Arquivos de março, 2008
Provocações
“A era Lula foi boa para o Brasil. “Foi”, porque o próprio presidente acaba de anunciar o seu fim. Nunca antes na história deste país um presidente da República fez seu primeiro comício eleitoral com quase três quartos de mandato pela frente. A oposição pode tirar o cavalinho da chuva para 2010, anunciou ele, já de saída. Assuntos de Brasil? Tratar com doutora Dilma. Lula, o precoce, já está na estrada em busca do ponto D. O problema é que o ponto D começa a exalar certo cheiro de queimado. O Planalto admitiu que o “cadastro” dos cartões de FHC foi montado no governo mesmo. Ou seja: D, a companheira de armas, voltou à clandestinidade, desta vez dentro da Casa Civil. É a primeira trincheira oficial da história.”
Como é bom ler quem provoca com classe. Uma dica? Joguem seus Reinaldo Azevedo e Paulo Henrique Amorim fora. E fiquem com o Fiúza =)
Deixe seus comentáriosMemória Afetiva
Marcas da Violência, 2005, Cronenberg. A violência sem o retoque pop de Tarantino, crua, nua, fria, simples como um cano quente. A história de Tom Stall, que vivia uma vida feliz até se tornar herói. A adaptação da graphic novel original é caprichada na direção, na fotografia, no enredo e nas atuações, com destaque, claro, para Mortensen e William Hurt. Três anos, mas parece que foi ontem.
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- “Por ignorância de como o mundo funciona, o TSE cometeu um erro muito, muito grave. Não é à toa que o eleitorado jovem está particularmente engajado na eleição que corre nos EUA. Os candidatos estão se comunicando com eles pelo meio de comunicação que adotaram. No Brasil, não é diferente. Seja na casa de um rapaz de classe média, seja num cybercafé da periferia paulistana, estão todos com 25 anos ou menos pendurados nos Messengers da vida. A partir desta canetada, a juventude foi cortada do diálogo eleitoral.” O Pedro Doria, na coluna de hoje do Estadão, diz exatamente o que penso sobre a decisão do TSE de limitar a campanha eleital na internet ao site do candidato. Qual o problema? O problema é a justiça gerida e comandada por capengas, gente anacrônica, legalista, presas na letra da lei, que não olham ao redor, estão presos nos palácios ou o mundo é claro demais para que se possa abrir o vidro do carro, escuro como breu, e tentar entender como isso aqui fora funciona. Por exemplo, não funciona sem internet, mas eles, os operadores da lei, não se tocaram disso ainda.
- O radicalismo volta e meia ronda a Europa, e consegue, em alguns bolsões de radicalismo, encontrar abrigo. Foi assim nos últimos três séculos mais fortemente contra os judeus, agora o novo alvo de hostilidades são os islâmicos. A prova que estão na crista da onda do fundamentalismo de direita, é o Fitna, um programa que foi ao ar recentemente, via internet, patrocinado pelo partido de extrema direita holandês. É muita parcialidade e desconhecimento da história de uma só vez contra os islâmicos, mas cabe exato na cabeça de quem quer só um motivo para atacar indiscriminadamente os seguidores de Maomé.
- Essa história de que não se negocia com terrorista, narcoguerrilheiros e bandidos é balela. Diplomacia serve justamente para resolver oq ue o senso comum não se permite cogitar. A Inglaterra negociou com o IRA, a Espanha com o ETA e assim por diante. Então, por que Uribe não pode negociar com as Farcs?
- Tem coisa que dá para resumir em cinco segundos. Filmes, por exemplo. Há quem consiga fazer isso com Matrix, Titanic ou toda a série de Harry Potter. Já pensou?
- Eu tenho feito nos últimos dias uma analogia entre as TVs abertas brasileiras e as grandes gravadoras. Óbvio que a situação das majors é periclitante, mas acho possível traçar uma linha que liga as duas coisas pela inabilidade em saber o que fazer com a internet e os novos meios de entretenimento eletrônico. É estarrecedor, mas não sem motivo, saber que em três anos 20% dos cariocas abandonaram, simplesmente deixaram de lado a TV aberta. Imagina o que não rola no resto do país, pelo menos nos grandes centros.
- O lance foi da semana passada, mas ainda rende na blogosfera. A Dr. Peppers, refrigerante americano, anunciou que cada cidadão americano vai ganhar uma latinha caso o Guns’n Roses lance em 2008 o disco Chinese Democracy. Axl curtiu a idéia. Mas será que sai?
- O Cansei de Ser Sexy começa a sair do ponto, ser acometido (ou isso já faz um tempo?) pela frescuragem aguda. A banda agora quer ser esquecida, sim, esquecida como Cansei de Ser Sexy, eles cansaram de cansar, agora serão chamados apenas de CSS. É muita falta do que fazer. Isso tem muito a cara da purpurinada do Adriano Cintra.
- Certa vez um amigo me disse que o movimento Emo era mais abrangente do que o Grunge. Dei meus ombros e perguntei se ele estava louco ou tinha esquecido o que foi o grunge, o estouro do Nirvana, do Temple of the Dogs (e olhe que sou filhote do Britpop, não do Grunge). Mas a coisa parece ser bem verdade, pelo menos como fenômeno de massa. E no mundo inteiro, no México está dando o maior rebu.
- Quando eu morava em Caicó, uma cidade do interior do Rio Grande do Norte, na época com cinquenta mil habitantes, havia apenas uma banca de revistas, O Revistão (olha o nome!), aonde certas coisas demoravam alguns meses para chegar, aonde a Folha de São Paulo do domingo às vezes chegava na terça. Uma das coisas que sempre atrasavam era a Mad. Mas como era bom esperar e correr para ler ainda na calçada da banca. Pois é, a Mad voltou.
- Tem filme ue a gente assiste e não percebe sobre o que exatamente estão tratando. Ficção Científica, por exemplo. Quinze filmes que a gente nem suspeitava que eram…
- Há quem não saiba fumar direito. Depois alega que ficou paranóica.
- Bom, a informação foi dada pelo Thiago Ney, da Folha de São Paulo (que na maior parte do tempo serve apenas para repassar notícias legais, porque escrever mesmo não é sua praia, de tão ruim que é), parece que o Jesus and Mary Chain vem por aí. E no Planeta Terra, em novembro. Topa? Sinceramente, morro de medo de ver o show de uma banda que gosto muito e estava parada a algum tempo. Vai que é uma merda… Aí bate a desilusão sem dó.
- Bom… Eu já não tenho aonde colocar música. Preciso de um HD novo pro laptop, mais memória e outro pen drive. Mas sempre cabe algo novo, coisa de pesquisa audio-antropológica, eu diria. Como uma coletânea de música nigeriana. Sério, os caras são MUITO bons…
- Cadê meu povinho subdesenvolvido, cadê?
- A Suzana Elvas tem um monte de livro para vender. Pelo jeito ela é como eu, que conserva todos como se tivesse acabado de sair da livraria. Aliás, sabia que na Livraria Cultura se você compra um livro, pode reembolsar vinte por cento do preço de capa na compra de outro livro, num prazo de até três meses, caso esteja em bom estado de conservação? Bacana, né? Vou fazer isso, mas não sei com quais ainda. Preciso ler Thomas Barnheard e Comarc McCarthy.
- Você já viu as novas edições dos livros de Jorge Amado, da Cia das Letras? Muita, muita vontade de comprar todos de uma só vez (junto com a caixa dos livros de Borges). Tudo muito bonito, de bom gosto, reedições bacanas e por preços razoáveis. A Cia está investido quase um milhão de reais na divulgação dessas novas edições. Acho justo.
- A nova tendência é ser feio. Só pode.
- Você aí, já sentiu alguma vez a dor da Marrom?
- Meu herói ainda não morreu de overdose. AINDA.
- E para encerrar, um vídeo nostalgia, de quando Didi Mocó era uma das coisas mais geniais da TV Brasileira. Eu já disse que vou começar a campanha Eu Quero Meu Didi de Volta. Sim, o Didi aí de baixo, e não aquela do meio dia do domingo na Globo. Saca só:
1 comentárioPPCC?
“A cúpula do crime organizado quer ter representação política. Depois de entrar no tráfico internacional de drogas, o Primeiro Comando da Capital (PCC) quer se aproximar dos partidos políticos e financiar campanhas eleitorais. Seus líderes consideram que a ‘família’ pode garantir muitos votos aos seus escolhidos e têm capacidade de mobilização em 10 Estados.”
Pois é, a galera resolveu unir o útil ao agradável. Para eles, óbvio. Alguém precisa tomar cuidado com isso
Deixe seus comentáriosEnquanto vejo TV
O Brasil só será uma democracia plena no dia em que qualquer cidadão maior de oito anos puder dar voz de prisão a Fernanda Young.
Pronto, falei.
Deixe seus comentáriosAfro-mitologia
“Mas o que fundamentalmente distingue a umbanda é o culto aos pretos-velhos, que não existem no candomblé. E esses pretos-velhos são representações de espíritos familiares bantos, da área de Angola, Congo e Moçambique (África centro-ocidental e oriental), daí seus nomes: Vovó Conga, Pai Joaquim de Angola, Tia Maria Rebolo, Pai Joaquim de Aruanda. O candomblé vem do Benin, da Nigéria, da África ocidental.”
“E é tudo uma questão de procedência: o candomblé da Bahia é basicamente um produto de Quêto, um reino localizado no atual Benin, antigo Daomé; e a santería cubana vem de Oyó, um outro reino, de onde parece ter vindo, também, o xangô de Pernambuco, que guarda muito mais semelhanças com a santeria que com o candomblé, principalmente no destaque que dá ao culto de Orumilá ou Ifá, o grande orixá do saber, do conhecimento, dono do Oráculo, em torno do qual gravita todo o conhecimento sobre os outros orixás iorubanos (nagôs, lucumis, ijexás etc.), sua mitologia e a liturgia do seu culto.”
Nei Lopes, que é letrado e tem classe, dá aulas de negritude.
Ps.: Para quem se interessa pela tema e quer estudar com mais profundidade, um livro do qual gosto muito, tanto pelo sentido histórico como literário, é Mitologia dos Orixás, da Cia das Letras.
Deixe seus comentáriosMemória Afetiva

E aí, meu irmão, cadê você? Corria o ano 2000 e lá estavam Ethan e Joel Coen adaptando Homero (!!!) para o sul dos EUA, num road blues movie emocionante, divertido, com uma fotografia impecável e músicas que passaram meses ecoando na minha caixola. Eu tenho muito orgulho dos Coen. E de George Clooney, claro, que deixou o filme ainda melhor. Oito anos atrás.
Deixe seus comentáriosDossiê Pelicano
Luis Nassif, que neste fim de semana continua série de reportagens sobre a revista Veja, tece comentários sobre a origem e a função do dossiê/banco de dados montado com gastos realizados com cartões corporativos e contas tipo b no governo FHC. Não estou de todo convencido das observações feitas por ele, a partir de conversas com um jornalista amigo que atua em Brasília, mas vale como arcabouço e alicerce para aos poucos irmos tirando conclusões definitivas sobre o caso.
Ps.: Eu, como leitor de Veja, gostaria muito de ler um desmentido da revista, mas não só um desmentido, um desmonte da tese que Nassif vem apresentando na série de reportagens sobre a banda podre da publicação. Mas não é o caso, Veja não vai responder e sinceramente, tudo que Nassif vem mostrando é crível demais para ser desmentido com simples achaque. A revista vai mal. Bom para o leitor, que se inteira de como realmente opera o jornalismo brasileiro.
Deixe seus comentáriosMondo Cane
“Musas do funk selam a paz em churrascaria carioca”
A Terra é certamente um dos lugares mais bizarros do universo. E eu tenho medo disso, igualzinho a Regina Duarte do Lula.
Deixe seus comentáriosRevolução no andar de baixo
A oposição ao governo Lula tem dois caminhos: ou parte para um projeto pós-Lula e não anti-Lula, apresentando em 2010 um plano de governo e poder que assumam o que é fato (a manutenção da política econômica e a ampliação dos programas sociais estão mudando o país) e ampliem o que é bom para o povo, seguindo a tese de Aécio Neves - vejam bem, a tese, não necessariamente a candidatura -, ou saltita no bate boca sem fim e na incapacidade de dialogar com a sociedade. A sociedade que sente na mesa e na casa que algo está mudando e para melhor. Sob o risco de conseguir dois dedos de prosa apenas com a classe média espremida entre impostos e arrocho salarial. Um terceiro caminho, que parece medo de assumir o óbvio, é achar que é tudo sorte do presidente. Já a imprensa, seria tão bom que refletisse sobre o modo ridículo como vem fazendo a cobertura política (dividindo-se entre “reinaldazevedianos” e “paulenricamorinianos”)… Afinal, fato é fato, não se desarma com falsos argumentos. Que o diga o Gaspari, em sua coluna de hoje, na Folha de SP, que reproduzo abaixo.
O Boston Consulting Group apresentou uma idéia à praça: há 1 bilhão de novos consumidores prontos para serem atendidos pela economia mundial. A maior parte desse mercado está na China, na Índia e no Brasil. Ele começa logo acima da linha da pobreza e acaba no início da classe média. São pessoas que estão fora do radar de muitas companhias e deverão provocar mudanças na economia mundial. Pode-se arriscar que sejam semelhantes às que ocorreram na Europa nas duas décadas seguintes ao fim da Segunda Guerra.
No Brasil, esse mercado tem 120 milhões de fregueses, com renda familiar inferior a R$ 1.200 mensais. Eles produzem perto de um terço da renda nacional e ficam com metade do consumo, cerca de R$ 200 bilhões anuais. Uma família típica gasta 78% do que recebe em casa, comida, transporte, saúde e telefone. Sobram 22% para ir às compras. No topo do grupo, o excedente chega a 50% da renda. É um dinheiro que começa a mudar o perfil da produção nacional. De cada 10 brasileiros que fazem parte desse mercado, 6 trabalham na informalidade e 8 recebem seus pagamentos em dinheiro. Mesmo assim, gastam R$ 28 bilhões por ano com prestações e 1 em cada 2 acredita que poupará mais no ano que vem.
Esses brasileiros estão um pouco melhor que os europeus do início da segunda metade do século passado. Como as coisas por lá foram de bom a melhor, aconteceram situações incríveis. Em 1950, na Alemanha, venderam-se 900 mil pares de meias de náilon para mulheres. Quatro anos depois, as alemãs compraram 58 milhões de pares de meias. A explosão do consumo europeu levou o escritor comunista Roger Vailland a dizer que os franceses não precisavam de geladeiras, um “símbolo da mistificação” americana.
“Nova classe média”, “turma do bilhão”, “neo-emergentes” ou seja qual for o nome que se dê ao fenômeno, ele está aí para mudar muita coisa. Não é à toa que grandes empresas começaram a mergulhar na periferia das grandes cidades e que o Banco Azteca (capitais mexicanos) abriu no Recife sua primeira agência sem exigência de renda para abrir conta, nem cobrança de tarifas. Ele opera acoplado a uma loja de móveis e aparelhos domésticos.
Do ponto de vista dos negócios, quem não olhar para o andar de baixo ficará com um mico. Do ponto de vista político, seria muito simples supor que essas famílias são devotas de Nosso Guia. Podem não ser, mas foi no governo de Lula que o crédito se expandiu e sobrou mais salário no fim do mês.
Deixe seus comentáriosPara gosta de ler
“Anestesiei-me, dissolvi-me por algum tempo nos ‘Demônios’. Quando voltei, não quis ler mais nada por algum tempo, porque tinha certeza de que mergulharia em enorme decepção, em um terrível abismo. Recusei-me durante semanas a qualquer leitura. A enormidade dos ‘Demônios’ me fortalecera, mostrara um caminho, me dissera que eu estava no caminho certo: para fora. Tinha sido afetado por uma literatura selvagem e grande, e dela emergi eu próprio como herói”
Deixe seus comentáriosEruditismo por uma questão de classe
“Negar o interesse dos sons industriais é tão decadente quanto a pressuposta decadência da cultura pelo viés da inserção das máquinas em nosso dia-a-dia. O que declina não são os novos meios, mas os velhos fins. Se mudarmos os fins, os meios podem ser potencializados, isto sem falarmos que os próprios meios podem servir como agentes de tal mutação.”
“O essencial dessas minhas colocações não reside na palavra “gênios”, mas antes nas palavras que localizam a suposta genialidade como pertencente a tal ou tal esfera de atuação musical. Dentro de certos parâmetros, há de se admitir que certos criadores ultrapassam as medidas mais convencionais e arriscam uma mais profunda elaboração da invenção, mas no mesmo texto afirmo que “duvido em essência que a genialidade em arte não passe igualmente pela opção quanto ao próprio âmbito de atuação lingüística do artista”.”
Flo Menezes destila erudição. E é bom no que faz.
Deixe seus comentáriosCotidianidades
“Ilusão é acreditar que a pessoa que não gosta de você irá brindá-la com seu desprezo. Bobagem. Ninguém é mais fiel do que o desafeto. Ele vê tudo o que você faz, acompanha seus passos, lê tudo o que você publica. O desafeto é um escravo indesejado mas ele está sempre lá, preso pelo cordão de inveja que atou a você. Ele é mais assíduo do que seus amigos, seus pares, seus fãs. Porque o desafeto é apenas um fã que odeia te amar. Mas ama do mesmo jeito.”
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