Conto

Posted by levino on janeiro 8th, 2009 filed in Notas

- Comandante, avistei o acampamento inimigo.

- Onde, sargento?

- Ali, perto do Vale dos Mortos.

- Oh, meu Deus, o terrível Vale dos Mortos.

- Sim, de onde ninguém jamais escapou.

- Contate a base urgentemente.

De todas as vozes, a mais engraçada era a do comandante. Seriamente impostada, soava quase como a de um locutor de rádio. Eu estava sentado na varanda lendo o jornal, que àquela altura tinha se tornado bem desinteressante (é um tédio constatar que todas as formas de corrupção já foram inventadas). Depois dos diálogos dos mocinhos, Gabriel anda para o outro lado a sala de estar onde estão as tropas do inimigo, atrás do sofá já um pouco ruído pelos dois gatos. Nesta poltrona suntuosa, cuidadosamente escolhida para ficar em frente à TV, eu passo horas vendo programação hipnótica a cabo. Suponho que ali seja o Vale dos Mortos. Convenhamos, meu filho sabe bem escolher nomes.

- Duvido que possamos perder esta guerra.

Eram os bandidos.

- Chefe, vamos dormir esta noite e atacar amanhã?

- Sim. Amanhã a ponte será nossa. E depois o mundo, mhuahauahaua!

A ponte, presumi, é o que está entre o aparador da sala e o carrinho de bebidas. Se a Marta sabe que a tábua de passar está sendo usada para fins militares, aí sim haveria uma guerra de verdade. Quando Gabriel volta até o lado dos mocinhos, eu desisto de fingir que estou lendo e abandono de vez o jornal. Espero ansiosamente pelo convite. Meu filho olha pra mim com entendimento, levanta e me oferece o sargento sem dizer nada (que honra): um sujeito musculoso, de quepe e granadas penduradas num cinturão de balas, marcado pelas cicatrizes de longas guerras com olhos tristes e um pouco mal pintados. Eu, que resisti até o último argumento de meu filho pra lhe comprar um exército (por que você não vai jogar bola?), agora quero a guerra mais que ele.

- E então comandante, o que fazer?

- Vamos surpreender as tropas inimigas.

- Ok, devo mobilizar os homens?

- Sim. Partimos imediatamente.

Eu piloto alguns blindados e um tanque lança-mísseis ligeiramente desproporcional. Gabriel movimenta com destreza os recrutas anabolizados. Eu penso que resta pouca expectativa de vida para a tropa com os homens tomando bomba deste jeito e ainda provavelmente travados de pó pelos olhos esbugalhados. Foi assim no Vietnã e eles perderam, mas fico calado. O comandante não pegou o Vietnã. Eles seguem armados até o último pedaço de plástico dispostos a morrer pela tábua de passar.

- Tchuuuuu.

- Vruuuuum.

- Comandante, estamos próximos a uma zona eletromagnética, tenhamos cuidado.

- Esses inimigos são mesmo malignos, sargento. Vamos redobrar a astúcia.

Nesta hora deu vontade de rir com Gabriel falando em astúcia, mas soldado nunca acha graça de ordens de combate. A zona eletromagnética era a fiação da TV, desencapada. Temia que meu filho levasse um choque e ficasse com trauma de guerra.

- Vamos fazer um pequeno desvio.

- Cuidado, homens.

- Vamos, heróis, avante!

- Tchuf.

- Tchuf.

Paramos entre a mesinha de centro e umas cadeiras que compunham a sala de estar. Estávamos de frente para o Vale dos Mortos, onde se fica gordo e preguiçoso vendo canal de esportes.

- Os exércitos do mal estão descansando. É hora de atacar.

- Comandante, que tal irmos pela direita?

- Não, vamos escalar o Vale dos Mortos!

- E se for verdade o que falam sobre o lugar…

- Coragem sargento, coragem.

- Tchuf.

- Tchuf.

- Vruuum.

- Vruuum.

- Seu Jorge, ligação pro senhor.

- Ó meu Deus, comandante, o temível monstro do Vale dos Mortos não era uma lenda.

- Seu Jorge, não vai atender?

- Sargento, abra fogo!

- Bum.

- Bum.

- Sei não viu, seu Jorge, o senhor parece criança.

- Ele está fugindo.

- Fez um belo trabalho sargento, será promovido a capitão.

- Acho que é tenente, senhor.

- Que seja.

- E agora, senhor, devemos prosseguir?

- Sim, infelizmente não temos reforços.

- Reforços são caros senhor, creio que só no final do ano a base nos conceda mais tropas.

- Bem, então vamos com nossas POUQUÍSSIMAS tropas.

- Vrum.

- Vrum.

- Atacaaaaaaaaaaaar!!!!!

- Ratatatatatatata!

- Eles estão em maior número!

- Acho que é porque reforços são caros!

E os exércitos do mal começam a dizimar nossos homens que caem por todo o campo de batalha. Dependendo das notas do comandante, acho bem justo que a base providencie reforços no final do ano.

- Só temos uma chance, sargento.

- Diga comandante.

- Vamos atraí-los para o desfiladeiro.

- Sim, boa estratégia.

- Tchuf, tchuf.

E os bandidos só percebem quando já estão diante da queda iminente: quatro degraus da escadinha de acesso à sala de jantar, que fica num desnível primoroso de arquiteto. Foi engraçado ver as tropas rolando escada abaixo, exatamente como aconteceu com Gabriel no verão passado.

- Ó não, uma armadilha. Esses heróis me pagaaaaaaaaam.

- Ratatatatatatata, bum, bum.

Olhando para trás, entre o desfiladeiro inóspito e o Vale dos Mortos, percebo quantos heróis valorosos foram sacrificados para que a paz e a justiça pudessem triunfar.

- Pegamos quase todos os bandidos, comandante.

- É, mas a que preço? Tivemos muitas baixas.

- E agora, chefe. Ainda há um inimigo.

- Sim, vamos por um ponto final nesta história.

E quando nós dois estávamos prontos para cercar o último sobrevivente das tropas do mal, o derradeiro arauto da maldade, a força maior da destruição; eu caio no campo de batalha, como um boi abatido pelo laço do vaqueiro. O comandante, sem entender, olha pra trás ouvindo apenas um barulho seco de tiro. Ele corre até mim, minhas pernas cheias de esteróide me abandonam, já não posso mais lutar.

- Comandante, foi uma honra servi-lo. Agora é com você.

- Sargento, não morra. Isso é uma ordem.

- Arg, não posso prosseguir.

- Vou acabar com este canalha.

- Cuidado chefe, ele é ardiloso.

E o comandante se movimenta até o inimigo, que se esconde atrás de um porta-retrato da vovó.

- Finalmente nós dois, cara a cara. Seus tempos de vilania acabaram.

- Estranha frase pra se dizer antes de morrer. Mhuhahahaha. Tlec, tlec. Ó não, sem balas.

- Agora vai ser na mão seu covarde.

E uma luta como nunca foi vista começa. Vôos, saltos mortais, chutes incríveis. Acho que o comandante tomou aulas de alongamento.

- Pchum

- Arg. Soc, tchuf.

- Isso é por ter matado meus guerreiros. Soc.

- Arg.

- isso é por ter me obrigado a lutar. Soc.

- Uh.

- E isso é por ter ferido meu grande companheiro, herói e aliado. Tchuf.

O grande companheiro era eu, claro. Nessa hora, o sargento caído no campo de batalha, moribundo, suando frio pelo ferimento grave, começava a se emocionar. Puxa, herói e aliado! Que honra. Onde está a minha morfina?

Na volta do comandante, perguntei estranhamente recuperado:

- Chefe, você o matou?

- Não, sargento, está apenas desacordado. Vamos levá-lo a um julgamento justo.

Puxa!

E então, com o fim da guerra, descemos pra sala de jantar pois já era meio-dia. E desta vez, só desta vez, permiti que Gabriel não comesse as verduras do almoço. Coisas de soldado.

Jão Saraiva, em Coisas de Soldado.

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