Adeus Columbus

Arquivos de janeiro, 2008

Nem fodendo

Começa nesta sexta (dia 1º de fevereiro) a venda de ingressos para os shows de Bob Dylan em São Paulo. O cantor se apresenta nos dias 5 e 6 de março no Via Funchal. De 1º a 8 de fevereiro, as vendas são exclusivas para clientes Mastercard. Os preços são:

Platéia VIP: R$ 900

Platéia 1: R$ 700

Platéia 2: R$ 500

Platéia 3: R$ 400

Platéia Lateral: R$ 250

Mezanino Lateral: R$ 500

Camarote: R$ 900

Todos os lugares são sentados.

Nota da Redação: Foi uma das coisas mais abusivas que vi na vida. Até para o público paulistano os preços são proibitivos. O pior é saber que no tal camarote vip (Deus do céu, um show de Bob Dylan com platéia sentada!) a maioria não vai saber cantarolar nenhuma música. É isso. A história de um show que eu ia contar para os netos.

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Piada

Fidel foi reeleito.

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Não Por Acaso

Talvez a frase não tenha encontrado - perdida como a proferi entre tantos assuntos mais amenos - um abrigo na nossa conversa, ali ao pé da porta que dá para o quintal onde tecemos comentários bobos sobre os varais e as plantas. Ou ainda a confissão do medo e da vertigem que a cidade me causa com sua forma indefinida, a ausência de horizonte e seus movimentos pastosos como um monstro surrealista, tenha se dissipado quando segura e convincentemente ouvi que “logo passa”. Não tenho porque duvidar.

O que de maneira alguma aplaca a horrenda sensação de estar, por mais conhecedor que eu possa ser dessas ruas próximas a casa, completamente à mercê do inimaginável, o improvável à espreita quando viramos a esquina. Pode ser o caso de abstrair, mesmo eu não tendo idéia do que isso signifique. Quem sabe um eufemismo para anestesia moral. Algo inominável a priori, mas que me faça ler as manchetes estampadas no jornal e não consiga ficar atônito.

O que eu penso é como se o exato instante em que deixamos a porta e nos dirigimos à cozinha procurando um pouco mais de comida disparasse o gatilho que deu início a um festival de sangue e horror, embaixo da marquise de um bar qualquer apinhado de inocentes, do outro lado da cidade, mas não tão longe assim. E pouco depois, quando uma das meninas, aquela que usava echarpe estampado com motivos andinos, se aproximou e perguntou sobre o que conversávamos, e ficamos horas extasiados, descrevendo os personagens dos romances de Philip Roth que mais gostamos, algumas pessoas tenham tentado se livrar do carro que invadiu a calçada e pôs a baixo a parada de ônibus.

O que se configura realmente incompreensível são essas manifestações dualistas e completamente opostas que a vida põe lado a lado, numa relação ininteligível de tempo e espaço, separados por um naco qualquer de proteção divina ou puro acaso, capaz de definir assombrosamente quem vai permanecer fazendo uma explanação apaixonada de que David Kepash é um protagonista mais profundo do que Zuckerman, e quem, entre os segundos que encho o copo com um pouco mais de cerveja, vai espatifar o que ainda resta de vida sangrando numa calçada.

Uma calçada como aquela por onde caminhamos em grupo procurando táxis, já no fim da noite e debaixo de uma incessante garoa. Um trajeto bastante o suficiente para irmos de Roth a Dylan em segundos e quando menos esperamos estávamos falando de folk, Nick Drake, Sufjan Stevens, Josh Rouse, nada, absolutamente nada que dissesse respeito ao fim das coisas, ao modo brusco como a vida, às vezes, define assombrosamente quem vai encontrar um táxi e chegar em casa em menos de dez minutos, e quem, entre os segundos que pago a corrida, não teve tempo de se livrar do carro que invadiu a calçada pondo fim a um punhado de vidas. A nossa segue. Ei-la assombrada.

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Disco

Jimi Hendrix e B.B. King juntos. Você já tinha ouvido falar desse disco? Foi gravado no Generation Club, em Nova York em janeiro de 1968. Baixe aqui.

Nota da Redação: Infelizmente o link do disco expirou. Vou tentar encontrar outro.

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Feito lâminas

“Entre a cegueira e a lucidez me pergunto se esse olhar que meus olhos vêem é mesmo olhar ou são apenas seus olhos se perguntando o porquê do meu olhar mrgulhando sem pedir licença na imensidão do seu.”

Dom Mario I, Imperador dos Dantas e dos Cavalcanti, em Cidade dos Reis.

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Lucidez

Repassando 2007 mentalmente, me vieram à cabeça as seguintes tendências no campo da literatura, umas novas, outras que só confirmam as observadas nos anos mais recentes:

1. A proliferação de Flips, Flaps, Flops, Baladas e Copas Literárias, e até Raves Culturais, nas quais a literatura aparentemente se afirma como evento globalizado de massa ou motivo de festa popular, associada a fenômenos alegadamente deleitosos como batuque, botequim, noitada, e, por que não?, celebridades, pois nem elas querem ficar por fora da grande “novidade” da leitura, assim como os novos “leitores” não querem deixar de tirar uma lasquinha ao vivo de seu astro, que digo?, de seu “autor favorito”. Dessa tendência, a pergunta relevante é saber em que medida a imaginação da literatura, trabalhada pelo marketing dito “cultural”, pode contribuir para incrementar o hábito festeiro, pois a questão contrária, isto é, de que modo a festa pode contribuir para a literatura, é apenas uma piada de salão.

2. A afirmação dos concursos literários, agora expandidos até para dentro da universidade, os quais, sob a intenção declarada de promover a literatura e descobrir novos talentos, acabam por premiar o mediano - o que há de mais intolerável em literatura, segundo Horácio -, pois os mais diferentes sistemas de votação, quando não são farsas descaradas em favor de amigos, favorecem os títulos que mais aparecem nas listas, em detrimento daqueles títulos que, por ser de difícil assimilação ou de pouco consenso, e, portanto, com alguma chance de apresentar interesse, jamais obtêm as médias da premiação. Ou seja, um concurso, a não ser por azar, só premia o premiável, que é um outro nome para o medíocre.

3. A implantação definitiva da ciberliteratura, atualmente já escrita com “i” e pronunciada do mesmo jeito, na qual os autores jovens, afetos a computadores e informática, supostamente deram de ombros às recusas de publicação das editoras tradicionais ou às críticas caretas dos velhos críticos e se lançaram de cabeça na internet, sendo lidos pelos seus amigos, pela sua comunidade, e até pela parcela dos velhos críticos desejosos de continuar eternamente jovens. Dentre estes, há duas tendências: a dos que acham que a ciberliteratura é uma nova forma de erudição, pois os “jovens internautas” emulam os grandes autores da literatura brasileira e mundial, e a dos que pensam que a “explosão” das novas linguagens produz um tal frenesi semiótico que nada se pode dizer desses autores, senão estar atônito a admirar a coragem com que montam o cavalo xucro das novas tecnologias.

4. A transferência dos reality shows da TV para os best-sellers das editoras mais aventureiras, que usam seus olheiros para descobrir “testemunhos” de participantes de toda forma de vida secreta, marginal, imoral, cujos relatos despudoradamente crus e confessionais excitam a imaginação dos leitores fugazes da classe média, que tudo o que conhecem de excessivo, por experiência própria, é trabalho e trânsito. Nesta tendência, têm lugar destacado as confissões de prostitutas, de traficantes descolados em sociologia, e, acima de todos, as confissões sexuais de adolescentes perdidas num mundo cheio de confusão e ecstasy. Se o primeiro item desta lista promete que literatura também é festa, este evidencia que ela, potencialmente, é também esbórnia, bandalheira, mundo-cão - infelizmente, desta vez, sem a trilha sonora de Riz Ortolani.

5. A volta da velha noção de “geração”, a qual, depois de ter logrado um bem-sucedido hype na Vila Madalena com a invenção da saudosa “geração 90”, presta-se ainda a um tour de force para requentar o mesmo, seja trocando cada vez mais velozmente os seus algarismos (“00”, “0.5”), seja postulando a geração “entre séculos”, ou até a geração “não-geração”. Tudo para assegurar que haja alguma movimentação literária fora da exigência de inovação inerente ao campo literário, ou para forjar um atalho que submeta a literatura à idade dos seus praticantes, uma vez que parece impossível fazê-lo por meio do nível da sua criação.

6. A multiplicação de livros com testemunhos tocantes em zonas de conflito do mundo globalizado, onde cachorrinhos, livrarias, pipas e outros objetos amigáveis reencontram um hálito de humanidade em situações brutais de guerras. Nesses relatos, os elementos tribais em conflito ganham toques pitorescos e culturais e os paradoxos e contradições dos interesses do capital internacional oferecem rica oportunidade para que os ocidentais céticos ou cínicos redescubram a riqueza e a esperança “pós-humanas” escondidas no mundo primitivo.

7. O uso da literatura como repertório de narrativas edificantes, figuras comoventes e sentenças judiciosas para auxílio da filosofia em situações que demandem a adesão imediata do ouvinte não especializado, como no caso exemplar de programas de TV, onde filósofos sem preconceitos em relação à grande mídia se esforçam para ajudar o cidadão comum a encontrar a luz compreensiva da… cultura.

8. O uso da literatura como repertório de narrativas, figuras e sentenças de impacto para uso de nietzschianos e deleuzianos desbundados, que acham que o que realmente importa, mais do que os estudos de Filosofia e Literatura, é a Vida, ela mesma, cuja logogenia multívoca, pulsando nos devires, é inapreensível por meras disciplinas acadêmicas. Contra o estudo árido e estéril, a Vida latente na literatura da rua, fonte privilegiada de hibridismos culturais, pode prover a filosofia da sensualidade e fluidez do papo-cabeça.

9. No âmbito da crítica universitária, a tendência mais notável, que entra em cena pisando firme sobre a antes obrigatória modéstia afetada, é a autopromoção, que faz de cada pesquisador um microempresário, com um vibrante e crescente repertório de truques: a “autocitação”; os quotation-buddies; a disposição de “formar quadros”, em vez de simplesmente dar aulas; a implantação de “linhas de pesquisa”, em vez do mero estudo da matéria, e, de modo genérico, a inflação do currículo, ou, para os íntimos, a turbinagem do Lattes -, por exemplo, com a organização de livros com artigos de amigos, que ninguém leu, nem quer ler, nem vale a pena ler, sem nenhuma relação entre si a não ser a irrelevância hiperprodutiva. Variante do item é a publicação de livros de homenagens a professores, os quais, mais ou menos constrangidos pelas exéquias precoces, são obrigados a se transferir para o limbo olímpico. Mais constrangidos ficariam se adivinhassem que a motivação derradeira das “homenagens” é o esforço de obter publicações do grupo 1 da Capes, e, por conseguinte, arrancar boas notas para seu programa de pós, o que não deixa de dar certa nota cívica ao oportunismo.

10. Ainda no âmbito da crítica universitária, o dernier cri é dado pela autonomização de um campo de pensamento sobre a literatura que pode se dispensar da literatura, isto é, um campo que se afirma como teoria pura, independente da literatura, assim como da filosofia. Com balizas atribuídas a autores como Benjamin, Adorno, Derrida, Lacan, Lévinas, Habermas, Jameson, Agamben, etc. , o novo campo garante que não há privilégio maior para a literatura do que fornecer modelos de reflexão para a “teoria”.

Em conjunto, todos os dez itens, em maior ou menor grau, com mais ou menos euforia, apontam para um mesmo ar do tempo em que se consolida um enorme desprestígio da literatura como campo de pensamento e cultivo, de modo que, para reanimá-la de seu túmulo, é preciso sacudi-la com festas, cortejá-la com prêmios, atualizá-la com computadores, torná-la sexualmente atraente e visualmente apelativa, descobri-la índice de partido jovem, levantá-la como bandeira da paz e amor em meio à guerra, vibrá-la sentenciosa e edificante, eletrizá-la de vitalismo, inflá-la com índices das agências de fomento, e, por fim, embora o desprestígio não dê sinal de ter um fim, ostentá-la como exemplo de repertório empírico à disposição de uma metalinguagem que lhe é vastamente superior. Tudo somado, fica bem claro que literatura, hoje, vive aquilo que os americanos chamam de “downhill”, e nós, em tradução grosseira, de descida da rampa. Caso o diagnóstico pareça demasiado duro a espíritos sensíveis e esperançosos, o desprestígio sempre poderá ser traduzido por superprestígio, à maneira dialética da bossa nacional.

Alcir Pécora em Dez Passos Rumo ao Desprestígio.

Estadão, 30.12.07

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Gênio

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Nação de Zumbis

Os vôos solos de Jorge Du Peixe, Degue e Pupillo (featuring Rica Amabis), além de Toca Ogan.

Coisa fina.

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Orgasmo

“Comunismo é justamente uma das coisas com as quais tratei de não me iludir, embora tenha feito o que pude para permanecer leal a ele e a sua memória. O fenômeno do comunismo e a paixão que ele levantou foi algo específico ao século 20.”

 

***

 

“O fundamentalismo islâmico não é um grande perigo porque não é capaz de vencer guerras. Para compreender a situação atual, é preciso compreender que o Onze de Setembro jamais ameaçou os EUA. Foi uma tragédia humana que humilhou os EUA, mas o país não estava de forma alguma mais fraco após os ataques. Três ou quatro ataques equivalentes não mudarão a posição de poder dos EUA no mundo.”

 

***

 

Eu não sei você, mas eu me satisfaço profundamente quando ouço/leio opiniões inteligentes, sensatas, embasadas, idéias bem formuladas e não a repetição do que se houve na parada de ônibus, na conversa rápida com o taxista, o senso comum e mediano das coisas. É por isso que eu gosto tanto de ouvir/ler Eric Hobsbawm.

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Manic Street Preachers

Send Away The Tigers. Puta disco! Eu fico feliz quando ouço um disco bom do início ao fim. Rock no talo e soltando os cachorros.

Baixe aqui.

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Calvin. O filme?

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Música para domingo

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Juno

Em resumo, Juno é o contraponto perfeito para a abordagem que cineastas como Gus Van Sant costumam fazer da juventude, principalmente da adolescência. Em detalhes é um filme cutie, divertido, com um roteiro original impecável e atuações que de tão palpáveis despertam no espectador uma empatia bem próxima do que Pequena Miss Sunshine conseguiu ano passado na corrida pelo Oscar. A história da gravidez acidental de Juno, vivida por Ellen Page, leva o filme a lidar com uma série de questionamentos que se desenrolam de uma hora para outra formando uma teia de conflitos internos e cobranças externas inusitadas para a até então vida pacata da protagonista, de sua família tipicamente midlebrow e do pai da criança, Bleeker, interpretado por Michael Cera. O filme faz uma abordagem sutil mas eficaz da repercussão social da gravidez em plena adolescência, a inabilidade de lidar com sentimentos e responsabilidades, coisas que no fim das contas servem para amadurecer forçadamente a protagonista. Inclusive a inusitada “solução” que ela encontra para o “problema” da gravidez. O filme torna-se ainda mais interessante pela quantidade significativa de referências a cultura pop, desde clássicos de cinema gore a música do Carpenters interpretada com maestria pelo Sonic Youth. Por falar em música, a trilha sonora folk está a altura do filme, doce e cativante como o semblante de Juno após a tempestade que sacode sua vida. Para melhor, diga-se.

Juno, 2008, Jason Reitman

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Feliz Aniversário

O bolo de aniversário de São Paulo, com 454 metros, foi devorado em 15 segundos. Parabéns Desvairada!

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Gatunagem

Estão tungando a patuléia.

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