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EraOdito
“A amplitude emocional da obra de Bach em conjunto é imensa: basta lembrar a solenidade majestosa das fugas, o misticismo gótico dos motetos, o sentimento comovido das árias e dos largos, o demoníaco de uma hora de rebeldia como no Concerto para piano em ré menor e a elegância aristocrática das suítes e o humorismo burlesco da Cantata dos camponeses e a inocente alegria paradisíaca como no Concerto para violino em mi maior. Bach resumiu tudo isso e muito mais. Mas não resumiu todas as possibilidades da música. Não encontro entre as obras de Beethoven algo tão perfeito como os Concertos de Brandenburgo. Mas não encontro entre as obras de Bach algo que tão intimamente tocasse o coração como o Concerto para piano n. 4 ou O Trio Arquiduque ou as variações da Sonata opus 111 nem abstrações tão transcendentais como o Quarteto opus 132 e as variações sobre a valsa de Diabelli nem uma despedida tão humana como a última obra, o Quarteto opus 135. Para variar, uma frase de Nietzsche: ‘Beethoven escuta e nota o que toca um músico celeste; Bach é esse músico celeste’. A arte de Beethoven é a mais alta música humana. A arte de Bach é menos humana porque é mais que humana. Os Concertos de Brandenburgo são um reflexo da ordem divina do Universo; uma mensagem do reino das idéias platônicas”.
Otto Maria Carpeaux, “Os Concertos de Brandenburgo”, Livros na mesa, 1960
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Lets? (Onde achei essa foto do neón? Deu branco, saco. Quem sabe aí?)
Hola hermanitos! Bueno? Pois é, com eu havia avisado logo abaixo, qualquer hora eu voltaria com a programação normal deste Adeus Columbus. Sacomé, veio o lançamento do livro, depois a leitura de mais alguns e as conseqüentes resenhas (isso se chama trabalho), sem contar uma preguiça considerável nas horas vagas. A verdade é que hoje eu vou tentar atualizar com o maior post da história do site =P Será que consigo? Explico. Daqui uns dias viajo a trabalho e me enfurno durante praticamente três meses num negócio cansativo e que me tomará todo e qualquer naco de tempo. Isso quer dizer que: sim, o AC voltará às moscas por um longo período. Aliás, não às moscas, mas naquele estado de atualizações rareadas. Então sejogaê e depois me diz.
- Cara, eu nunca tive muitos bonecos na minha infância. Primeiro porque eram caros, segundo chegavam poucos (e mais caros ainda) na distante cidade aonde eu morava. Daí tenho lá esse interesse por toy art, acho que fruto dessa lacuna da infância e tal. Às vezes penso que preenchi isso com livros. Hoje tenho não todos os que quero, mas a maioria do que posso e um algo mais. Mas já pensou quando juntam livros e bonecos? Bah, que delícia. Como esse boneco de Edgar Alan Poe, por 14 dólares. Alguém se habilita?
- Encontraram imagens inéditas dos Beatles, de 1967. Ruins e tal. Mas e daí? O que importa é ganhar em cima dos mortos. Necrofilia da arte ou pura diversão?
- O primeiro eu acho melhor do ponto de vista estético do que cinematográfico (entendeu?). Digo no modo do fazer cinema, enredo, roteiro, atuação. Embora fiel (até demais) a graphic novel em que se baseia, 300, de Frank Miller e Zack Snyder me deu a impressão de jorrar testosterona da tela, quando na verdade os quadrinhos têm (será pelo formato como a história é contada?) um quê de poético. Agora dizem que vem o 2 por aí. Cola?
- Se tem uma coisa que deixa qualquer fã em polvorosa são as caixas de luxo de bandas e edições especiais de filmes (se bem que a maioria é tudo caça-níquel). Lembro uma vez que eu estava com a Mari na Livraria Cultura do Conjunto Nacional e ela perdeu a compostura diante de uma caixa lindíssima do Velvet Underground. Nem as crianças da seção de livros infantis pareciam tão excitadas. Daí consegui segurá-la e ela acabou não comprando. Era uma nota. Mas na boa, se eu passasse em frente a essa caixa do The Jesus and Mary Chain… eu levava!
- TV Google. Pois é, aonde o Google vai parar? Tomara que muito, muito, muito além do que está.
- “Como assim você não conhece Led Zepellin?” Bah, Escola do Rock é um dos filmes mais divertidos dos últimos anos. Desses que fizeram até falta na Sessão da Tarde da minha geração. Acho que por isso tanta empatia com o clima, a história e tal. Então, daí que o filme vai ganhar uma continuação. Curti!
- Quer ouvir o novo disco do Beck na íntegra? Na Amazon tem. Olha, achei xoxo. Curto muito os primeiros discos dele, inclusive aquele mezzo acústico que neguinho mete o pau (como é o nome mesmo? Algo a ver com “sea”). Mas esse não rolou.
- Já viu o trailer de Valkyrie? O filme em que Tom Cruise interpreta um oficial da SS que armou pra matar Hitler e se fodeu. Deu um rebu tempos atrás, lembra? Acho que por causa da família que não queria o mocinhono papel principal. Sacaê:
- “Fecho os olhos e não consigo me lembrar dos tênis que calço. Se forem chinelos talvez eu esteja na praia ou numa piscina. Poderiam também ser coturnos estirados sobre a cadeira da frente, enquanto a garçonete providencia o meu pedido. Pode ser que eu não tenha mais pés para calçar ou que, ao contrário, tenha cem deles. Pode ser que eu seja uma centopéia. Abro os olhos e continuo não me lembrando, pois de repente lembro que perdi a memória.”
Joca, o Terron, amigo do peito, retornou à blogosfera. Salve!
Ps.: Esse “a” antes de blogosfera, tem crase?
- Não é a primeira vez que Marcelo Mirisola ataca autores, editores e quem mais aparecer na frente. A bílis do rapaz é negra e tediosa, já que não foge dos mesmos alvos. Cheira a despeito, claro, a loucura não. Ele sabe o que faz. Tem lá sua platéia. Deixou de ter (e quem se importa?) a minha, ao menos para os livros dele. Para mim, tão chatos e repetitivos, na forma, no estilo e no conteúdo, quanto alguns que ele critica. Depois de Santiago Nazarian, agora foi a vez dele desancar Marcelino Freire, em dois textos. É muita falta de uma lavagem de roupa, né não? Ah, e ainda chegou atrasado em Homem Comum =P
- Taí uma coisa que eu estando em Nova York não poderia deixar de perder… show gratuito do Bon Jovi. Argh!
- Na maioria das vezes eu quero ficar velho longo do mundo. Isolado, igual a Zuckerman (compre Exit Ghost, de Roth). Noutras, quando vejo um vídeo desses por exemplo, me dá vontade de ficar velho se acabando no meio no mundo, como o Neil Young. Classe!
- Quem acompanha isso aqui sabe que eu sou alucinado pelo Justice, duo francês de música eletrônica. Daí que agora os caras resolveram reverenciar um dos referenciais da e-music: o Prodigy. E com a música que eu mais curto deles, Smack My Bitch Up. Baixaqui e já enfia no iPod.
- “Viva numa cidade. Prédios de apartamentos consomem menos energia no inverno do que casas, mas esta não vale tanto para cidades grandes brasileiras como São Paulo. Uma cidade bem azeitada, como Nova York, Paris ou Londres, tem transporte público que as pessoas de fato usam. Cidades favorecem, por sua arquitetura, o transporte de grandes massas de população gastando muito pouco combustível fóssil. Quem vive no campo ou em cidades menores depende do automóvel.”
Essa é só uma das dicas não muito ortodoxas que a Wired lista de medidas para combater o aquecimento global. Na boa? A maioria delas faz muito, muito sentido.
- Só que na mesma edição a Wired publicou um artigo do Alex Steffen desmentindo a lista com um argumento bem simples (e que faz tanto sentido quanto a lista) de que combater o aquecimento global não se trata de uma equação simples de carbono. O aquecimento é na verdade sintoma de como tratamos mal o planeta. E agora? Quem está certo?
- “Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, pôr principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. Montante, o mais supro, mais sério… Só se pode viver perto do outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor.”
O Adeus Columbus também homenageia Guimarães Rosa. Bonito, né? Trecho de uma fala de Riobaldo.
- O Irã pode fabricar uma bomba nuclear em seis meses? Hum… Isso tem cara de ataque. Contra o Irã, claro.
- Ainda sobre dona Ruth Cardoso, um texto sensível da irreparável Cora Ronái.
- Eu nunca sequer cogitei ser médico um dia. Sangue, definitivamente, não é uma das coisas mais agradáveis que eu costumo ver. Me dá agonia, asco às vezes. Talvez por isso a curiosidade mórbida de saber (a animação é perfeita) como é que bate um coração no peito de um desafinado…
- “Há uma explicação controversa para explicar a cultura anti-muçulmana na Europa: mesmo após 60 anos de introspecção a respeito do anti-semitismo que levou ao Holocausto, os europeus não se convenceram de que imigrantes com diferenças culturais e religiosas devem ser tratados como membros plenos de sua sociedade. O anti-semitismo europeu entre as duas grandes guerras incluía acusações de crime, de conservadorismo religioso, inferioridade genética e, principalmente, falava da impossibilidade de assimilação.”
O racismo na Europa mudou de cor? Aliás, de credo. É o que diz Noah Feldman.
- Uma entrevista bacana com Yoane Sanchèz, a blogueira censurada de Cuba. Quem diria, hein? Los viejos de Sierra Maestra todos com el cu en la mano com medo de um tecladinho e uma rede de comunicação…
- Bom, eu sei que estou chegando atrasado, mas ainda vale reler a resposta de Caetano Veloso a Fidel Castro. Na boa? Caetano é quem dita as regras. Faz quarenta anos e ninguém se toca disso. Cada vez que alguém vem dizer (eu já fiz isso) que ele só fala merda, só ratifica o óbvio: ele é relevante, em qualquer coisa que opine.
- “Está tudo ao contrário. Antigamente, era o stablishment que queria controlar a liberdade sexual. Agora é a liberdade sexual que quer enquadrar o stablishment. Esse projeto de lei que o Senado vai votar, criminalizando atos de preconceito contra os gays, não poderia ser mais preconceituoso. Pelas novas regras propostas para a vida em sociedade, se um proprietário não alugar seu imóvel para um homossexual, por exemplo, pode ir preso. O motivo pode até ter sido a falta de confiança no fiador, mas o inquilino recusado poderá alegar que foi discriminado por sua opção sexual. E por aí vai, com desdobramentos igualmente autoritários para seleção profissional, tratamento na rua etc. Chamar um sujeito burro de “jumento” pode. Chamar um gay de “bichona” vai dar cadeia.”
O Fiúza faz uma abordagem interessante dessa nova lei. Será que pega? Sem trocadilhos, por favor. Eita, será que eu vou ser preso por essa brincadeira? Ui!
- Fiquei bem puto quando o Cony decidiu tungar a patuléia, embolsando seu milhão como vítima da ditadura. Mas, quero anunciar de público que todo o meu apreço pelo cronista está retomado desde já. Tudo porquê quando indagado sobre as comemorações de 50 anos da Bossa Nova, ele foi cirúrgico: “É uma música chata”. Clap! Clap! Clap!
- “Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudade de mim?”, ela pergunta. “Sinto saudade o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.”
J.M. Coetzee, em Desonra. Soberbo, porque é simples, enxuto, sem afetação. Ando com uma vontade enorme de me debruçar sobre a obra completa dele… Será que tenho tempo? Ano passado o encontrei entre as barraquinhas de artesanato em Paraty. Calado estava, calado passei.
- Tem curiosidade de saber quem são os 50 autores mais traduzidos da história?
- “Faço uma literatura de entretenimento, uma literatura pop. Minha grande ambição é alegrar, divertir as pessoas, emocioná-las um pouco, esclarecer uma coisa ou outra. É para isso que eu rezo literalmente, todo dia, antes de escrever: para que meu trabalho possa alegrar, divertir e esclarecer. (…) Já é muito difícil você conseguir essas coisas. Muita gente que quer fazer arte não consegue sequer fazer um bom entretenimento. E, às vezes, naquilo que tem o espírito de entreter com leveza, você também encontra arte e profundidade.”
Você pode não achar o Nelson Motta um grande autor. Mas sensato ele costuma ser.
- Bateu a síndrome de Madonna em Michael Jackson. Para se manter no topo (ele, no caso, para ressurgir) correm atrás de gente da moda. Até agora parece que rendeu isso. Blergh!
- “Há exatos 100 anos uma explosão destruiu cerca de 60 milhões de árvores em Tunguska, na Sibéria. Ninguém sabe dizer ao certo o que causou tamanha destruição (estima-se que a potência do evento tenha sido mil vezes maior que a da bomba nuclear que devastou Hiroshima, 37 anos mais tarde). A explicação mais comum é que um meteorito teria caído na região. Pessoas que moravam a milhares de quilômetros do local disseram ter visto uma luz semelhante ao Sol se movendo e - logo depois - uma luz forte. Mesmo a uma distância considerável, o impacto derrubou pessoas e quebrou vidros de janelas. Um terremoto de cinco pontos na escala Richter foi sentido.”
Desculpe minha inguinorança, mas não havia lido nada a respeito do fato. Depois que o Terron, não o Joca, mas o Paulo, levantou a lebre, só procuro coisas sobre.
- Amy “Tyson” Winehouse. Achei muito bem feito. Pro carinha lá. Deixa a moça em paz, ô caraio!
Protesto bem sacado. E justo.
- Eu tenho muito orgulho de escrever nessa revista! Haha! Ah, e para os que estão em Paraty, para a Flip 2008, fica de olhoaê numa edição especial que a Piauí está lançando para a festa. Tem um texto meu. Guardem pra mim =P
- Por falar em Flip, para os que como eu não vão pode ir, a saída é acompanhar tudo via web, ao vivo. Bacana, né? Mas nada, absolutamente nada compensa a falta do ruge-ruge de gente ali na pracinha.
- Modelos… Tsc, tsc, tsc.
- “Em Outubro o produtor gaúcho Alê Barreto lançou via Overmundo o livreto “Como organizar um show“. Esse mês, a publicação ganhou versão impressa. Trata-se de um guia rápido - pouco mais de 60 páginas - para iniciantes. Fala um pouco dos conceitos básicos que envolvem o processo de produção de um evento desses. Foi anunciado como primeira publicação no Brasil sobre produção de shows. Não é - o Itaú Cultural lançou um livro sobre o assunto em 2005 - mas ainda assim é um material interessante para dar uma lida com calma.”
Dica bacana do Bruno. Se todo mundo que produz shows lesse isso… O mundo seria outro.
- Ah, vai, na boa, curti essa versão do Bidê ou Balde pra Maior Abandonado, do Cazuza. Sério.
- “Tá bom, eu já sei que em 1968 o mundo todo libertou o Mandela. Deve ser por isso que há 40 anos vivemos num interminável show da Anistia Internacional, ouvindo Simple Minds sem parar. Já deu. Virem o disco -ou troquem por um do Serge Gainsbourg- e passemos ao ano seguinte.”
- Não dá mais pra brigar como antigamente… Falta nível, sabe?
- “Em 1941, o editor Edward Dowling escreveu: “Os dois maiores obstáculos para a democracia nos Estados Unidos são: Primeiro, a ilusão generalizada entre os pobres de que temos uma democracia; Segundo, o terror crônico entre os ricos de que tenhamos uma”. O que é que mudou? O terror dos ricos é maior do que nunca, e os pobres transmitiram sua ilusão àqueles que acreditam que quando George W. Bush finalmente se afastar, em janeiro, diminuirão as suas numerosas ameaças ao resto da humanidade.”
- “Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidos. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas.”
Agustina Bessa-Luís. Autora portuguesa, um dos meus maiores achados recentes. Leiam, leiam!
- Cara, Rubem Fonseca cronista é uma delícia… O bicho fala de absolutamente tudo!
- “Parem as máquinas! Uma das estrelas mais queridas de Hollywood irá voltar à ativa depois de uma aposentadoria de mais de quatro décadas. O chimpanzé Cheeta, estrela de 12 filmes de Tarzan ao lado de Johnny Weissmuller nas décadas de 30 e 40, participará em breve de uma gravação musical e de um DVD, além de publicar um livro de memórias.”
Calil é quem conta.
- E diz mais: crise econômica é bom pro cinema.
- O Guardian alertou contra a maldição do Almodóvar para o cinema Espanhol. Só que ele, o diretor, resolveu responder. Vocês não acham isso bem Caetano Veloso? Hahaha!
- Lembra das discípulas do louco Inri Cristo cantando uma versão de Umbrella, né? Elas agora atacaram Hotel California. Hilário!
- Tarantino vai ter que dividir seu novo filme ao meio. Ficou grande demais. Tudo bem, a gente assiste, claro, é semi-deus, mas poderia ser mais conciso, né?
Amy Winehouse, Jack White e Beyoncè juntos? Hum… Quem nasce pra Rock in Rio não chega nunca a Glastonbury, né?
- Um comercial da Unimed com trilha do Retrofoguetes ganhou Cannes? A exceção confirma a regra, né? Fodaço.
- “Gramado vai homenagear Renato Aragão”. Bom, espero que a homenagem se concentre no passado, nos geniais filmes de antigamente e não nas merdas que ele anda soltando por aí todo ano.
- Rock, teoria da conspiração e muito papo-água antes do show que eu espero ver em breve. Muse!
- A esquematização das lendas urbanas. Tem cada uma…
- “A maior parte das escolas de Nova Orleans está em ruínas, assim como os lares das crianças que estudavam ali. As crianças agora estão espalhadas por todo o país. Isso é uma tragédia. Mas é também uma oportunidade para reformar radicalmente todo o sistema educacional.”
Uma reflexão sobre capitalismo, relações humanas e tudo mais.
- “Soube com tristeza, pela televisão, da morte de Ruth Cardoso. Ela sempre transmitiu uma grande distinção e serenidade em suas aparições públicas, e quem a conheceu pessoalmente creio que também tinha a mesma impressão.”
É bonito o texto do Marcelo Coelho sobre a Ruth Cardoso.
- “Nos próximos três meses, não vou andar de moto, de bicicleta, a pé, de metrô, de ônibus, de trem ou de carro. Nem de avião. Não vou ao teatro, cinema, praia, parque ou jogo de futebol. Não vou comparar Berlim, Nova Iorque, Rio e São Paulo. Não vou assistir televisão – seriado, documentário, noticiário, nada. Não vou discutir violência policial, treinamento do Exército ou a tirania das quadrilhas nas favelas. Não vou ler livros, ter lembranças da infância, me encantar com uma foto ou me irritar com um anúncio.”
Já pensou a Soninha eleita prefeita de São Paulo? Uma blogueira no poder…
Consegui? E se eu te disser que esse post ainda vai crescer mais? Rá!
Up Grade
- Eu pagaria 18 milhões para Gloria Perez nunca mais escrever uma novela na vida! Isso sim!
- O Starbucks vai fechar 600 lojas nos EUA? Pior que eu curto, mesmo me arrependendo todas as vezes, sem exceção, de quando paguei dez reais por um copo de café agüado. Rá!
- Quando Jay-Z (gênio, pra mim) foi escalado para tocar este ano no Glastonbury (aprendam crianças, o que é festival de verdade) Noel Gallagher do Oasis chiou e disse que o festival não era lugar de hip hop. O que fez Jay-Z? Retribuiu a provocação. Como? Cantando Wonderwall, do Oasis, imitando Noel! Haha! Sacaê:
- De acordo com a Rolling Stone americana, o filme chega perto de uma obra de arte. O IGN Movies chama o filme de obra-prima perturbadora. Agora pergunto, alguém duvida que é o maior e melhor filme do ano? Aguardmos apenas para confirmar. Ah, embaixo o cartaz novo do filme:
- David Cronenberg (um dos meus cinco diretores de cinema favoritos) e Abbas Kiarostami decidiram mergulhar na música erudita. Pois é, David transformou em ópera o seu filme A Mosca. Estréia essa semana, na França. Vê aí, ele falando sobre:
- Você gosta de cartazes de cinema?
- Obama, o onipresente.
- Mas também tem quem malhe…
- O que não impede de ganhar novos apoios.
- Ah, além de ver a Flip 2008 ao vivo, como falei lá em cima, a festa também tem um canal no YouTube, onde vídeos serão postados ao longo do evento. Bacana.
- “A calabresa está com os dias contados. É a próxima vítima na cruzada puritana que assola o Globo. Quando a última bituca for apagada no fundo do derradeiro copo de chope, pode anotar: eles virão atrás da lingüiça.”
Antonio, matador, como sempre.
- Eu gosto de uma coisa estranha.
- Moptop se preparando para lançar disco novo. Que venha!
- Mesmo o jornalismo de internet ainda chega atrasado nos fenômenos da rede. Por exemplo, a repercussão sobre o trabalho de Marcelo Adnet, na ressureição da MTV Brasil. Mas tá valendo.
- “No Brasil, o equivalente a 77 milhões de pessoas dizem não gostar de ler, segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgada em maio pelo Instituto Pró-Livro. As principais razões para aqueles não-habituados à leitura: lêem muito devagar (17%); não têm paciência para ler (11%); não compreendem o que lêem (7%); não têm concentração para ler (7%). O brasileiro que lê, em média, conclui 4,7 livros e compra 1,2 exemplar a cada ano. (…) E haverá os que vestirão em Paraty a camiseta-campanha contra a exploração sexual: “Não alimente os escritores”. Mesmo que válidas algumas dessas restrições, a Flip ainda será um flerte sorridente com o livro num país de banguelas.”
Isso que Plínio Fraga defende é o que eu tento explicar algumas vezes, mas é charmoso ser contra a Flip, tem o ar (anacrônico, claro) de “ser contra o sistema”.
- “É melhor que não procuremos razões. O senhor parece, de fato, um escritor. Isso não é incômodo? Os escritores são como o senhor. Primeiro manifestam compaixão, depois se irritam quando a pessoa não se ajoelha diante deles como se fossem Deus. São exigentes.”
Robert Arlt, em Luba.
- Puta que pariu:
- Agora fiquei constrangido… Será que Marylin Monroe leu mesmo Ulisses, de Joyce, e eu não? Rá!
- Das coisas doces da vida…
4 comentáriosLançamento, Dias Estranhos
Eu sei que estive ausente nas últimas horas e as atualizaçoes no Adeus Columbus rarearam. Mas foi por um bom motivo. Estive ocupado, preparando e divulgando o lançamento do meu segundo livro, Dias Estranhos. Pois, eis-me aqui para convidá-los, todos, leitores, putos anônimos, os que volta e meia dão as caras pelo blog e gostam do que escrevo. Apareçam todos, hoje, a partir das 19 Hrs, na Siciliano do Midway Mall, Natal/RN. Apareçam para bater papo, fazer volume, encontrar amigos, comprar um livro, tomar coca-cola. E, enfim, espero que gostem do livro. Foi um parto, mas estou bem orgulhoso do moleque. Digo, do livro.
Aos que não puderem ir ao lançamento: Podem comprar na Siciliano e na Kriterion ou pelo e-mail contato@adeuscolumbus.com. Grato e até lá!
2 comentáriosSobre o ofício
À pergunta do que eu andava fazendo da vida o estranhamento. Cinco ou seis amigos de infância de quem fui afetivamente próximo e hoje me percebo terrivelmente distante, seja por incompatibilidade de assuntos, interesses ou simplesmente o que chamam “vida passar”, atônitos tentando compreender a resposta. “Trabalho com palavras… é isso”.
Entre cifras e relatos de vidas mercadologicamente bem sucedidas talvez não haja brecha para o impalpável. Um estranho no ninho das linhas retas em constante ascensão. Uns com suas famílias precoces e já acometidas pelo tédio inevitável, outros com uma dificuldade latente de livrar-se da irresponsabilidade da juventude, mas todos, sem exceção, atônitos.
Pois vivo assim, à margem do que talvez tenham planejado ou imaginado onde estaríamos todos hoje, anos depois da infância bucólica e da adolescência marcada por aventuras num já distante sertão. Não visto branco dos pés a cabeça; não suporto sangue. Não projeto edifícios nem meço os graus de imensas porções de terra. Não entendo leis, não defendo interesses; conheci a alforria quando joguei todos os códigos no fogo. Eu apenas trabalho com palavras.
Escrevo cá, preferencialmente em madrugadas silenciosas, o que me pedem. Minha moeda é a palavra, meu investimento os livros, minhas frases são como pacientes que assisto cuidadosamente, lapidando, recriando, apagando e reescrevendo até que soem doces, fortes, como queira. Sustento-me entre as palavras, conto histórias, umas saem no jornal, outras se lançam desesperadamente para a lixeira assim que concluídas. Mas sempre através delas, as palavras.
Nenhuma inveja deles, também do lado de cá confesso um estranhamento às vezes angustiante, noutras resignado. Interessa-me o descartável, o comum, o que as pessoas têm a dizer sobre a mais tediosa e por isso mesmo encantadora vida. E só. Escrevo crônicas sobre coisas que vi, crio contos sobre o que talvez um dia vá viver, formato reportagens, discursos, propostas, roteiros. Compro feijão com parágrafos.
Pode ser que um dia – sabe-se lá o quanto a vida é traiçoeira – eu tenha que ter os mesmos interesses de todos eles, que possa falar dos investimentos, do paciente que foi salvo por um lampejo de humanidade, de clientes, viagens, negócios. Talvez um dia. Por enquanto vivo e morro no teclado, digitando letras, pago as contas com o que produzo, não sigo regras a não ser as ortográficas, semânticas e quetais. Vivo assim, para o não discernimento de todos eles, me sustentando com palavras.
3 comentáriosCoetzee fala
“Há uma qualidade paradoxal no destino de vários artistas à medida que envelhecem: tendo passado a vida inteira eclipsando sua personalidade no interesse de sua arte, ao ponto em que resta quase nenhuma personalidade, são transformados pela mídia em “personalidades” e instados a dar opiniões.”
J.M. Coetzee, em Diário de Um Ano Ruim
Deixe seus comentáriosPoesia para quê poesia
(…)
És fruta de carne jovem
e de alma alacre,
diversa do oiti-coró
porque picante.
E, tamarindo,
deixas em quem te conhece
dentes mais finos.
És fruta de carne ácida,
de carne e de alma;
diversa da do mamão,
triste, estagnada.
É do nervoso
cajá que tens o sabor
e o nervo-exposto.
És fruta de carne acesa,
sempre em agraz,
como araçás, guabirabas,
maracujás.
Também mangaba,
deixas em quem te conhece
visgo, borracha.
(…)
João Cabral de Melo Neto, em Jogos Frutais
1 comentárioComo eu estava dizendo…
… a correria está medonha. Por isso resolvi atualizar com um monte de coisas de uma só vez, assim tem o que ver até o fim de semana. Gostas?
- Hoje me deu vontade de tomar banho de psina. Isso mesmo: psina. Coisa que eu não faço a menor idéia do que se trata, mas fiquei curioso depois que a Nivea Stelman, que está em Bali, contou que estava curtindo “uma psininha natural por lá”. (A Hermman levantou essa lebre)
- “Por que gostamos de novela? Porque fomos criados com elas, ora! Resposta fácil, claro. Mas como deixar de fora essa explicação, se elas já existiam quando eu nasci? O problema é que essa explicação é simples demais. Estava particularmente interessado nisso porque, enquanto estava fora (não era longe – Buenos Aires – mas mesmo assim, estava ligado) vi na internet notícias “alarmantes” de que “A favorita” havia estreado com uma das piores médias de audiência para aquele horário.”
Zeca Camargo faz um relato interessante sobre novelas, audiência e coisa e tal.
- Sabia que em São Paulo vai acontecer o primeiro Campeonato Brasileiro de Arremesso de Celular? É o exorcismo da modernidade…
- “Comigo esse lance do samba só aconteceu muito no começo. Nas primeiras críticas, rapidíssimo se dissipou. Eu gosto muito de samba, mas meu trabalho não é de samba. E o Brasil tem isso, de sempre querer grandes intérpretes exatamente porque já as tivemos no passado. Não me considero uma. [risos] Nunca quis isso, não é minha paixão esse lance de diva, essa coisa visceral. Minha relação é mais com a música, sinto-me mais uma musicista. Claro, acabei caindo na coisa das novas cantoras. Não me incomodo, muitos talentos vieram dessa geração. Fico feliz.”
Uma entrevista bacana da Céu ao Paulo Terron.
- Radiohead fazendo cover do Portishead? Só assim para eu gostar alguma coisa do Third, o último disco da trupe de Beth Gibbons. Achei o disco (e comentei aqui até) datado, estranho, confuso. Talvez meu erro foi esperar ser surpreendido como fui anos atrás pelo Dummy. Será?
- O Galera avisou que Leonard Cohen estava de volta aos palcos e fazendo turnê depois de 15 anos. Procurando é fácil de encontrar registros dessa magistral e necessária volta. Cohen é deus. Cohen vem ao Brasil, segundo dizem… Eu não vou perder o show do Cohen.
- “Sobretudo nas horas do crespúsculo, que sempre haviam sido as minhas preferidas, eu era acometido por uma angústia a princípio difusa, depois cada vez mais densa, em virtude da qual o belo espetáculo das cores empalideciam e transformava em uma lividez maligna e sem luz, o coração no peito se comprimia até um quarto do seu tamanho natural, e na cabeça só me restava um pensamento: preciso subir ao patamar do terceiro piso de uma certa casa na Great Portland Street, onde alguns anos atrás tive um estranho impulso depois de uma consulta médica, e me jogar da balustrada nas profundezas escuras do poço da escada”
O Laub conta que Austerlitz é o lançamento literário do ano no Brasil. Será?
- “O site FilmeB publica hoje texto e gráfico sobre o Atlas 2008 do cinema mundial, lançado pela revista francesa “Cahiers du Cinéma”, que congrega números sobre o público de filmes em 34 países. Embora os dados sobre a China não sejam completos, é possível concluir que, assim como na economia, o país é a grande estrela em ascensão do cinema mundial. O mercado chinês dobra de tamanho a cada três anos. Em 2007, a renda cresceu 26%, foram construídos 492 novas salas, e o “market share” dos filmes locais chegou a 54,1% (conseguido com forte controle sobre a entrada de produtos estrangeiros).”
A China está com tudo…
-“I love people who make me laugh. I honestly think it’s the thing I like most, to laugh. It cures a multitude of ills. It’s probably the most important thing in a person.”

- “Para Scliar, o diálogo é apenas um recurso para preencher espaço em uma história. “Quando me deparo com um livro, busco descobrir a quantidade de diálogos que estão ali. Se forem muitos, não acredito que seja um bom livro.”
Polêmica na literatura nacional. Às vezes concordo com ele, outras não… Imagine um livro todo feito com diálogos (hahaha)
- “Observação importante para que o suspense de thriller fique completo: as mesas mais concorridas, como vimos em outros anos, costumam se esgotar em poucos minutos. Nessa situação, cada ligação telefônica que cai é acompanhada de acordes funestos, cada segundo de espera na porta de um servidor superlotado cai como grão de areia na ampulheta do Juízo Final…”
A confusão por ingressos da Flip continua como todos os anos: péssima. Ano passado não tive que passar por isso, mas imagina esse ano querendo justo as mesas mais concorridas… 2009 vem aí.
- “A África Subsaariana vem crescendo 6% ao ano desde 2004 – lideram os países produtores de petróleo e minerais. Não é pouco para um continente considerado perdido até há bem pouco tempo. Este crescimento, com apoio chinês, tem se traduzido em nítida melhoria da infra-estrutura: estradas, eletricidade – e, com elas, hotéis, postos de gasolina, serviços. Negócios. Neste sentido, a China é uma boa influência que traz, para o continente, algo que o imperialismo e o pós-imperialismo ocidental não trouxeram. Mas há um problema, aí, comum a todo o planeta mas particularmente grave no caso africano. Um bom naco do dinheiro que entra, sai de imediato. Há algo como 500 bilhões de dólares fruto da corrupção governamental em bancos do ocidente. É um dinheiro que, se repatriado, pagava a gigantesca dívida externa.”
A África é o novo hype da economia? Quem diria…
- “Nada que esteja acontecendo no planeta, neste exato momento, é mais grave do ponto de vista humanitário do que o Sudão. Mesmo se incluirmos na lista as conseqüências dos atos da ditadura de Myanmar, que nega ajuda aos próprios cidadãos após um desastre natural. Mesmo que incluamos o Iraque ou qualquer outro episódio do Oriente Médio. No entanto, já faz cinco anos, o que se passa é uma certa reação blasé. ‘Horrível aquilo no Sudão, não é?’ E daí para outro assunto. Por que a esquerda não se esgoela e põe o Sudão no topo de sua lista de prioridades? Cruze os blogs ou revistas de esquerda no mundo e os assuntos são vários, as vítimas do imperialismo muitas, mas para as três milhões de vítimas do governo sudanês não sobra muita compaixão.”
O Doria faz um dos mais importantes alertas de política internacional dos últimos anos. E aí, vamos permanecer indignados no sofá?
- Já viram a capa da Rolling Stone de junho?

Ainda bem que esse mês eu tenho matéria na Playboy… =P
- Em ano de eleições municipais, não seria legal que os candidatos lessem a entrevista de Enrique Peñalosa ao Ny Times, o cara que deu um jeito em Bogotá?
- Hum… acho que por 199 dólares vai dar pra comprar daqui uns dias um iPhone.
- Até a Enciclopédia Britânica entrou na onda da web. Vai ser quase o mesmo esquema da Wikipedia. Bom, né?
- Pantanal, a novela, já foi o paraíso dos punheteiros imberbes. Na era da internet, será que ainda existem esses tipos?
- Caetano Veloso agora tem blog. Mas ele não escreve. Claro, tinha que ser Caetano: tem blog e não escreve. Ao invés disso ele filma trechos da Obra em Progresso, os shows e ensaios abertos que tem realizado enquanto compõe o próximo disco. Fodaço, como sempre.
- “O que digo ali é que gosto mais de preto do que de mulher, o que não quer dizer que não goste de mulher. O que está aparecendo é o tema. A causa do negro me interessa mais do que a da mulher. Evidentemente, (isso foi dito) com uma conotação maliciosa, que fica parecendo que gosto mais de homem preto do que de mulher. Não disse isso, mas sei que eu sou um pouco assim…”
- “Eu tinha o compacto de ‘Surfin’ Bird’ e, na primeira parte eu ficava girando, ficava tonto, no meio eu me atirava no chão, olhando o teto rodar e escutava a música meio enrolada. E levantava correndo pra colocar de novo. Fazia isso a tarde inteira, às vezes”
Miranda é rei. Sim, o tiozinho grisalho do Astros (ex-ídolos, SBT). E o Tiago, amigo da comuna da Bizz no Orkut e parceiro de Orkontro, fez um bom trabalho sobre o velhinho.
Foi bom pra você?
Deixe seus comentáriosRoth fala

A entrevista abaixo foi publicada no jornal espanhol El Pais (feita por Jesus Ruiz Mantilla) e traduzida por Clara Allain para o caderno Mais!, da Folha de SP. Bom, sem muito o que dizer nem apresentar, Roth é o autor da minha vida, o mais afetivo, o mais querido, o que me desperta mais paixão ao ler. Então ouçam-no.
A linguagem é a caixa de ferramentas comum a todos, da qual cada um tira o que precisa. Mas sempre há algo que diferencia uns de outros. No caso de Philip Roth, esse diferencial é a raiva. Esse talvez seja o traço que melhor define a obra de um dos escritores vivos que mais marcou seus contemporâneos nas últimas décadas. Mas não se trata de uma raiva estéril ou cega. É uma raiva que contribui, que constrói, que nos ajuda a viver.
Em seus romances não há muita esperança: “Será que não quero que a tenham?”, ele próprio comenta, sentado na pequena sala de reuniões da agência do homem conhecido como Chacal, que administra a carreira literária de Roth a partir de um escritório na rua 57, em Nova York. É um lugar frio, onde nem o fato de o aquecimento estar ligado à toda consegue fazer o gelo desgrudar das paredes.
Apenas Philip Roth consegue fazê-lo, com sua voz um tanto quanto rouca devido à passagem dos anos -ele já chegou aos 75.
Há dentro desse desespero uma vitalidade, uma voz, que se nega a render-se. É o que ocorre quando se lê “Fantasma Sai de Cena” (”Exit Ghost”, Cia. das Letras, trad. Paulo Henriques Britto, 282 págs., R$ 42), em que Roth traz de volta Nathan Zuckerman, um de seus alter egos mais importantes, como também o foram o professor David Kepesh e o célebre protagonista do hilário “O Complexo de Portnoy”.
Em seu novo livro, Roth persegue o fantasma de um escritor morto a quem quer dedicar uma biografia que vai escancarar aspectos escabrosos de sua vida. Se se tratasse de Roth, isso não seria necessário. O autor de “Pastoral Americana” compartilhou sua vida com seus leitores, passo a passo. Desde a infância em Weequahic (bairro histórico da perigosa Newark, em Nova Jersey) até a velhice, vivida entre Nova York e a casa de campo em Connecticut, este autor fundamental, eterno candidato ao Prêmio Nobel, não deixou ninguém indiferente.
Nem seus compadres da comunidade judaica, que mais de uma vez se enfureceram com a visão crua e impiedosa que mostra de seu próprio mundo, nem os cristãos, que em seus livros são obrigados a suportar desde a blasfêmia até o disparo constante de uma munição distante da moral e dos costumes decentes dos mais retrógrados.
Pois seus romances, a não ser que ele faça ficção política, como em “Complô Contra a América”, jogam no campo da realidade.
E, se “Casei com um Comunista” foi o romance da era McCarthy, e “A Marca Humana”, a obra-prima da era Clinton, “Fantasma Sai de Cena” surge com a ambição de ser um afresco da intra-história da era Bush -”o pior presidente que este país já teve”, diz Roth.
Percebe-se que o sr. é um escritor que se preocupa com seus leitores. Tem leitores bons, fiéis -embora, em “Fantasma Sai de Cena”, se queixe de que eles já não existem. Onde eles estão?
PHILIP ROTH - Onde? Olhando para as telas de seus computadores, as telas da televisão, dos cinemas, dos DVDs. Distraídos por formatos mais divertidos. As telas nos derrotaram.
Como os escritores podem combater essa concorrência acirrada das telas?
ROTH - Não sei. Não me coloco essa pergunta seriamente. Apenas posso lhe dizer o que aconteceu: que as telas venceram a batalha contra as páginas.
O sr. não acredita no tão alardeado “Kindle”, o livro eletrônico que acaba de sair nos EUA?
ROTH - Ainda não o vi, mas duvido que tome o lugar de um objeto como o livro. A solução não é transpor livros para telas eletrônicas. Não é isso. O problema é que o hábito da leitura desapareceu. Como se, para ler, precisássemos de uma antena, e ela tivesse sido cortada. O sinal não chega mais. A concentração, a solidão, a imaginação que o hábito da leitura exige… Perdemos a guerra. Dentro de 20 anos, a leitura será algo restrito a uma seita.
E os leitores são raros, assim como espectros?
ROTH - Não, não. Também não é isso. Ler será hobby de uma minoria. Alguns criarão cachorros ou peixes tropicais, e outros lerão. Como é o caso da leitura de poesia, hoje. Existem poetas, eles são publicados, mas os leitores de poesia são uma minoria. É isso o que vai acontecer.
Em seu novo livro, o sr. volta a colocar em campo seu alter ego Nathan Zuckerman. Ele passou anos longe de tudo, sozinho, no campo, trabalhando. O sr. também renunciou a muitas coisas na vida?
ROTH - Zuckerman está aposentado, leva uma vida de recluso, lendo e escrevendo. Ele se afastou do mundo por várias razões. Deixou Nova York depois de receber ameaças e passou a gostar de viver no campo.
Essas ameaças são fortes. O sr. enfatiza isso. O racismo contra judeus nos EUA aumentou nos últimos anos?
ROTH - Não. É uma constante.
Pouco tempo depois de retornar a Nova York, Zuckerman já quer ir embora.
ROTH - Ele não suporta mais a cidade.
Muitas coisas o ameaçam -entre elas, a beleza.
ROTH - Bem, ele se rende diante dela, mas ela também o assusta. Como o câncer do qual sofre, como o passado e a nostalgia dele.
Sempre acontece com seus personagens: essa força narrativa agarra o leitor pelo estômago, desde o início. O sr. faz isso de propósito? Começar mirando as entranhas mais que o cérebro?
ROTH - Não sei que parte do corpo eu agarro. O que quero é ser direto e assinalar o caminho mais direto para o leitor mergulhar no livro. Meus começos são rápidos. A chave está em captar a atenção do leitor, para então desenvolver a profundidade.
O sr. coloca demais de si mesmo, de sua própria experiência. É uma tendência que vem penetrando na literatura contemporânea de todo lugar. Histórias com vozes poderosas.
ROTH - Bem, é a voz que nos distingue uns dos outros. Não creio que seja um fenômeno dos últimos anos, e sim uma característica da própria literatura. A voz não é uma técnica. A voz é o que marca a diferença.
Como autor que reflete o tempo em que vive, se “A Marca Humana” foi seu livro da era Clinton, “Fantasma Sai de Cena” é o da era Bush. Como será o livro da América de Obama?
ROTH - Quem sabe? Não podemos prever nada. Em nossas vidas, podemos programar os próximos quatro anos. Na política, os próximos quatro anos são um mistério. Quem poderia ter imaginado, pouco tempo atrás, o desastre em que se transformou o Iraque?
O que restará de George W. Bush?
ROTH - Muito pouco. Muitos danos provocados. Levando-se em conta unicamente os números, ele levou o país à falência. Destruiu nossa reputação moral no mundo. Matou centenas de milhares de iraquianos sem motivo. Bush tem sido um desastre, o pior presidente de nossa história.
Talvez a reação contra a era Bush tenha suscitado essa necessidade tão radical de mudanças. É a primeira vez em que um negro [Barack Obama] e uma mulher [Hillary Clinton] disputam a Presidência, com chances de ganhar.
ROTH - Essa avalanche de pessoas que querem votar nas primárias e de entusiasmo por seus respectivos candidatos é uma reação evidente à era de Bush. É a necessidade de fazer algo, de corrigir a situação.
Dez anos atrás, a candidatura de Obama teria sido ficção política.
ROTH - Sem dúvida. Foi Bobby Kennedy, 40 anos atrás, quem disse que em 50 anos teríamos um presidente negro. Ele chegou mais ou menos perto. Uma das vantagens do modo como as primárias aconteceram é que fizeram nascer esperanças em todo o país com relação aos democratas. Convenceram muitas pessoas. Mas, se Obama vencer esta etapa, ainda terá que superar muitos preconceitos e barreiras na eleição final.
Ele está se convertendo num autêntico fenômeno de massas.
ROTH - Ele é muito preparado, é brilhante. Tem um discurso articulado, possui essa energia contagiante, jovem e poderosa. Ele desperta muita esperança nas pessoas. Os democratas parecem estar encantados em poder votar em alguém assim. Quando eu era criança, recordo que elegemos para representante de classe o único garoto negro que havia na sala, e todos nós nos sentimos tão bem com nossas consciências…
Sua infância em Newark, Nova Jersey, esse território mítico…
ROTH - Sim. Você conhece Newark?
Não, mas gostaria.
ROTH - Então tome cuidado.
Verdade? O sr. vai muito para lá?
ROTH - Não, não vou com freqüência. Dou uma volta por lá de vez em quando, sobretudo se vou escrever sobre o que acontece no bairro. Vou lá para rever velhos amigos, mas é preciso ter cuidado quando se vai a Newark. Há traficantes, drogas.
É mais um cenário de “Família Soprano” que dos romances de Philip Roth?
ROTH - A “Família Soprano” parece um conto para criancinhas, comparada ao que existe de fato. É trágico. São perseguições com tiros, seqüestros, roubos de automóveis até mesmo com crianças dentro deles. É o pão nosso de cada dia. Por isso eu o aconselho: não vá.
Onde o sr. vive hoje?
ROTH - Em minha casa em Connecticut, embora eu passe os invernos aqui, em Nova York, porque não suporto o frio. Estou ficando velho.
Enfrentar a velhice -essa é sua obsessão em seus últimos romances e memórias. Não está sendo fácil?
ROTH - Escrevo sobre isso. O exorcizo. Isso me faz bem. Envelhecer é uma mudança muito dura na vida; não existe nada comparável. Você não imagina como é. Nem quando tem 30 anos, nem aos 40, nem aos 50. O que não poderia passar por sua cabeça é que o tempo acaba, que você já não sabe quantos anos lhe restam, se são cinco, se são seis. Você sabe que já não serão 20. Você chegou ao fundo. E depois, há as perdas. Um amigo meu morreu ontem. Primeiro você perde seus avós; depois, seus pais. Agora perde seus amigos. É muito duro. Além disso tudo, quando o tempo acaba, você vai perdendo suas faculdades. A memória -a possibilidade de perder a memória me apavora.
Ainda assim, em “Fantasma Sai de Cena”, o sr. identifica vantagens no envelhecimento…
ROTH - Vantagens? Não, em meu livro não atribuo nenhuma vantagem à velhice.
Bem, quando o sr. diz que as últimas grandes respostas esperam ao final.
ROTH - Ok, mas isso não é uma vantagem. É a vida. Não se iluda a esse respeito.
Por que não?
ROTH - Porque não quero que tenha esperança nenhuma.
Ok, não terei. Tentarei, mas não lendo seus livros, então. Talvez não haja esperança nessa maneira de encarar a velhice, mas o sr. confere um sentido a ela.
ROTH - Isso, sim. Mas porque não nos resta outra alternativa. A velhice é o destino irrevogável de todos nós, exceto para aqueles que não a alcançam. Depois disso nos acontece a morte. Você tem que se conformar com essa idéia. Quando eu estava na casa dos 30, eu refletia muito sobre a morte. Até que um dia eu disse a mim mesmo: “Esqueça isso! Preocupe-se com isso quando você chegar aos 75!”. Eu achava que nunca chegaria. Mas cheguei.
E o sexo? Como fica para Philip Roth o sexo, esse motor de toda sua literatura, na velhice?
ROTH - Bem, muitas pessoas perdem o interesse pelo sexo. Para outras, o sexo é tão interessante quanto sempre foi, e ainda outros aceitam que estão fora do jogo.
E o sr.?
ROTH - Eu? (riso). Eu sou daqueles que continuam a ter interesse por isso.
Os impulsos não desaparecem?
ROTH - Eles não têm por quê.
Como um escritor tão explícito em relação ao sexo se adapta num país como dirigentes tão puritanos?
ROTH - Este país é muito grande e tem muitas faces. A face puritana é uma, mas, se você olhar para como as garotas se vestem no verão, não definirá o país como puritano. Os jovens se iniciam no sexo aos 14 ou 15 anos, e a liberdade é enorme. O puritanismo nos EUA é uma ilusão de ótica. Este país é tão hedonista quanto qualquer outro no mundo.
Se o sexo define o comportamento humano, um país pode acabar sendo definido pelos esportes. O sr. retrata os EUA também por meio do esporte.
ROTH - O esporte me interessa como torcedor. Quando eu era criança, gostava muito, jogava beisebol constantemente. Em “Pastoral Americana” há um herói esportista. Em “O Grande Romance Americano” também falo de beisebol, mas o esporte não domina minha vida. Mas não penso que possamos definir um país pelo esporte.
Fiat Lux
É sempre bom começar a semana com uma crônica do Antonio. Segue:
Houve uma época em que a noite era dos gatos e dos gatunos. 24 H eram três caracteres lidos apenas em luminosos de hospitais, clínicas dentárias em sobrelojas e uma ou outra borracharia – geralmente, bem distante de nosso pneu furado.Não sei bem porquê, mas não passava pela cabeça de ninguém, até o final da década de oitenta, vender máquinas de lavar, vatapá ou livros de administração muito depois do horário comercial.
Tudo mudou na noite em que o Rodolfo, um amigo do meu pai, chegou tarde à nossa casa, cheio de sacolas. Entusiasmado, nos explicou de onde vinha: “chama loja de conveniência! Vende tudo, a qualquer hora! Se você tá voltando de uma festa, por exemplo, três da manhã, e lembra que tem que comprar sabão em pó…”. “E quem vai querer comprar sabão em pó às três da manhã, Rodolfo?!”, cortou meu pai, mostrando muita sensatez e nenhum tino comercial.
Foi mais ou menos nessa época que começaram a vender produtos pela TV, de madrugada. Didi Seven, um alvejante capaz de transformar carvão em marfim; Facas Guinsu, a melhor maneira de serrar pregos e sapatos; meias-calça Vivarina — se um maníaco te atacasse com um garfo, as meias ficariam intactas. Os anúncios passavam entre pornochanchadas e programas evangélicos, sugerindo que Deus, sexo e bugigangas estavam competindo pelo monopólio de nosso tédio, nossa solidão.
Dali para a frente, tudo mudou. Fogão, rabada, samambaias, golden retrievers, Proust completo: não há quase nada que se compre ao meio dia que não possa ser encontrado a meia-noite. Acho ótimo. Vira e mexe, faço compras lá pelas duas da manhã. A salsinha costuma estar meio murcha, é verdade, mas só de você poder escolher os tomates sem ter que ficar encolhendo a bunda para os outros carrinhos passarem, já vale a pena.
Não consigo, contudo, deixar de sentir um incômodo ao carregar produtos de limpeza pela madrugada, como se fizesse alguma coisa profana, imoral. (Mais ou menos como beber pela manhã, ou ir a um casamento de chinelos). Nada que não desapareça, é verdade, assim que me lembro que, se o pneu furar, posso achar um borracheiro aberto em qualquer canto da cidade. Poderia, ainda, encomendar Facas Guinsu, um terço bizantino ou um vatapá pernambucano, pelo celular, sem nem sair do meu carro. Mas é claro, quem é que iria fazer uma coisa dessas, não é mesmo, Rodolfo?
Deixe seus comentáriosRun like hell
Rápidas e rasteiras que o tempo urge.
“O ator e diretor americano Clint Eastwood mandou hoje seu colega Spike Lee “calar a boca”. A declaração foi feita após Lee criticar Eastwood por não incluir nenhum soldado negro em dois filmes recentes do diretor. Em sua crítica, Lee se referia aos filmes “A Conquista da Honra” e “Cartas de Iwo Jima”, ambos feitos por Eastwood e que narram batalhas travadas perto do final da Segunda Guerra Mundial.”
Que coisa, né? Mas o Eastwood justificou direitinho, não ficou só na bronca não.
“Um homem vestido com o uniforme do Batman, personagem das histórias em quadrinhos, fez um protesto durante a sessão que aprovou o aumento de 36% nos salários dos vereadores no final da tarde desta quinta-feira, em Joinville.”
Já pensou se a moda pega? A Liga Justiça vai ser pouco para tanta coisa…
Afim de ouvir o disco novo do CSS, Cansei de Ser Sexy? O Amazon liberou 30 segundos de cada faixa. Güentaê que daqui a pouco vaza e eu disponibilizo o link pra download completo =)
Deus do céu, o paraíso: 150 (eu disse CENTO E CINQUENTA!) scketches do Monty Phyton. De graça, com links virados pro YouTube.
Os moleques do filme Superbad estão escrevendo um episódio de Os Simpsons. Vem coisa boa aí, né?

Genial isso aí em cima, né não? Óbvio que o filme não vai acontecer, mas os caras criaram uns cartazes muito fodas. A lebre foi levantada pelo Bruno.
Quero, desejo e não vou conseguir viver sem, como diz me amigo Augusto Bezerril.
Saca esses desenhos do Grampá. Isso tá virando filme. Produzido pelo Rodrigo Teixeira, bróder.
Segundo o Terron, Seu Jorge vai gravar Michael Jackson e Kraftwerk no seu novo disco. Protegei-nos Senhor!
Mario Ivo justifica (e eu acompanho o voto do relator) porquê ainda não leu Ulisses, de James Joyce.
Por falar em literatura, saiu a programação completa da Flip 2008. E eu não vou mais. Pois é, minha segunda Flip vai ficar pro ano que vem. Ponderei custos e enfim, não valia a pena sair de casa e gastar tanto (mesmo revendo e convivendo lá com bons amigos) para ver três mesas que eu acho indispensáveis: Pierre Bayard, Tom e Neil Gaiman.
Na verdade o comercial deveria ser proibido de tão ruim que é, não por ser ofensivo a moral. Aliás, ofensivo mesmo so à criatividade. Ah, publicitários…
O maior desastre do mundo. Aqui.
Olha que relógio louco! Dica da Hermman.
Em se tratando de literatura no Brasil, é urgente que o debate tome esse rumo:
“Como disse, está havendo o Salão do Livro, aqui em Teresina. E 9 entre dez “escritores” reclamam da falta de apoio, da falta de incentivo, etc, etc, etc. Pergunto: até que ponto é obrigação/responsabilidade do Estado ou da iniciativa privada bancar/financiar livros (considerando-se que 90% deles, eu inclusive, ou mais, sejam de interesse único e exclusivo do autor e sua família, ou fruto de vaidade, ou qualidade literária sofrível)? Como incentivar novos escritores? Concursos premiam um de cada vez, e olhe lá. Enfim, qual o papel do Estado nisso tudo? Bem, se acreditar que isso pode ser um bom tema, ótimo. Senão, ao menos pode-se discutir por aqui.”
Palavra do Tiago, escritor no Piauí.
O Sergio Rodrigues opina do outro lado:
“Mas não digam que fiquei em cima do muro. Acredito que o Estado tenha um único – e importantíssimo – papel em relação à literatura: cuidar dos leitores, tanto de sua formação (oferecendo uma educação pública de qualidade) quanto de seu acesso aos livros (por meio de uma boa rede de bibliotecas, campanhas de divulgação, incentivos para publicações de baixo custo etc.). Digamos que no desempenho desse papel, numa escala de zero a dez, o Estado brasileiro leve nota um.”
E ainda sugere uma matéria bem boa sobre o assunto.
O Calil é desses que prestam atenção nos créditos dos filmes. E isso diz muita coisa sobre o cinema atual.
E aí, foi bom pra você?
Ps.: Já baixou o novo disco do Coldplay? Tio Levino consegue pra você. Clica aqui.
Deixe seus comentáriosUlisses, Joyce e quetais
O texto abaixo é um comentário de Tácito Costa. Tô com ele e não abro nem para um trem. Ler é ter prazer e Ulisses, definitivamente, não conseguiu arrancar isso de mim. Saca só:
Literatura para mim é prazer. Sou um leitor hedônico. Isso pode dá alguma pista sobre o que penso acerca da literatura. Não tenho compromisso com nada que fuja disso. É um ponto de vista pessoal. Reconheço a importância de obras como “Ulisses”. Tanto que estou lendo e vou até o final. Não leio para avalizar cânones, que respeito, e nem para parecer moderno ou aceito em rodas de literatos profundos, seitas ou quaisquer outros movimentos fundamentalistas. Eu não disse que a literatura se limita a “gosto e não gosto”. Aliás, nem essas palavras eu usei, disse apenas que a leitura do Ulisses até esse momento (350 páginas) tem sido chata. Foi só um comentário, mas fico feliz que tenha gerado a discussão. Pelo menos no Substantivo tudo pode ser debatido, de Deus ao Diabo, não existe intocabilidade e sacralizações nesse espaço, aqui o homem é a medida de todas as coisas e nada está acima dele ou num lugar que ele não possa alcançar.
A rigor não era para eu falar do “Ulisses” porque estou na metade dele. Então, não estou preparado, inteiramente, para discutir o livro em si. Portanto, relevem e desculpem se prossigo, mas é que a polêmica tá boa demais para fugir dela e também quero aproveitar para colocar uns pontos nos “is”. Não vou dá aqui uma de falso modesto e dizer que meu repertório não está à altura de “Ulisses”. Está sim. Afirmar o contrário seria totalmente falso e jogar no lixo tudo o que li de bom e importante nos últimos 30 anos. Entre essas leituras, todo o cânone, Homero, Dante, Shakespeare, Borges, Cervantes… Faltava Joyce, daqui a alguns dias não faltará mais.
Então, não é meramente uma questão de repertório. Claro, isso tem um peso enorme. Mas não se resume a esse aspecto. Há que se levar em conta também o perfil psicológico dos leitores, quase todos doidos, reconheço, mas em graus diferentes, que acaba influenciando na recepção literária. Enfim, são vários os fatores que podem influenciar na hora da leitura.
Para mim, a leitura pode ser, sim, uma questão de gosto. Por que não? Essa citação inserida no seu texto (“O leitor, quando lê, lê a si mesmo”) talvez ajude a alumiar um pouco o debate. Se ela for rigorosamente verdadeira está explicado porque muitas vezes não entendemos ou não gostamos de determinado livro. Simplesmente porque não estamos refletidos naquela leitura, daí o estranhamento. Ora, se a obra não reflete, conforme você citou o “universo cultural, a visão de mundo do leitor, a obra de arte é aberta, quem a lê, coloca a perspectiva do seu mundo”, como o leitor poderá dizer que “gostou”, se sentiu próximo ou refletido. Se for honesto, irá dizer que “não gostou”. Qual o problema nisso? Se for um leitor mais tarimbado vai dizer que não gostou por isso e aquilo.
Com relação ao “Ulisses” me incomoda não ter um fio narrativo, uma história, além de me cansar aquela profusão de palavras fundidas, palavras pela metade, citações em latim, e as centenas de notas de rodapé, praticamente você não lê uma página que não tenha de consultar as tais notas. Sim, não precisa que me digam do caráter revolucionário da obra, que ela é grande justamente por isso, que dinamitou as bases da literatura etc e tal. Isso tudo eu já sei e não discordo.
Em seu texto, você diz: “Não aceito que se diga que “Ulisses” seja uma leitura difícil, nada mais claro e objetivo do que sua linguagem, talvez o que dificulte a leitura seja a riqueza intertextual da obra, no meu caso, como é curta a amplitude de outras leituras, me falta engenho e arte para melhor deleite”. Vamos devagar, né Belchior! Você é professor de Letras. Somos amigos e conversamos quase todos os dias e a literatura é um dos assuntos que sempre tratamos. Conheço, com intimidade, suas leituras e posso garantir que são as melhores que existem. Como, então, seria curta “a amplitude de suas leituras, o engenho e arte” para você desfrutar melhor do “Ulisses”? O buraco é mais embaixo, meu amigo.
A perenidade de uma obra de arte depende de muitos fatores. E o fato dela estar inscrita no cânone e ter sobrevivido a milênios não impede que um ou outro leitor a ache chata. Isso não significa que ela não tem importância ou seja uma grande obra. Onde está escrito que todos temos de achar a mesma coisa sobre um determinado livro ou obra de arte? Eu não abro mão de ter minhas próprias opiniões, mesmo que elas contrariem seja quem for.
2 comentáriosQuem?
“Complexo de inferioridade à parte, o que de novo o Brasil pode acrescer à literatura universal? Milton Hatoum parece já ter percebido isso; outros tantos ainda não - haja paciência para agüentar o volume de narrativas em torno dos velhos dilemas urbanos, pseudo-marginais (digo isso, porque a temática marginal de verdade continua justificada) que povoam as estantes das livrarias brasileiras.”
A pergunta do Paulo Scott é boa.
Deixe seus comentáriosLeituras do dia
Cinema caro por causa do etanol? O Calil explica:
“Por uma série de fatores interligados da cadeia econômica, a explosão do etanol do milho está elevando o preço da pipoca nos cinemas e, em última instância, também o dos ingressos de filmes. Funciona assim: 1) com a demanda crescente de milho para a produção de biocombustível, diminui a oferta do produto e aumenta seu preço, incluindo aí o da pipoca; 2) nas grandes redes de cinema americanas, o faturamento da venda de pipoca é usado para conter o preço do ingresso; se cai o lucro do primeiro, aumenta-se o valor do segundo. De acordo com uma série de notícias publicadas nos EUA, o problema já é uma realidade. A rede AMC Entertainment, do Kansas, anunciou que irá aumentar o preço da pipoca em 25 centavos e o dos ingressos, de US$ 9 para US$ 10.”
O Hanif Kureishi desancou bonito oficinas de criação literária. Podia ser menos cru, mas tem lá suas razões:
“Os cursos de escrita, especialmente quando envolvem a palavra “criativa”, são os novos hospícios. Uma das coisas que se nota é que, toda vez que ligamos a televisão e um estudante enlouqueceu com uma metralhadora em algum campus dos Estados Unidos, é sempre um aluno de um desses cursos. A fantasia é que todos os estudantes vão se tornar escritores de sucesso, e ninguém os desilude. Quando você usa a palavra “criativo” e a palavra “curso”, há algo de enganador nisso.”
Fiúza pergunta: E agora, Lula?
“Se a Anistia Internacional estivesse preocupada com os direitos humanos, e não em tomar posições ideológicas, não passaria (vergonhosamente) a mão na cabeça das Farc – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, guerrilha que utiliza os métodos humanitários por todos conhecidos. Outro que, meio dissimuladamente, mima as Farc é Luiz Inácio Lula da Silva. Agora com a revelação das cartas do líder Raúl Reyes ao presidente brasileiro, em reportagem de “Época”, espera-se que ele venha a público dizer, afinal, de quem é amigo. As cartas não têm um tom qualquer. O tom é de companheirismo, quase de bajulação, denotando uma relação de alta cumplicidade. De 2003 (data das cartas) até hoje, não se ouviu uma só palavra de reprovação de Lula às Farc. Se não quisesse essa cumplicidade, o presidente brasileiro deveria ter rechaçado publicamente o flerte político.”
Deixe seus comentáriosPalavras escritas à mão
Uma deliciosa crônica do Antonio Caetano, amigo do peito. Segue:
Perdera o hábito de escrever a mão. Nada além de bilhetinhos e lembretes, palavras esparsas numa letra apressada, quase ilegível, mais código taquigráfico do que exercício de caligrafia. Mas a esta hora, tinha de escrever a mão. Não poderia sujar o silêncio com o ruído regular do teclado.
A caneta deslizava pelo papel sem pautas. E em cada variação de letra, lia a presença de alguém. “Este é meu pai”, pensou, ao olhar o arremedo da letra bem talhada de escriba, redonda e calma, igual. Seu pai. Haviam feito em sonho um acerto de contas sentimental, de modo que podiam lembrar um do outro sem apuros ou culpas. Estranho mundo este, repleto e intenso, em que há coisas que se resolvem em sonho.
Outro dia, tentara lembrar o verso de um poema e escrevera “caos sangrento” em vez de “cosmos sangrento”, como no original: “Não conseguiu firmar o nobre pacto entre o cosmos sangrento e a alma pura”. Não demorou a perceber o quanto lhe custava admitir essa proximidade de sangue e ordem. Pensava a ordem como um princípio de simplicidade e economia que associava à paz. Mas era evidente que a indubitável beleza da vida e do mundo estava permeada de violência. Uma violência vital, sangrenta de seres devorando seres - que à alma pura talvez chocasse menos do que a violência premeditada dos homens. Mas ainda assim, violência. “Que ao menos não seja em vão o sangue que corre sobre o cosmos: a isso chamaremos de justiça.”
Era o correr desse sangue cósmico que fazia o silêncio imenso da madrugada: raros carros passando, o rumor longínquo de máquinas invisíveis, o estalar das coisas, uma ou outra voz, fiapos de música, passos ocasionais de alguém na rua, o vento. Até o frio do vento era som nesse silêncio. “O ressoar da vida em repouso velo como se a amada dormindo fosse” era um verso que só poderia ser escrito a mão. “Minha cama é o mundo e nela você é a vida que repousa sob a luz ambígua da Lua”, diria a ela, a amada, quando acordasse.
Em francês, o mar é feminino: La mer. Não sei se todos, mas ao menos este silêncio é feminino.
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