Dentro da selva IV
Posted by levino on abril 10th, 2008 filed in C.A.O.S.Hoje me ocorreu a idéia de que numa reportagem que envolva riscos o melhor é que não tenhamos real noção desse risco. Lendo os jornais locais e alguns nacionais, além da conversa com jornalistas que estão cobrindo o embate entre índios, fazendeiros e Polícia Federal na região da Raposa Serra do Sol, vi que termos sido os únicos “brancos” a entrar na reserva ontem foi um grande lance de sorte.
Há alguns dias ninguém se arriscava a ultrapassar duas pontes obstruídas e um trecho da estrada recheado com minas terrestres. A cautela recomendava distância. A decisão de ir até lá foi um misto de instinto e coragem ingênua, por isso conseguimos um vasto material para uma boa matéria e pudemos, depois de passado o susto de ser encarado por índios e manifestantes entrincheirados atrás de sacos de areia e arame farpado na terceira ponte bloqueada com caminhões e tratores, conhecer personagens riquíssimos que ajudam a entender uma das questões mais polêmicas do Brasil atualmente: a demarcação de áreas indígenas.
Hoje assistindo o jornal e ouvindo o Ministro Eros Grau dizer que desde que faz parte do STF a questão da Raposa Serra do Sol foi a que mais demandou tensão e risco de um conflito civil, confesso que tive mais medo do que ontem, quando descemos do carro com as mãos para o alto, nos identificando em voz alta. Essa não noção do risco real nos permitiu interagir de uma forma fluida, que deu a mesmo liberdade aos que estavam embrutecidos, entrincheirados e com tanto medo quanto raiva, se abrir um pouco, baixar a guarda e sentar na beira de um rio para dois dedos de prosa. Contaram seus dramas, seus medos, de como são apegados a terra em que vivem e que chegaram a tal ponto de provável conflito por sufocamento, não por escolha.
Me senti tão à vontade que só hoje, lembrando de tudo, imaginei que deveria ter me assustado mais quando a poucos metros de onde eu estava uma bomba explodiu e logo depois ouvi a explicação de um dos manifestantes: “Ih, alguém mexeu no detonador sem querer…” Alguém mexeu no detonador sem querer… Em condições normais eu gelaria. Também quando, já na volta a Boa Vista, outro deles aconselhou que fôssemos até determinado ponto sempre pelo lado esquerdo da estrada de terra batida, já que dali até a outra margem havia um recheio considerável de minas terrestres. Pois é, chegamos pelo lado que saímos, por pura sorte.
Foi uma experiência e tanto e espero um dia voltar à região numa situação de paz para reencontrar todos que conheci na Vila Surumu. Os que choraram, os que gritaram, os que reclamaram, inclusive os meninos que pulavam no rio como se nada de anormal estivesse acontecendo.
No mais, hoje o dia foi tranquilo. Ficamos em Boa Vista e conseguimos entrevistar outros personagens importantes do imbróglio. Um dia produtivo e desses que a gente fica ruminando sobre riscos, medos e de como é bom às vezes não tê-los, para assim a coisa fluir melhor e deixarmos gente tão instigada para o conflito, à vontade, oferecendo suco de frutas da região e carne de caça. Amanhã tem mais.

abril 11th, 2008 at 1:38 pm
Lendo seus textos sobre a cobertura do conflito na região da Raposa do Sol, não pude não ficar curiosa… para que veículo vc está trabalhando? Pode responder?
abril 11th, 2008 at 7:13 pm
Boa pergunta, essa matéria vai ser publicada onde?