Arquivos de junho, 2008
Saartão
Tô cruzando o sertão. Meu sertão. Já ouvi aboio e tudo, o blues do saartão. Se os americanos tinham os espirituals nos campos de algodão à margens do Mississipi, o sertão tem o aboio, o canto mouro de tanger boi. Coisa linda. Qualquer hora volto. Vou rever a fazenda da avó-infância. Açude cheio, boi gordo, tejo-açu torrado e o mundo todo.
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Aaaaaaaaaaaah… Isso foi um bocejo. Puta preguiça. Eu sei que isso aqui anda às moscas. Mas depois de tanto tempo postando como se não houvesse amanhã (hahaha! Coisa do Bruno Nogueira), eu mereço um descanso. Estou cá, lendo meus livros, os que chegam e os que aqui já estavam, preso desde já em Diary of a Bad Year, do JM Coetzee, me recuperando de Fantasma Sai de Cena, do Roth, ouvindo uns discos antigos. É isso. Qualquer hora volto com a programação normal. Por enquanto deixo vocês com Amy Winehouse, num show realizado agorinha na África do Sul, e mais abaixo Sami Davis Jr, o maior de todos os comediantes americanos, em imitações avassaladoras.
Deixe seus comentáriosSobre Ruth
Só a inteligência me comove. Talvez por isso eu tenha, mesmo que de início com a atenção presa pela postura - nota-se de longe que de intelectual - gostado dela. Da feição, da sobriedade, da voz, do olhar, das opiniões e muito, principalmente por causa da discrição. Ruth Cardoso sempre foi uma espécie de Marieta Severo da política, na minha cabeça. Competente, discreta, inteligente e dedicada a sua arte. No caso dela, a intelectualidade sem afetação, o espírito público. Nunca a vi na vida, mas foi uma dessas pessoas por quem a gente se afeiçoa, como se por um simulacro que sabemos que não nos enganará, que será aquilo sempre.
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Divertidíssimo o texto de Ted Sazan, jornalista do Times sobre a vida de solteiro pós-trinta. Segue:
Em algum momento, há 50 milhões de anos, um estegossauro deve ter acordado de uma longa noite de sono e descoberto que o mundo estava em silêncio. Onde estava o brontossauro, seu companheiro de copo? Onde estava o tiranossauro, com quem ele saía para caçar? Onde estava o pterodáctilo, que o havia convidado para jogar bola? Todos haviam desaparecido.
Sinto-me da mesma maneira. Como solteiro, heterossexual e com 30 e poucos anos, estou em extinção. Vi meus companheiros sendo caçados, um por um, como baleias-azuis nas águas do Japão. E essa tragédia não esta sendo noticiada. Alguém deveria organizar um show beneficente, ou pelo menos gravar uma música beneficente, para nós, os Spurmos – Straight Proud Unmarried Men Over-30 (Orgulhosos heterossexuais solteiros acima dos 30 anos, em inglês).
Lembro-me do tempo em que eu e meus amigos vagávamos em manada como búfalos dominando as planícies do oeste americano. Mas nosso bando diminuiu e eu tive de baixar minhas expectativas. Não com as mulheres, mas com os homens. Por necessidade, passei a andar com caras de quem jamais teria sido amigo na universidade. Mas preciso de alguém para sair para beber.
Ao contrário do que se possam imaginar, as esposas dos amigos não são os inimigos dos Spurmos. Nós temos um inimigo diferente: os bebês. Os bebês em si não são um problema. É o que os bebês fazem com seus pais. Um amigo meu era uma lenda das festas. Agora, pai de duas crianças bebe um copo de chope com soda limonada e anuncia a saída do bar ás 9 da noite.
Solteiros heterossexuais acima dos 30 anos fazem do mundo um lugar mais interessante. Temos mais experiência que os de 20. Temos sabedoria, perspectiva e clareza. Por sermos solteiros não falamos de crianças. Só por isso já mereceríamos ser aplaudidos. Sem nós, jantares com os amigos morreriam.
Nossa contribuição para a economia não pode ser esquecida. Como trabalhamos há mais tempo, ganhamos mais e economizamos mais. Como não precisamos gastar nada com crianças damos suporte a muitas indústrias importantes: carros de luxo, champanhe, eletrônicos de ultima geração, restaurantes românticos e caros.
É um estágio da vida para ser encorajado. Podemos fazer o que quisermos, quando quisermos. Mais importante: lembra-se de todas as lindas mulheres que não lhe davam bola quando você tinha 20 anos? Se elas estiverem solteiras, com seus 30 e poucos anos, o desespero provavelmente terá baixado bastante seu nível de exigência para que você tenha uma boa chance.
2 comentáriosA verdade sobre a vida
Ah, tem esse papo todo de intelectual (haha!), escritor, livros lançados e coisa e tal, Dostoiévski na infância, Drummond no fim dela e Roth com Manuel Bandeira, filme europeu a dar com pau, Bobbio, Francis etc e tal. Acho bonito e não tem encenação. Mas na boa? Eu sou filho disso aqui também:
Cara, eu lembro de quando esse disco caiu em minhas mãos. Eu tava de férias em Natal, 1994, o disco marrom dos Raimundos. Eu lembro (quase consigo sentir o frio na espinha) de como era ouvir isso escondido dos meus pais, da baixaria, do chulo, da paulada distorcida, sem medo de ser pesado. O mundo assombrado, a Warner lançando cinco mil cópias por semana e o disco esgotando em dois dias por cada remessa. Putz, Raimundos era do caralho! Raimundos foi meu grunge, saca? Paixão sem fim, saudade daquela época.
Olha o naipe da presepada:
Nêga Jurema veio descendo a ladeira
Trazendo na sua sacola um saco de Maria Tonteira
E a mulecada avisou a rua inteira:
“Vem correndo que a feira já está pra começar”
“Mas olha as nuvens esse tempo não ajuda
Pelo menos as minhas mudas eu já sei que vão brotar”,
Dizia a Nêga quando vieram os soldados
Se dizendo avisados e começaram a atirar
Pois foi Antônio, filho de José Pereira,
Que no meio da bagaceira olhou pro céu e a rezar
Pediu pra Santo Antônio, São Pedro ou Padim Cícero
Ou pros filhos do Canisso que viessem ajudar
Foi no pipoco do trovão
Que se armou a confusão e ninguém pôde acreditar
Que aquilo fosse verdade, foi por toda a cidade,
Cresceu em todo lugar
Na igreja das alturas, barzinho, prefeitura,
No engenho de rapadura nasceu mato de fumá
E foi com a santa Malícia
que driblou-se a polícia
e fez a guerra acabar
FUMÊ FUMÁ
Não é flor de intestino é um matinho nordestino
que a senhora vai queimar
Faz um bem pra diarréia para o véio e para a véia,
faz o morto suspirar
Faz um bem para as artrites, febre ou conjutivite
Faz qualquer mal se curar
CUMÊ CAGÁ
BEBÊ FUMÁ
São as leis da natureza e ninguém vai poder mudar.
Roraima, o fim do mundo
“Do alto da ponte de concreto o homem aponta ameaçadoramente sua lança. A camiseta sobre a cabeça, que ele usa como capuz, e o escudo feito de plástico injetado fazem com que se pareça com um guerreiro medieval. Ao seu redor estão outros 30 homens, entrincheirados entre sacas de arroz, armadas com paus, espingardas, arcos e flechas. Estão ali para impedir que a Polícia Federal invada Vila Surumu, a porta de entrada da reserva indígena Raposa Serra do Sol. Mas seu alvo naquele momento não são agentes federais e sim o repórter e o fotógrafo da Playboy. Eles não querem ser fotografados e um deles ordena que os dois ergam os braços. A coisa não vai acabar bem.”
Eis um trecho da reportagem que escrevi para a Playboy de Junho. Pode ser lida na íntegra aqui.
Ps.: Cara, acho que depois disso tudo nos últimos dias, lançar livro, contas, correria e coisa e tal, eu ando com muita vontade de ócio, rs. E isso finda batendo aqui no site, que está quase às moscas, admito. Talvez eu esteja já inconscientemente guardando energia pra uma batalha (mais detalhes em breve) que se aproxima. Vai ser trabalho e cansaço dando no meio da canela… Quem sabe? QUalquer hora volto. Relaxaí.
Deixe seus comentáriosOh céus, oh vida…
É… eu também ficaria na maior dúvida…
Ps.: Qualquer hora a programação do Adeus Columbus volta ao normal. Segura as pontas aí que a correria essa semana promete. Vou ao dentista. Rezem por mim.
Deixe seus comentáriosHarakiri
Caramba, quem aí ainda aguenta essas matérias da Globo sobre os 100 anos da imigração japonesa, hein? Sacais, repetitivas. Quanto pagaram por isso? O pior que até agora não falaram nada do que eu mais gosto do Japão: Junichiro Tanizaki, a banda Toe e o harakiri. Quero ver isso no Jornal Nacional, isso sim é cultura japonesa:
1 comentárioTNX!
Caros, nem tenho como agradecer a todos que foram ao lançamento de Dias Estranhos. Fiquei muito feliz, foi uma festa bonita, encontro de bons amigos, bons papos. Sou muito grato a todos que se dispuseram. Aos que por algum motivo não puderam ir, o livro continua a venda na Siciliano do Midway Mall e do Natal Shopping, também na Kriterion do Mercado de Petrópolis. Mais uma vez: Obrigado! Fiquei bem emocionado com tudo que houve. E como quase tudo aqui finda em música (não em pizza), deixo pra vocês o clipe da música que fui de casa até a livraria ouvindo e marcou muito minha vida, lá pelo meio dos anos 90, Gentlemen, do Afghan Wigs. Qualquer hora eu volto, agora preciso descansar um monte. Abraços!
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