Gaveta
Sol, címbalos e celulares
“Som na caixa, David!” ordenou o rabino Daniel Eskinazi, às oito horas e dezessete minutos do último dia 8 de abril, num cercado montado em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo.
Ao fim das orações em hebraico e início da música festiva executada pelo toca-discos do jovem David, oito judeus ortodoxos partícipes do indefectível combo de roupas pretas, chapéus de abas largas, barbas longas e costeletas encaracoladas, postaram as mãos nas costas um dos outros e formaram um trenzinho. Em voz alta repetiam “ai, ai, ai, ai” ad infinitum. Aos oito juntaram-se mais quatro adultos e três crianças, o que diante do contingente de cerca de 600 pessoas ao redor mostrou-se um fracasso retumbante. Por falta quórum, o trenzinho se desfez.
Mas isso não foi suficiente para tirar o brilho da celebração ocorrida debaixo de um sol esturricante. Providência divina, como se vê. É justo o sol que se festeja durante o Birkat Ha’Chamá, motivo pelo qual todos estavam àquela hora do dia e cercados pelo trânsito engarrafado na Praça Charles Miller. O evento, que em 2009, como poucas vezes na história, colou-se à véspera do Pessach, a páscoa dos judeus, ocorre a cada 28 anos quando o sol retorna à posição do dia em que foi criado; o quarto dia da criação, há exatos 5.769 anos, segundo a crença judaica.
O cálculo que assinala o dia da Benção do Sol, disposto no Talmud, o livro da doutrina, da moral e das tradições judaicas, remete aos séculos III e IV D.C. e foi realizado por rabinos da linhagem Amoraim. Segundo Daniel Eskinazi, que conduziu a cerimônia no Pacaembu, é impossível explicar em linhas gerais que tipo de equação ou teorema matemático e/ou astronômico os Amoraim usaram para chegar a tal data. Mas isso pouco importa, “afinal, estamos todos reunidos e diante de um sol belíssimo. Por favor, não vá confundir a celebração pela existência do sol com a adoração a ele. Isso D’us (grafia utilizada por judeus) condena de maneira implacável”, advertiu, enquanto os participantes do trenzinho vagavam perdidos e meio desconfiados,às suas costas, após a inesperada dispersão.
Pouco familiarizada com as tradições judaicas, este repórter foi energicamente exortado a “procurar o seu lugar”, antes do início da cerimônia. A saber, o lado oposto onde se encontrava, visto que era o reservado para as mulheres. Por se tratar de uma cerimônia onde são realizadas orações, mesmo ao ar livre, manteve-se a tradição de dividir homens e mulheres, como nas sinagogas. Conselho, no entanto, esnobado por membros da própria comunidade. Alguns mais jovens, como Shmuel S., 19 anos, ignoraram a indicativa e permanecieram no lado errado, onde segundo ele “pode-se observar as meninas do evento”.
“Um absurdo!”, reclamou um dos ortodoxos presentes, ao perceber que enquanto as orações eram realizadas alguns jovens filmavam uns aos outros com as câmeras dos celulares de última geração, riam e conversaram. “Eles estão por toda parte e já não têm respeito algum. O que se pode fazer?”, contemporizava outro. Abordados, mostraram-se pouco amistosos, dando a entender que um gói era naquele instante tão bem vindo quanto os celulares.
Dos poucos que se arriscaram movimentar-se enquanto o mestre de cerimônias congratulava o sol pela sua existência, o rabino Levi Slonim foi o único recebido com sorrisos aquiescentes pelos demais ortodoxos. Carregando uma pequena lata de metal, recolhia dinheiro para a caridade. De cada dez, nove permaneciam emperdenidos, embora mantivessem o sorriso de boas vindas. Percebendo a pouca disposição dos presentes para a oferta voluntária, Slonim decidiu improvisar e mostrar que o importante na verdade é a representação do ato caridoso. Retirou moedas do próprio bolso e dava-as a cada um dos abordados para que pusessem dentro da lata.
A exceção ficou por conta do rabino Henry Sobel, que com dificuldade retirou dois reais do bolso e ofertou ao jovem Slonim. Até o fim das moedas, ninguém recusou a caridade feita com recursos alheios. Embora ocupado com o “recolhimento” dos donativos Slonim manteve o coração elevado a D’us e ao fim da oração do rabino emendou em voz alta Halelú’Hu betsiltselê sháma, halelú’Hu betsiltselê teruá (Louvem-No com címbalos retubantes, louvem-NO com címbalos retinentes). Todos ao redor disseram amém, ao passo que alguns organizaram uma fila, avisados pelo microfone que “ainda há matzá disponível a preço módico, na nossa van”, para comprarem a sua porção de pão ázimo, ou sem fermento, próprio da comemoração do Pessach.
Entre eles, Sobel, que ao ser indagado sobre a importância espiritual do Birkat Há’Chamá, elevou os olhos ao sol e disse em tom solene e reconhecido sotaque: “O sol é o astro mais importante da nossa Via-Láctea, do Sistema Solar. Ele jamais entra em choque com outras galáxias, pois obedece uma ordem maior. E, assim como ele, nós seres humanos não devemos entrar em choque uns com os outros”. E só. Foi aplaudido solitariamente pelo senhor de nariz adunco imediatamente atrás na fila, enquanto Slonim esperava em vão uma nova contribuição e Shmuel, satisfeito, trocava o número do celular com uma garota. À essa altura David, o DJ, já havia retirado o som da caixa.
Por Rodrigo Levino
