Arquivos de fevereiro, 2008
Caos
Ontem às seis da tarde na Estação da Luz o mar de gente foi aperitivo. Hoje o inferno deu-se de fato. 216 km de engarrafamento. E eu preso por uma hora e meia num percurso que costumo gastar 10 minutos. Caos, total.
Deixe seus comentáriosThe Incredible
A Empire caprichou na matéria sobre o novo Hulk.
Ps.: Bateu uma puta nostalgia de quando eu assistia O Incrível Hulk à tarde na TV Manchete. Alguém mais lembra disso?
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- Um livro do Junichiro Tanizaki, o maior e melhor romancista da literatura japonesa moderna, eu guardo com especial afeição. É Há Quem Prefira Urtigas, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Muito pelos relatos detalhados dos teatros de bonecos japoneses, do ritual que existia (acredito que com mais riquefifes antigamente) no ato de assistir as peças, e como aquilo resumia muita coisa da cultura japonesa, já que incluía preceitos morais, música, tradições orais e religiosas. Um primor. Agora vou poder assistir um desses espetáculos pessoalmente, o Yukiza, um das principais modalidades dessa arte dramática, que fará apresentação em São Paulo.
- Norman Mailer, segundo Gore Vidal, seu maior algoz, descuidou-se do grande jornalista que era e tornou-se um romancista horroroso. Concordo, pelo menos baseado nos romances dele que li. Mas era um bom pensador, provocava, às vezes com classe, noutras com golpes abaixo da cintura. Uma voz americana para ser ouvida, sempre. Mesmo depois de morto. Por isso vale a pena comprar o livro O Grande Vazio, lançado recentemente, onde em diálogos com o filho, Mailer disseca do pôquer aos grandes dilemas da América, como o dualismo político, a saturação dos costumes e por aí vai.
- Courtney Love quando perde a classe fica hilária. Escrevendo sobre o Foo Fighters então… Aliás, sobre o que escreveram sobre o FF. Total hate!
- Da série de shows do Wilco em Chicago (meu nome é inveja) um deles já pode ser baixado. Faça isso. Vale muito a pena.
- Isso é surreal. Eu teria um surto a cada dez minutos vivendo assim. E você?
- E aí, tio, me paga uma tapioca com seu cartão corporativo?
- E as múmias do Mosteiro da Luz, hein? Tem palpite para todos os gostos. Eu fico com o desejo, descoberto agora debaixo de sete palmos.
- Boas notícias do mundo pop chegando do Nordeste. Por partes, como Jack. O Abril Pro Rock que já tinha confirmado New York Dolls, Helloween e Gamma Ray na programação da edição 2008, agora anuncia a quase lenda Júpiter Maçã. Ou seja: imperdível e antológico. O Hugo Morais, lá de Natal (RN) fez uma apresentação bacana sobre o Júpiter para quem precisa conhecer um pouco mais da banda.
- Confirmado: vai rolar a primeira edição do Festival NE Indie, simultaneamente nalgumas cidades da região. Faz um tempo que a cena do Nordeste vem se organizando e acho que um festival assim dá um pouco de idéia de como é possível se mobilizar fora do mainstream usando ferramentas alternativas de divulgação. Aliás, tem até coletânea do evento todo disponível para download. Dicas por minha conta e risco: Barbiekill, Sweet Fanny Adams, George Belasco e o Cão Andaluz, The Dead Superstars e The Sinks.
- Eu acho que zoação tem limites. E o meu limite é bem elástico em relação a humor negro, escatologia etc. Gosto de Jackass, sou fã de Steve-O e Wildboyz, acho Bull Fighting demais para o meu laquê. Passado o nariz de cera, vamos ao principal: eu sempre curti o Bonde do Rolê (apesar de achar o hype deles na gringa desmedido) a tiração de onda de branquelos indies e bem nascidos fodendo o funk carioca com riffs de rock etc. Mas para tudo há um limite. O meu em relação a banda aconteceu na seletiva que escolheu as duas novas vocalistas. Passou muito do meu aceitável. Não gostaria de ver isso num palco. Por isso leia-se alguém enfiar um bife no rabo. Na boa? Atitude zero. GG Allin fazia isso muito melhor.
- É bom ficar de olho nos debates entre Hillary e Obama. Como diz o JM Salles, “a eleição americana é tão importante que todo o resto do mundo deveria votar”.
- Na Rússia também tem eleições. E uma análise estupenda sobre a Era Putin.
- Para encerrar o assunto eleições, eu votaria com muito prazer em Soninha. Se houvesse como transferir meu título de Natal/RN para cá, São Paulo, o faria amanhã ainda.
- Persépolis. Não esqueça esse nome. Compre o livro. Leia a resenha.
- Música, até dizer basta. Que eu cansei de escrever. By Matias.
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Foi mal aê não atualizar direito esses dias. Ando bem ocupado (com coisas boas =P), enfim, qualquer hora volto com cositas nuevas. Por enquanto, sacaí:
- Bacana: o Pedro Doria linkou o Adeus Columbus no site dele, falando sobre a Mallu Magalhães. Aliás, a Mallu vai estar na Rolling Stone do mês que vem (a que terá os Cavalera na capa). Já caiu na rede um vídeo dela cantando Anyone Else But You, tema de Juno, duranta a entrevista. Cool. Hype it!
- Por falar em Mallu, o Zé Flávio Jr. contou na comuna da Bizz no Orkut que o produtores/empresários da Mallu já se reuniram com quatro empresários de grandes gravadoras no Brasil. Mas o que dizem é que a menina vai ficar com a DeckDisc. Hum… =/
- Ah, o Zé Flávio, junto com o Paulo Terron e o Ronaldo Evangelista estrearam um podcast bacana.
- A Maxim, revista americana britânica de comportamento pediu desculpas por ter resenhado o próximo disco do Black Crowes sem ter ouvido. Justo, né? Sem ouvir eu não sei, mas tem neguinho que adora resenhar com uma puta má vontade, que para mim é equivalente.
- Ontem na Estação de Metrô da Luz, às seis da tarde, eu realmente me assustei com o mar de gente da Paulicéia Desvairada. Depois fiquei sabendo que vai piorar.
- Eu jamais conseguiria fazer ISSO.
- Ensaio bacana do CSS na NME =)
Volta aí depois, qualquer hora apareço.
1 comentárioA Vida dos Outros
A Vida dos Outros, filme alemão que venceu o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007, é do ponto de vista político um libelo contra a arbitrariedade que uma ideologia - no caso o socialismo - pode imprimir na vida das pessoas. Isso quando levada às últimas conseqüências de um projeto que foge, por ser guiado por humanos e passível de vícios e erros, do rumo pretendido como ideal. A extensão mensurável do estado de horror vivido especialmente por intelectuais da Alemanha Oriental (principal argumento do filme) pode ser observada sob vários aspectos, um deles torna-se meio de protesto do dramaturgo e escritor Georg Dreyman, interpretado por Sebastian Koch: o suicídio. A negação da vida e há quem diga da liberdade se inverte e toma um aspecto de morte da esperança, justo por não haver direito a uma vida, sequer a mínima liberdade. É sintomático do sistema em que essas pessoas estão inseridas. Essa violência se dá como fruto do sectarismo primitivo que passa em determinada altura a funcionar em prol de uma máquina partidária muito mais do que de idéias políticas, sufocando o cidadão comum, podando o criativo e tornando quem serve a essa máquina, bestial e sádico, com raras exceções, como se fosse uma linha de montagem, tal qual o socialismo tanto execra. É sobre essa possibilidade de exceção alimentada por uma fagulha de humanismo que o diretor Florian Henckel se debruça dando vida a um dos personagens mais instigantes do cinema europeu dos últimos anos, Gerd Wiesler, interpretado pelo soberbo Ulrich Mühe. Wiesler é um agente da polícia secreta alemã que por motivos a principio aleatórios torna-se espião da vida de Dreyman, abrindo dois caminhos: a fidelidade canina ao sistema apodrecido ou o resgate do que possa existir de dignidade na sua vida burocrática, que pode em determinado ponto da história salvar vidas, mesmo que haja um preço alto a ser pago por isso. Há ainda uma citação sutil e alegórica de um episódio bíblico, o da cobiça do Rei Davi sobre a mulher de Urias, Betseba, levando a sua força de rei a voltar-se contra um simples soldado do seu regime.
Das Leben der Anderen, 2007, Florian Henckel.
Deixe seus comentáriosNa Natureza Selvagem

Nós aqui nessa vidinha besta, filhos de Deus nessa canoa furada, por mais que exemplos surjam ao redor vez por outra nunca temos dimensão exata do limites que o ser humano pode imprimir à vida. É esse redimensionamento do que é liberdade que faz com que Na Natureza Selvagem, o melhor trabalho do ator Sean Penn como diretor, arrebate o público. Mesmo com um enredo às vezes claudicante, que segue jogando no colo do espectador peças de um subjetivo quebra-cabeça. A história verdadeira do jovem Chris McCandless, interpretado por Emile Hirsch, nos dá outra noção de liberdade e obstinação, e como não há nada sem um preço, também de egoísmo. Há vários referenciais que podem resumir o desapego de Chris - que chegou a criar uma nova identidade, Alex Supertramp, para completar a sua nova história - à vida comum. Um deles talvez faça mais sentido para quem viveu a o início da juventude na mesma época. É o que traça uma improvável relação entre a emotiva trilha sonora de Eddie Vedder e a vida de Alex. Vedder, ícone do movimento grunge, o mais importante de rock da década de 1990, complementa nas letras e melodias fortes o sentimento de liberdade que impulsionou Alex a largar a família, o futuro promissor, a irmã a quem protegeu desde cedo para se embrenhar numa viagem ensandecida até o Alasca, por motivos até hoje pouco palpáveis. A largar inclusive a tentativa, sem muita importância diante do que ele se propôs a viver, é verdade, de compreender a liberdade almejada num disco do Pearl Jam, banda de Vedder, ali pelo início dos anos noventa, a mesma época da aventura que deu origem a um livro e ao road/walking movie. Compreender a liberdade que só ele parece ter concretizado se integrando de fato à natureza selvagem.
Into The Wild, 2008, Sean Penn.
Deixe seus comentáriosSenhores do Crime
Uma frase lançada para Anna, a protagonista de Senhores do Crime interpretada por Naomi Watts, pode funcionar como gancho para compreender o tipo de relação sobre as quais o filme versa. À certa altura a mãe dela crava: “nós somos pessoas normais”. Por normal entenda-se uma família que se sustenta em laços combalidos, alimentando uma esperança vaga de quietude. Mas é a anormalidade de costumes, de códigos sociais e de conduta que interessa ao diretor David Cronenberg, em mais um filme merecedor de muitos aplausos, como foi Marcas da Violência. A dimensão do que é normal e anormal vai ficando clara quando Nikolai, interpretado pelo excelente Viggo Mortensen, Kirill, vivido por Vincente Cassel e Semyon, na pele de Armin Mueller, desdobram para o espectador as suas motivações, o que de fato rege as suas vidas, que mesmo quando aparentemente se igualam aos normais, estão apenas exercitando a capacidade de proporcionalmente inversa maneira esconder o conjunto de regras a que estão submetidos por escolha ou herança, enfim o que forma suas identidades. São relações intrínsecas e ritualísticas que em muito lembram costumes tribais. Coisas que obviamente conflitam com a noção de humanidade a que estamos acostumados. O sentimento de humanidade que liga, por exemplo, Anna a Nikolai e antes disso a Christinne, órfã de Tatiana, interpretada por Sarah-Jane Labrosse, a jovem russa que deixa seu país em busca de uma vida melhor em Londres e finda caindo nesse círculo alheio, anormal para todos os nossos padrões, movido por Nikolai, Semyon e Kirill, membros de uma das mais violentas vertentes da máfia russa. Inclusive nos limites largos de tolerância com a violência. Eis a marca de Cronenberg: a impiedade mostrada crua, nua, como jamais esperamos encontrar num ambiente tão familiar, normal. Inclusive no clímax do filme, numa improvável sauna, onde eles, os senhores do crime, têm por costume resolver seus negócios.
Eastern Promises, 2008, David Cronenberg
Deixe seus comentáriosSobre a festa do Oscar
A cerimônia do Oscar 2008 não fugiu do tédio de sempre. Cheguei a comentar antes do início que a julgar pela cafonice vista nos anos anteriores e a incapacidade dos apresentadores - quase sempre comediantes ótimos em seus programas de TV, mas que não conseguem emular a mesma verve durante a entrega da estatueta - seria melhor a greve dos roteiristas ter se estendido até ontem e a festa se resumisse a premiação dos vencedores depois de lida uma lista burocrática.
O que importa são os filmes, a qualidade dos que concorreram este ano, a festa em si é dispensável, muito embora não tenha sido de todo graças a crueldade de Jon Stewart, que golpeou republicanos e democratas com graça, entre outras piadas de menor humor com os próprios concorrentes. No mais, concentremo-nos no principal: é o melhor Oscar, em termos de concorrentes, dos últimos dez anos. Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez sozinhos já justificariam a afirmativa.
Os irmãos Coen foram recompensados por uma filmografia que apesar de irregular, quando acerta é capaz de produzir filmes estupendos, vide Onde os Fracos Não Têm Vez. Sobre o filme que levou mais estatuetas, uma coisa passou em branco, obviamente por ser um prêmio de cinema e não de literatura, mas é bom lembrar que é o que é não apenas pelo talento dos irmãos, mas sobretudo pela fidelidade com a qual adaptaram o romance No Country For Old Men, de Comarc McCarthy, um dos três melhores escritores americanos vivos.
A previsibilidade dos outros prêmios (mesmo com a relativa surpresa de ver Tilda Swinton premiada pela atuação em Conduta de Risco e Marion Cotillard por Piaf, um filme falado em francês) como Daniel Day-Lewis e Javier Bardem vencedores nas categorias de melhor ator e melhor ator coadjuvante pode tirar o brilho da festa cheia de piadas para americanos e que este ano não se rendeu ao discursos panfletários, mas confirma o que vem sendo desenhado nos últimos cinco anos: a renovação dos padrões e critérios da premiação, o diálogo que as recentes produções de jovens diretores vêm travando com o modo épico de fazer cinema entremeado pelo arejamento de produções independentes como Juno.
Os cinco filmes principais ganharão mais salas para serem exibidos agora com os prêmios fazendo propaganda por si só, mas independente disto merecem ser visto, pois são o retrato das pedras lapidadas que o cinema americano, englobando britânicos, espanhóis, franceses e quem mais se dispuser a fazer bons trabalhos, é capaz de produzir no meio de tanto lixo. E a real é: não existem filmes americanos, brasileiros, europeus, existem filmes bons e filmes ruins, e o Oscar deste ano estava cheio de filmes ótimos.
Deixe seus comentáriosAnd the Oscar goes to…
Bom, aqui vai minha listinha (de desejo, não de aposta) para o Oscar 2008.
Melhor ator
Daniel Day Lewis (”Sangue Negro”) =)))
Melhor ator coadjuvante
Javier Bardem (”Onde os Fracos Não Têm Vez”) =))
Melhor atriz
Ellen Page (”Juno”) =/
Venceu Mariot Cotillard
Melhor atriz coadjuvante
Cate Blanchett (”Não Estou Lá”) =/
Venceu Tilda Swinton
Melhor filme
“Sangue Negro” =)
Venceu Onde os Fracos Não Têm Vez =)
Melhor filme de animação
“Ratatouille” (Brad Bird) =)
Melhor diretor
Ethan e Joel Coen (”Onde os Fracos Não Têm Vez) =)))
Melhor direção de arte
“Desejo e Reparação” =/
Venceu Sweeney Todd
Melhor fotografia
“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” =/
Venceu Sangue Negro
Melhor figurino
“Desejo e Reparação” =(
Venceu Elizabeth, A Era de Ouro
Melhor edição
“O Escafandro e a Borboleta” =(
Venceu O Ultimato Bourne
Melhor maquiagem
“Piratas do Caribe - No Fim do Mundo” =(
Venceu Piaf
Melhor trilha sonora original
“Desejo e Reparação” (Dario Marianeli) =))
Melhor edição de som
“Transformers” =(
Venceu O Ultimato Bourne
Melhor efeito especial
“Transformers” =(
Venceu A Bússola de Ouro
Melhor roteiro adaptado
“Onde os Fracos Não Têm Vez” =)
Melhor roteiro original
“Juno” =)))
Deixe seus comentáriosOs EUA e o mundo
“Me parece óbvio que os EUA não podem lutar sozinhos por todas as questões de interesse do Ocidente. Assim, duas conclusões são possíveis. Uma é que não há qualquer interesse ocidental na região, aí não lutamos. Outra: há interesses do Ocidente, então temos que lutar. Quer dizer, precisamos de mais tropas da OTAN no Afeganistão. A esta altura, no ano que vem, teremos um novo governo nos EUA. É aí que descobriremos se o governo Bush era a causa ou o álibi dos desentendimentos entre Europa e EUA. Hoje, muitos europeus se escondem atrás da impopularidade de Bush. E seu governo realmente cometeu muitos erros no início.”
Kissinger, o Golbery americano (para trocar em miúdos) elevado à décima potência, fala.
Deixe seus comentáriosLeitura de domingo
- “Filme açucarado, com cachorro, menino e judeu já não garante prêmio algum na cerimônia (vide a violência de concorrentes deste ano como Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez). (…) A lista dos cinco principais concorrentes é composta por uma obra-prima (Sangue Negro, com oito indicações), um filme excelente e muito acima da média (Onde os Fracos…, também com oito indicações), dois ótimos filmes (Conduta de Risco e Desejo e Reparação) e um legítimo representante da produção independente que conseguiu pelo segundo ano (para lembrar de Pequena Miss Sunshine) emplacar um título bem produzido, bem dirigido e com ótimo roteiro, Juno, de John Reitman.”
Matéria especial minha lá na Tribuna do Norte, Natal/RN.
Ps.: Tem também a resenha do livro Mãos de Cavalo, do Daniel Galera, no portal NoMinuto.
2 comentáriosAinda Cuba
Texto do Elio Gaspari, publicado originalmente na Folha de São Paulo.
Ninguém sabe o que vai acontecer em Cuba, mas o castrismo poderá chegar a um estágio superior do socialismo, o velho e bom capitalismo.
O que vem sendo chamado de “transição” será uma saída do fracasso em direção a alguma coisa que, por enquanto, não se sabe o que é. Cada um pode exercitar a própria imaginação para conferir, no futuro, a qualidade de suas suposições.
O caminho chinês do stalinismo de mercado poderia começar pela transformação das bases militares cubanas em zonas especiais de livre iniciativa. Teria a vantagem de empregar a soldadesca que ficará sem ter o que fazer. Há uma proposta de conversão da base americana de Guantánamo, o terceiro melhor porto da ilha, numa dessas zonas livres. (Acabar com o DOI-Codi de Bush é o sonho dos três candidatos a presidente dos Estados Unidos.)
A rota chinesa preserva algum poder para a máquina do Partido, mas sua adoção pura e simples tem muitos obstáculos. Um deles é o das indenizações das empresas e dos cidadãos americanos que tiveram suas propriedades confiscadas pelos comunistas. É um patrimônio de US$ 3 bilhões, com 6.000 pleitos. A tradição ensina que essas indenizações acabam sendo negociadas por algo entre 10% e 50% do valor. Na República Tcheca, os expropriados receberam títulos da dívida pública.
Na Rússia, os imóveis e as empresas foram convertidos em papéis que enriqueceram os hierarcas da produção soviética. Os apartamentos da melhor nomenklatura ficaram para os moradores. Alguns chegam a valer US$ 1 milhão e o neto do chanceler Molotov vive da renda de um imóvel alugado a banqueiros americanos.
Há 1 milhão de cubano-americanos que se intitulam donos de empresas, fazendas e imóveis confiscados. Estima-se que surgirão cerca de 100 mil litígios. Resolvê-los pode parecer uma volta ao passado, mas será uma chegada ao futuro.
Um exemplo do que o capitalismo pode fazer por Cuba:
Imagine-se Arsenio, o herdeiro de um casarão que ocupa 2.000 metros de terreno na avenida Salvador Allende. O palacete tornou-se um pardieiro onde vivem dez famílias. Uma comissão do governo cubano avalia o lote em US$ 500 mil. Arsenio poderá receber um papel com esse valor de face, mas só assumirá a propriedade se tirar as dez famílias do local. Como ele mora em Miami e nenhum cubano será expulso do lugar onde mora sem ter para onde ir, o título vale o que alguém estiver disposto a pagar.
Compay, um corretor de imóveis de Miami que tem bons amigos no Partido Comunista, decide comprar a propriedade por 10% do valor do título. Arsenio embolsa os US$ 50 mil e vai em frente.
Compay junta mais uma caixinha de US$ 25 mil dólares para lubrificar suas negociações e vai para Havana. Oferece um apartamento de dois quartos e sala a cada uma das dez famílias. Constrói as residências num outro bairro e gasta, no máximo, US$ 200 mil.
Demolido o casarão, o corretor ergue um edifício de oito andares com 16 bons apartamentos de quatro quartos e sala. A obra custará uns US$ 500 mil. Ele vende cada apartamento por US$ 100 mil a estrangeiros e fatura US$ 1,6 milhão. Nas duas obras, empregará cem cubanos por um ano. Beneficiado por um programa de incentivo à construção civil e outro de estímulo a habitações populares, paga só US$ 25 mil em impostos. Tendo investido US$ 800 mil, Compay realizará um lucro de 100%.
Na outra ponta do negócio está Wim, um carteiro aposentado que mora em Miami, num apartamento de dois quartos e sala. Ele vende sua propriedade por US$ 400 mil e vai viver em Havana, no prédio de Compay.
Todo mundo ganha. Arsenio fatura US$ 50 mil com um casarão que nunca viu. Vinte amigos comunistas ganham, numa só tacada, algo como um ano de salário dos dias de hoje. Os moradores do cortiço tornam-se proprietários de apartamentos que valerão uns US$ 20 mil cada um. O carteiro aposentado vai morar no dobro do espaço, com US$ 300 mil no bolso. Se Compay voltar para Miami com metade do que lucrou, ainda assim, entraram na economia cubana cerca de US$ 500 mil, o hipotético valor inicial do pardieiro inútil.
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