Arquivos de dezembro, 2007
Desestranhando
Pelo que certamente fará de 2008 um ano melhor ainda:
Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto “para quê”?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.
Ferreira Gullar, em Estranheza do Mundo.
Deixe seus comentáriosAos amigos do filho
“A mesma coisa acontece com cinema. Para falar a verdade, detesto filmes cabeça, filmes intelectuais que fazem a delícia dos cinéfilos. Eu não faço distinção entre os tais filmes de arte. Ou eu gosto do filme ou não gosto e pronto. Não me interesso por essas frescuras. Quando são bons eu gosto e vejo até o fim, mas quando são chatos eu vejo no máximo dez, vinte minutos e aí já saio à procura de outra coisa. Vou confessar uma coisa: não suporto crítica de cinema. É começar a ler e ficar mortalmente entediado a seguir.”
É por isso que eu gosto de Carlão.
Deixe seus comentáriosFrost
Pois esse poema me traz de volta as cercas de pedra do sertão:
Alguma coisa existe que não aprecia o muro,
Que enfia bojos de terra gelada por baixo,
E derrama as pedras superiores ao sol,
E faz buracos onde até dois podem passar abraçados.
O trabalho dos caçadores é outra coisa:
Eu cheguei depois deles e fiz a reparação
Onde não deixaram pedra sobre pedra,
Mas conseguiram pôr a lebre fora do esconderijo,
Para deleitar cães latidores.
As brechas, quero dizer,
Ninguém as viu fazer ou as ouviu fazer,
Mas na época primaveril dos arranjos encontramo-as lá,
faço o meu vizinho saber para lá da colina;
E um dia encontramo-nos para percorrer a linha
E assentarmos o muro outra vez entre nós.
Mantemos o muro entre nós enquanto avançamos.
A cada um as pedras que caíram para cada um.
E algumas são formas e outras são tão como bolas
Que temos de usar um feitiço para as equilibrar:
“Fica onde estás até voltarmos as costas!”
Ficamos com os dedos ásperos de as manipular.
Oh, somente outro género de jogo ao ar livre,
Um de cada lado. Mas vai mais longe:
Aí onde se encontra, nós não precisamos de muro:
Ele é todo pinheiros e eu sou um pomar de maçãs.
As minhas macieiras nunca atravessarão
Para comer os cones sob os seus pinheiros, digo-lhe eu.
Ele só me diz, “Boas cercas fazem bons vizinhos.”
A primavera instiga-me e pergunto-me
Se lhe posso despertar a razão:
“Porque razão fazem bons vizinhos?
Isso não é
Onde existem vacas?
Mas aqui não há vacas.
Antes de construir um muro eu inquiriria para saber
O que estaria a incluir ou a excluir,
E a quem era suposto ofender.
Alguma coisa existe que não aprecia o muro,
Que o quer no chão”. Poderia dizer-lhe “duendes”,
Mas não são duendes exactamente, e eu prefiro
Que ele o diga a si próprio. Vejo-o por ali,
A agarrar uma pedra com firmeza pelo topo
Em cada mão, como um antigo selvagem armado de pedras.
Move-se na escuridão e parece-me,
Não apenas a das florestas e a da sombra das árvores.
Ele não irá atrás do dito de seu pai,
Gosta de ter pensado naquilo tão bem
E diz novamente,
“Boas cercas fazem bons vizinhos.”
Robert Frost, em Muro Remendado.
1 comentárioUm de muitos
A verdade é que junto com você, um tanto de fantasmas e coisas vão chegando para fazer casa nos cinquenta e poucos metros quadrados. Papel sobre tudo e valendo nada, revistas, cacarecos e quinquilharias, além de comidas que eu sequer lembrava que já havia provado. As embalagens marcando a data de anivérsário passada, uns com quase dois anos de não-vida, vencidas. E a vida vai tendo que ser tocada, nesse ressuscitar de mortos e jogar de coisas fora. Até que seja ano novo, vida nova, onde se amontoarão novos fantasmas, papéis e comidas vencidas pelos cantos da casa. Em verdade em verdade vos digo, é apenas o começo do ranger de dentes que é fazer uma mudança de casa.
Deixe seus comentáriosAmbíguo
“A apresentadora Gloria Maria deixou a apresentação do “Fantástico”, da TV Globo. De acordo com uma nota da Central Globo de Comunicação, ela pediu um período sabático de dois anos para se dedicar a projetos pessoais, como escrever um livro, viajar a lazer e se dedicar às aulas de canto.”
E quando ela lançar o livro? E quando fizer show? E quando for contar da viagem? Compensa a paz que será a sua ausência por dois anos? Cruel, a dúvida…
1 comentárioEtimologia
Um deputado da aldeia deu de presente a Sua Santidade, a Governadora do Ryo Grand del Nuerte, um brinco de ouro muciço cravejado de brilhantes na forma da Ponte de Todos. Segundo as folhas, ela agora carrega o mimo pendurado no devido lugar. Eis, portanto, a materialização da palavra chirimbaba ou xeleléu, como queira.
Repetindo Jackeline, enquanto juntava os miolos de Kennedy, naquele fatídico dia em Dallas: “Oh, no!”
Deixe seus comentáriosPQP!
Isso é muito bom!
Deixe seus comentáriosRotina
A ressaca do porre de peru com farofa, cerejas, passas, “meu amigo secreto é…” e toda sorte de luzinhas e Simone cantando músicas do inferno foi curada na fila do FGTS. Um horror de gente horrorizada com tamanha burocracia e lentidão, apenas dois caixas para atender meio mundo. Eis o mundo real. Desencastelei direto para o hades. Preciso do seguro-desemprego.Duas horas e dezessete minutos de pé, pensando no mundo, olhando para a rua, contando carros, ouvindo uns discos, repetindo uns versos e quando chega a minha vez… Sorry, faltou um documento, sem essa assinatura não é possível dar entrada no processo.They tried to make me go to rehab,but I said ‘no, no, no’. Se reclamar é pior.
Da Ribeira para a Cidade Alta em três ruas e um sol que parece seiscentos diabos com seus candeeiros apontados para a minha cara, a essa altura vermelhinha como um tender especial de Natal. Preciso imprimir parte do livro e ainda levar à UFRN para providenciar a ficha catalográfica de Dias Estranhos.
Tem impressão?
Sim
Quanto custa?
Cinquenta centavos a página.
São
quinze, por favor.
…
…
É um trabalho?
De certa forma,
sim.
Eletricista, né?
Como?
Você é eletricista?
Não, como assim? Por
quê?
Esse poste aqui, ficou bonitinho. Achei que fosse coisa de
eletricista.
Ah, não, não, é… Um livro. Literatura. O poste é só
decorativo.
Um poste decorado? Como de natal?
Não, o poste é apenas
decorativo, para decorar a capa do livro e algumas páginas de dentro.
Ah…
Bonitinho. Livro de quê?
Da vida. Crônicas sobre a vida, calor, ônibus,
atraso, coisas assim.
Hum… Gostei mais do poste que do assunto
(risos).
Ah, eu também.
Sete reais e cinquenta centavos.
Ok. Sete e
trinta paga?
Sim, sim.
Até mais! Feliz ano novo!
Pra você também!
O circular atravessa a marginal e entra no Campus numa lentidão de remoer o estômago, ainda faminto. O rapaz tenta me convencer que fichas catalográficas produzidas pela biblioteca da UFRN só são permitidas para livros editados pela editora da instituição. Por sorte tinha em mãos o último exemplar do meu primeiro livro, com a ficha produzida pela mesma. Depois alguém explica que eu tinha razão e que o rapaz teimoso apesar de simpático, era bolsista-novato-ainda-não-pegou-todo-o-serviço. Livre. Um picolé cai bem.
No centro de convivência encontro um velho amigo na banca de jornais com o oásis colorido da Kibon Sorvane decorando a entrada. Um picolé de Guaraná Antarctica. Será que presta?
Rapaz, quem chupou gostou. Dizem que tem até o gazinho (risos).
Ah, tá. Bom,
então me dá um e uma água sem gás.
Conversa vai, conversa vem e de Heidegger e Hegel passamos - e agora já não me lembro como - para mulheres, contas, casamento, a vida sem tirar nem pôr.
Solteiro, ainda?
Nada, noivei.
Sério?
É. Me aquietei mesmo,
sabe?
Que bom.
Não sei se é bom. Mas está rolando. Cheguei a diversas
conclusões esse tempo todo.
Por exemplo…
Ah, sei lá, que tipo… Na real
pra gente ficar bem e tal com alguém, esse alguém tem que ser alguém quieto
também, na paz. Óbvio que uma putanesca é massa, uma wild girl, mas essas deixam
a gente no meio do caminho, sempre, sem exceção. Para casar, só com moça de
família. Putanescas… Deixei mesmo, de vez.
É uma tese…
É a verdade,
estou te falando. Isso ninguém me tira mais da cabeça, saca?
Saco. Então é
isso. To indo, bom te ver, bom casamento, feliz ano novo!
Valeu. E o picolé,
é bom?
É… parece guaraná sem gás.
De lá novamente para o circular, depois para a passarela com um vento quente, parecendo mais o bafo do cão soprando na nuca vermelha como um tender especial de natal e mais um ônibus, mais sinais, mais gente, outros discos, a parada. Casa. Puta merda. Ainda preciso do seguro-desemprego. E se reclamar é pior.
Deixe seus comentáriosFeliz Natal
“A esse sentimento desconhecido, cujo tédio e doçura me obcecam, hesito em conferir o nome, o belo nome grave de tristeza. É um sentimento tão completo, tão egoísta que quase me envergonha, enquanto que a tristeza sempre me pareceu um sentimento digno. Eu não a conhecia, mas sim o tédio, o arrependimento, mais raramente o remorso. Atualmente, algo me envolve como uma seda, irritante e doce, me separa dos outros.”
Bom dia tristeza, de Françoise Sagan. Presente de Dom Mario I.
Deixe seus comentáriosMagistral
Já estou deitado, mas um rumor singular, um frêmito na casa de alto a baixo, aliados a vagas harmoniosas, afastam o sono de mim. Sem dúvida eu tinha notado, durante o dia, os preparativos. Sem dúvida tinham me dito que iria haver um baile nessa noite. Mas um baile, o que é? Eu não tinha dado importância e estava na cama como nas outras noites. Mas esse rumor agora… Eu escuto; tento surpreender um som mais distinto, compreender o que se passa. Apuro o ouvido. No fim, sem agüentar mais, me levanto, saio da cama às apalpadelas no corredor escuro e, descalço, ganho a escada cheia de luz. Meu quarto é no terceiro andar. As ondas de som sobem do primeiro; tenho de ir ver; e à medida que me aproximo de degrau em degrau, identifico sons de vozes, o roçar de tecidos, murmúrios e risos. Nada tem o ar de costume; parece-me que vou ser iniciado de repente numa outra vida, misteriosa, diversamente real, mais brilhante e patética, e que começa só quando as crianças foram para a cama. Os corredores do segundo andar, tomados pela noite, estão desertos; a festa é lá embaixo. Avanço um pouco mais? Vão me ver. Serei castigado por não dormir, por ter visto. Passo minha cabeça entre os ferros da balaustrada. Justamente, os convidados estão chegando, um militar em uniforme, uma senhora toda em laços, toda em seda; ela segura um leque; o empregado, meu amigo Vitor, que eu não reconheço de imediato por causa de sua calça-culote e das meias brancas, se posta diante da porta aberta do primeiro salão e anuncia os convidados. De repente alguém salta em minha direção: é Marie, minha babá, que como eu está tentando ver o baile, escondida um pouco mais abaixo, no primeiro ângulo da escada. Ela me toma em seus braços; acho primeiro que ela vai me levar de volta ao meu quarto, me prender lá; mas não, ela faz questão de me levar para baixo, ao contrário, até o lugar em que ela estava, onde o olhar colhe um fiozinho da festa. Agora eu ouço perfeitamente a música. Ao som dos instrumentos que não consigo ver, cavalheiros turbilhonam com suas damas enfeitadas, que são todas muito mais bonitas que as mulheres do meio do dia. Cessa a música. os dançarinos estacam; o som das vozes substitui o dos instrumentos. Minha babá vai me levar de volta, mas nesse momento uma das belas damas, que se encostara perto da porta e abanava o leque, repara em mim, vem, me beija e ri porque não a reconheço. É evidentemente aquela amiga de minha mãe que eu vi precisamente nesta manhã; mas ainda assim eu não estou muito certo que seja mesmo ela, que seja ela realmente. E quanto volto à minha cama, tenho as idéias todas confusas e penso, antes de mergulhar no sono, confusamente: existe a realidade e existem os sonhos; e depois existe uma segunda realidade
Andre Gide, em Se o grão morre.
Deixe seus comentáriosPresente de Natal
Eu vou pensando no que dar a você de Natal enquanto caminhamos pela rua lado a lado, meu braço sonso brincando de roçar o seu só para sentir me eletrizarem os pelos. Quanto poder temos um sobre o outro - e o duplo sentido da frase só a torna mais exata.
Vamos em silêncio satisfeito, mas uma dor improvisada jaz lá no fundo do meu peito. O que te dar de presente? Lágrimas, versos, gozos - tudo isso eu já dei. O que mais posso dar? Eu finjo não saber, enquanto brinco de roçar meu braço no seu sem que você perceba, assim vestida dessa alegria distraída que lhe cai tão bem.
Tanta coisa eu queria te dar, tanta coisa… Algumas são mesmo impublicáveis: umas porque são quase obscenas, outras de tão ingênuas. Coisas tão práticas como um vestido verde musgo; coisas tão supérfluas quanto uma luneta… Você seria a única mulher que eu conheço a possuir uma luneta! E nenhuma outra fica melhor do que você de verde-musgo…
Algo nos une, algo mais do que essas formiguinhas que saltam invisíveis de você para mim e me percorrem velozes antes de voltar para você, num círculo que nos mantém delicadamente imantados. Somos dois, somos um e nada que venha do mundo pode nos ferir.
Eu sei muito bem o que quero dar a você: meu amor em forma de praça. Meu amor em forma de praia você já tem. Mas ao meu amor já não lhe basta ser uma praia deserta e bruta que a brisa acre do mar amansa à sombra de umas amendoeiras. Meu amor agora quer ser praça! Uma praça imensa, cercada de árvores altas, onde bem no centro exulta um chafariz incessante. Ao fundo, voltada para o nascente, há uma igreja só porque você também fica bonita de branco e não existe nada mais parecido com um chafariz do que uma noiva de véu e grinalda. Do outro lado, há um cinema. Há barraquinhas de flores nessa praça, um pipoqueiro, algodão doce e um anacrônico lambe-lambe para registrar nossos momentos mais felizes.
Sim, quero um amor de onde a gente possa assistir o mundo, anônimos e felizes, depois da praia. Uma praça onde aconchegar para sempre nossos velhos e crianças. Pra sempre, eu disse - e tomei um choque no seu braço…
De Antonio Caetano, em Café Impresso.
Deixe seus comentáriosVida
“Naquela noite ele e Linda chegaram e nós estávamos sentados lá, assistindo tevê, e ficamos nessa de ‘ha-ha, não ia ser engraçado se a gente aparecesse de repente no estúdio?’, mas aí não fomos. Foi a última vez que nos vimos.”
Lennon, falando sobre Paul e a vida. Aqui.
Deixe seus comentáriosSans tecnologique
Daqui a dois dias tentarei fazer o mesmo.
Deixe seus comentáriosSouvenir
Tudo sob controle:a famíliae as prestações.O carro pagoé lavado e esfregadotodos os domingos.Não faz vergonha estacioná-lodiante de Deus ou do Clubedos Colecionadores de Esporro.Não beberá este chope, não provará destas
mulherese os dez mandamentos, no bolso,estão juntos do cartão de créditoe das apólices de segurocontra a liberdade.Tudo sob controle:um túmulo foi compradoem módicas prestaçõespara a família que cresce,uma família que sabeas quatro operações da vitória.Tudo sob controle:menos a agoniade esperar tanto tempo.
Alberto da Cunha Melo, em Controle Remoto.

