Cuidado, piso escorregadio

Posted by levino on março 3rd, 2008 filed in C.A.O.S., Vida Digital

O jornalismo político brasileiro vem sofrendo desde o início do governo Lula de uma síndrome de partidarização oposicionista lamentável. Talvez por isso não tenha compreendido até hoje como a cobertura maciçamente contrária ao governo federal não surtiu, nem surte efeito algum nos índices de aprovação do governo.

Continua portanto, e pior para o leitor/telespectador/internauta dividido nos que defendem desavergonhadamente o poder ou aqueles que perdem completamente a compostura no exercício diário de atirar pedras sem ter certeza exatamente do alvo. Finda acertando a atividade em si.

Em 13 de fevereiro eu republiquei aqui um artigo do jornalista Marcelo Coelho, da Folha de São Paulo, onde ele se dizia assustado com o que chamou de “Macarthismo das miudezas”, ou seja, a apavorante cobertura sobre a farra com os cartões coorporativos que havia àquela altura (e continua) descambado para uma caça às bruxas sem o mínimo cuidado com o bom jornalismo, diga-se checar uma informação até o fim e ouvir as partes envolvidas. O que se vê é uma “reinaldoazevedização” do jornalismo político. Péssimo. Poucos conseguem manter um meio termo sensato, ou viram Mino Carta e PH Amorim ou enveredam nas hostes de Mainardi.

Todos os grandes veículos embarcaram nessa onda, inclusive a Folha, dando voz ao histerismo do DEM e do PSDB no Congresso Nacional, que convenhamos faz oposição seguindo a cartilha do PT quando o era. A postura da grande mídia, que finda na piada de salão, pode ser contestada agora pelo próprio TCU (Tribunal de Contas da União), o mesmo órgão que liberou os dados referentes aos gastos com os cartões, redigiu através do seu presidente um documento que enumera erros imperdoáveis da impressa na sua sanha acusatória (que interessa a quem?). O documento foi publicado pelo jornalista Josias de Souza, da Folha, e os tópicos seguem abaixo:

- A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) foi acusada de ter utilizado o cartão corporativo para adquirir roupa de cama. Despesa regular e necessária, atestaram os técnicos da CGU. Os panos forraram as camas utilizadas por servidores da agência que realizam a fiscalização sanitária no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. São plantonistas, obrigados a pernoitar no batente.

- A Polícia Federal escalou o noticiário por ter sacado o cartão numa clínica de estética chamada By Kimberly. Eis o detalhe que a reportagem não relatou: a despesa decorre de pagamento de um revólver, devolvido à PF nos termos do Programa Nacional de Desarmamento;

- Denunciou-se que o cartão do Ministério da Agricultura despejara verbas públicas numa agência de matrimônio. Os técnicos da CGU foram atrás. Descobriram o seguinte: pagou-se, na verdade, a manutenção de veículo do ministério numa oficina mecânica. Por equívoco da Receita Federal, a oficina fora classificada no Cadastro de Pessoas Físicas como intermediária de casamentos. Alertado, o fisco promoveu a correção.

- Acusou-se o comando da Marinha de sacar o cartão para adquirir um bichinho de pelúcia. Era lorota. Comprou-se, na verdade, um pedaço de veludo. A loja trazia o vocábulo “pelúcia” na logomarca. Mas o pano foi usado para forrar uma bandeja que carrega medalhas em solenidades de condecoração militar.

- Criticou-se a Marinha por ter manuseado o cartão corporativo numa casa chamada Beleza Cosméticos Ltda.. A compra destinava-se à aquisição de material de consumo para um curso de barbeiro ministrado na Escola de Fuzileiros Navais;

- Atacou-se a Marinha, de novo, por conta da aquisição de uma caixa de bombons. Os chocolates serviram para retribuir gentilezas à esposa de uma autoridade militar estrangeira que visitou instalações navais do Brasil.

- Noticiou-se o gasto de uma repartição pública numa loja que trazia o termo “joalheria” enganchado no nome. Compraram-se jóias? Não. Foram adquiridas baterias para um telefone celular.

- Informou-se que, na Universidade de Uberlândia, até motoboy dispunha de cartão de crédito. Na verdade, tratava-se de um agente administrativo que tem entre suas atribuições a realização de compras emergenciais da reitoria. Por acaso, o servidor vai às compras equilibrando-se numa motocicleta.

- A própria CGU freqüentou o noticiário por ter mandado roupas para uma lavanderia. Foram à máquina de lavar toalhas de mesa usadas num evento festivo da repartição: o Natal dos funcionários.

- Um servidor do setor de manutenção do Ministério das Comunicações ganhou notoriedade por ter mandado reparar o forro de uma mesa de sinuca. O móvel encontra-se na garagem do ministério há 16 anos, desde 1992. Traz a plaqueta de “patrimônio da União”. É usado como passatempo dos motoristas, nos horários de folga. Para a CGU, a despesa foi absolutamente legal.

- Entre as supostas irregularidades praticadas pelo ministro Altemir Gregolin (Pesca) mencionou-se um gasto de R$ 70 feito na choperia Pingüim, em Ribeirão Preto (SP). Varejando as notas da prestação de contas, a CGU verificou que o cartão pagou uma refeição do ministro. Não há no documento menção a bebida alcoólica. Perscrutando a agenda de Gregolin, verificou-se que teve compromisso oficial na cidade no dia em que comeu na choperia mais famosa de Ribeirão.

Nem todas as miudezas escaparam à glosa da CGU. O próprio ministro da Pesca viu-se constrangido a devolver às arcas da Viúva R$ 538 -R$ 512 de um almoço que pagou, sem amparo legal, a uma delegação de autoridades chinesas e R$ 26 de uma outra refeição na qual dividiu a mesa com um acompanhante.

Também o custeio da tapioca do ministro Orlando Silva (Esportes) não pôde ser encaixado na lei. Como as suspeitas estenderam-se dos R$ 8,30 a gastos mais robustos, feitos em restaurantes e hotéis, o ministro optou pos restituir ao Tesouro os R$ 30,8 mil que gastara entre 2006 e 2007. Aguarda a conclusão de auditoria da CGU, para saber se terá direito a algum troco.

Ou seja, é bom tomar cuidado ao ler e ver jornais. O piso está cada vez mais escorregadio para o leitor…

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