Dia de outono
Posted by levino on maio 6th, 2008 filed in C.A.O.S., Estante“Rather Lovely Thing”, de Nick Cave e Warren Ellis, foi a primeira coisa que me ocorreu como tema, se necessário fosse, para ilustrar com uma seqüência harmônica impecável – um tanto melancólica, é verdade – os passos curtos das três crianças buscando desesperadamente a bola, ladeira abaixo. Um dia agradável. A saber: a segunda vez em meses que flagro meninos correndo por improváveis ruas.
Um pouco além, debaixo das frondosas árvores centenárias e, cirurgicamente observadas por você, apaziguadoras de espírito, alguns senhores com elegantes, mesmo que gastos, suéteres de lã e luvas para rebater o frio entre os dedos, disputam o que desesperadamente podem ser as últimas partidas de truco de suas vidas. Por isso tanto gosto, afinco em distrair o pavor de perceber-se findando.
Do outro lado da calçada, a relação inversa do tempo no abraço demorado e desavergonhado dos namorados. O enroscar de mãos lisas como se acompanhasse num compasso regido por algo invisível, mas que sabemos estar lá, a sinfonia de silêncio e desejo esborrando dos olhos cerrados, dos corpos, dos cabelos em desalinho da menina agasalhada com um suéter de mesma cor do avistado na roda de velhos que disputam mais uma – quem sabe a última – partida de truco.
Um dia assustador de tão agradável, a julgar pelo cinza azulado que tomou conta do céu não faz vinte e seis horas, quando o temporal varreu as ruas, arrastando – agora se sabe – tudo que pudesse, mesmo que não saibamos exatamente o quê, desacordar o que nesse instante se derrama sob nossos olhos calmos, adormecidos para o caos: as crianças, o casal, os velhinhos, a alameda com suas árvores gigantes.
Os poucos raios de sol, apesar do sol aberto e claro, que se atrevem a ultrapassar os galhos da alameda, enroscam-se nos troncos como gatos manhosos nas pernas do seu dono. A estupenda calma de um dia incomum para o que nos acostumamos do lado de cá do mundo, aonde o céu é permanentemente decorado com tons de cinza e respira-se não ar, mas uma gosma cinza inominada.
Silêncio. De repente os apontamentos cessam. Estamos a observar, e apenas isso, o que nos convém, apraz, o que nos permite extrair de cenas cotidianas seqüências sem cortes de filmes pessoais, intransferíveis, pontuados por atuações de poucas palavras, alguns tons pastéis – dos suéteres – um ou dois gritos agudos dos meninos correndo atrás da bola e o abraço demorado do casal, que torna-se mais apaixonado num dia de outono em São Paulo.

maio 7th, 2008 at 11:26 am
Olha aí, o cronista de volta.