Adeus Columbus

Da água para o vinho

Uma coisa, como se não bastasse o escândalo do suposto dossiê dos gastos com cartões cosporativos e contas tipo b do governo FHC, é realmente estarrecedora: os personagens envolvidos na tal montagem, seja de dossiê ou banco de dados; obviamente, ninguém é criança de achar o objetivo desse trabalho era beneficente. De acordo com matéria d’O Estado de São Paulo, entre os envolvidos, além de funcionários de médio e pequeno porte da Casa Civil e outros Ministérios, estão Dilma Roussef e Franklin Martins.

Então, por que o destaque desses dois nomes? Ora, como se sabe, dossiê, espionagem e chantagem é coisa de regime arbitrário, de exceção, ditadura. E são Dilma e Franklin talvez os últimos com destaque no governo, com exceção do presidente que esteve preso durante o regime militar, as figuras emblemáticas que lutaram justamente contra a arbitrariedade, a repressão, a chantagem, a criação de dossiês que a ditadura representava. E o que fazem agora? A mesma coisa da qual foram vítima, mesmo que indiretamente.

Cabem, para mim, indagações que vão além do plano político, chegam ao humano: por quê? O que acontece com alguém que no exercício de manutenção do poder conseguido a duras penas, deixa-se sucumbir pela tentação autoritária contra a qual já lutou? Que pragmatismo é esse que faz alguém largar os princípios que o fizeram enfrentar tortura, prisão e desterro para agora fazer parte de um jogo sujo que diz respeito a projeto de poder e não de governo?

Claro que Terêncio tinha razão e concordo com ele, nada do que é humano me surpreende, mas não deixa de plantar essas dúvidas terríveis que dizem respeito a caráter, personalidade, a força que o poder exerce sobre os humanos, a ponto de, para manter-se no poder, alguém ser capaz de ir contra tudo que lutou e fazer uso das mesmas práticas. Lastimável.

Digizap

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