência nenhuma”, segundo palavras da própria. Em suma, um peba. Pois foi o que aconteceu.

Rodrigo Levino, o jornalista sem procedência, 25 anos, editor de cultura do jornal JH Primeira Edição, entregou-se durante uma semana à tarefa de denunciar o patrocínio do governo do estado e da prefeitura de Natal à festa de quarenta anos de colunismo social de Hilneth. Com o título Celebration, o rega-bofe foi anunciado em outdoors pela cidade. Numa clara prova de falta do que fazer, Levino espalhou pela cidade, via e-mail, as logomarcas oficiais que acompanhavam os anúncios. Insistia que se estava diante de uma farra privada regada a verba pública. Exigia explicações.

Hilneth explicou. Na sua coluna na Tribuna do Norte, ensinou que o patrocínio, chamado de “master”, era uma forma de divulgar as belezas e os atrativos de Natal “pelo sudeste-maravilha afora”. A um custo “ínfimo”, o governo e a prefeitura se responsabilizariam pelas passagens aéreas, hospedagem e city tours de personalidades como Bruno Chateaubriand, Hildegard Angel, Glorinha Távora, Madeleine Saad, André Ramos, Luiz Felipe Francisco, Miriam Galhardi e Liliana Rodrigues. Tratava-se de uma estratégia notável, cuja conseqüência natural seria propaganda turística de altíssimo cacife nas rodas do jet set Rio–São Paulo.

A explicação não impediu que o Ministério Público Estadual se interessasse pelo assunto. O procurador de Justiça, através do promotor de Defesa do Patrimônio Público, recomendou a abertura de investigação. De uma hora para outra, produziu-se o impensável: estado, prefeitura e Hilneth não escaparam de prestar esclarecimentos à Justiça. Como se não fosse horror suficiente, a colunista ainda teve de se haver com a ameaça de Levino. O jornalista anunciou que, sendo a festa bancada por dinheiro público, ele alugaria um caminhão e recolheria os pobres, desdentados, feios e sujos da cidade, para que pudessem todos desfrutar da Celebration. Hilneth quase infartou. “Despeitado! Invejoso!”, classificou, aos prantos.

Encurralados pelo Ministério Público, os poderes locais acabaram suspendendo o patrocínio. De última hora, e para tristeza da boa sociedade potiguar, quase todos os VIPs desistiram de ir a Natal. Sem a boca-livre da patronagem oficial, não houve disposição que resistisse. Adeus Bruno Chateaubriand, André Ramos, Hildegard Angel, Liliana Rodrigues. Hilneth não se deixou abater. Enfrentou a desdita com bravura e estoicismo. “Imagine, dar satisfação à Justiça como se eu fosse uma pessoa má”, murmurava no camarim da Celebration. “Logo eu, com quarenta anos de história no jornalismo potiguar.”

Com vinte manobristas, quarenta garçons, quatro telões, cinco bufês diferentes, prosecco Pol Clement e uísque Old Parr (doze anos, a gosto), a Celebration foi animada com show das Frenéticas. Ao som de “Eu sei que eu sou/ bonita e gostosa” e “Abra as suas asas/ solte as suas pernas”, os convidados fincavam os olhos nos três bravos semidesconhecidos que tinham vindo do sul prestar solidariedade à embaixatriz potiguar. Madeleine Saad, Glorinha Távora e o desembargador carioca Luiz Felipe Francisco foram recebidos com deferência. Não tiveram de pagar 110 reais pela pulseirinha que dava acesso à festa. O magistrado, bem mais contido do que a expansiva Madeleine, observava os requebros tomando doses e doses de caipifruta de cajá com kiwi. A discrição se manteve até o momento em que ele foi abordado pela drag queen Danuza D’Salles, a hostess da celebração. Daí para a pista de dança, foram dois passos. Luiz Felipe Francisco não dança bem.

À medida que a noite avançava, uma angústia começou a pesar sobre o salão. Não que se comentasse em voz alta. Seria fulminar a anfitriã, a essa altura com os nervos à flor da pele. De orelha em orelha, cochichava-se: “Será que vai chegar a caçamba de pobres?”

Não chegou. De mesa em mesa, aliviada, Hilneth agradeceu a todos pela atenção, pelo carinho e pela alegria de suas quatro décadas de crônica social. Na coluna do dia 18 de novembro, arrematou: “Eu tive qualidade e quantidade”.